Samstag, Januar 02, 2010

Sobre Marmieládov

É a personagem dostoievskiana que em minha opinião é a que mais obedece ao conceito de "homem no homem". Apesar da idéia maior, a idéia que gera o princípio de síncrise ao longo da obra Crime e Castigo que parte de Raskólnikov, é em Marmieládov que encontramos uma crise interna e desagregação de consciência grandes. Ele é o pai de Sônia, personagem que se prostitui para sustentar os irmãos pequenos e o alcoolismo do pai, é quem ao longo da obra vai dar redenção à Raskólnikov; bêbado e fracassado em todos os projetos da vida, Marmieládov vive pelos bares contando sua história para desconhecidos com o mais alto tom de sofrimento. Procura na vida não uma salvação, mas um castigo duro para si mesmo pelo seu alcoolismo e covardia diante da vida. Mas mesmo em sua covardia o que consigo ver em Marmieládov é dignidade. A personagem é antes de mais nada a primeira a reconhecer seus erros, sua doença, seus malogros e faz questão de cada minuto de sua vida chafurdar na mais profunda dor e humilhação na esperança que o seu fracasso seja não só redimido mas revertido em um martírio que leve ao perdão de si mesmo. Ou seja, ele crê que em seu sofrimento vai ser transformado em algo maior, em seu próprio oposto e assim salvar seus erros.
A sua desagregação de consciência não fica muito evidente no livro, a maioria ocupada na "übermenschidade" de Raskólnikov vê em Marmieládov apenas a figura de um bebum ridículo. Mas Fiódor foi tão genial que a figura de Marmieládov fica clara para quem presta atenção nos capítulos do livro. Ele não consegue sair de sua situação porque a quebra de consciência acaba por resultar em quebra de tempo, assim, ele nunca conseguirá consertar sua vida, pois a outra personagem dentro dele ("homem no homem") está lá apontando seu fracasso, sua imundidade, mas o que Marmieládov é (bêbado e perdedor) luta contra essa personagem dentro de si. Assim, ele tem uma vida e tem chances, mas já não sabe como viver essa vida independente da razão que tem dentro de si, que diante da perda de tempo e de sentido vira apenas resignação.Isso fica claro no seguinte trecho: "Entende, será que entende, meu caro senhor, o que significa não ter mais aonde ir?Pois é preciso que qualquer pessoa possa ter pelo menos aonde ir..." (Crime e Castigo, cap. V/S.49-51). Ao longo do tempo ele vai se movendo menos, a vontade de qualquer coisa (até mesmo de salvar seus filhos e sua esposa da miséria) vai se tornando menor até se perder no esquecimento. E assim se vai Marmieládov: seus pedaços de miséria se espalham pela rua de São Petesburgo. Um bêbado cheio de dignidade esmagado por um atropelamento.

Kommentare:

Paulo hat gesagt…

Um dos meus personagens favoritos de Crime e Castigo. O próprio nome já é uma brincadeira interessante. Adoro a parte em que ele fala que a mendicância é um vício. Opinião que compartilho.


Achei o blog interessante. Você parece gostar bastante dos Russos, assim como eu.

Paulo hat gesagt…

Pois, então. Não posso garantir a veracidade da informação, pois meus conhecimentos de russos se limitam a Isbá e Mujique.

Na edição que eu li, existe algumas notas do tradutor sobre os nomes do personagens. Raskolnikov, por exemplo, vem da palavra russa "Raskol", que significa cisão.

Já Marmieládov, por sua vez, provém da palavra "Marmielad", que significa um tipo de doce.

Pela utilização da palavra, Dostoiévsk já dava pistas do caráter Inseguro e confuso do nosso amigo.

Anonym hat gesagt…

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