Samstag, August 01, 2009

Atrás

" Meu Deus, mas como você me dói de vez em quando!"
C. F. Abreu



A diferença não estava mais em entrar no ônibus ou não, avisar ou não, São Paulo ou Curitiba, delineador ou lápis de olho. Os olhos iam terminar inundados de qualquer forma, assim como iria também inundar algo dentro de si, e ela nem sabia bem o que era. Inundou tanto que ela teve que tirar as sandálias e esfregar as plantas dos pés em cada paralelepípedo da rua. Contou as linhas da faixa de pedestre e se perguntou por que o pôr-do-sol era tão mais bonito lá. Era lá que ele estava e ele ficou com tudo, não foi? Ficou com a calma, com o pôr-do-sol e o cheiro de algo que continha vida. Você teve que se conformar com o vapor do monóxido de carbono que queimava as suas narinas, assim como o seu cigarro. Só restou isso e uma enorme expressão nauseada diante do mundo e você nunca ao menos se envergonhou disso.
Talvez por isso você tenha tomado o expresso de um gole só, talvez por isso você queria chorar pelas ruas, pela beleza e não pelo encontro. E você nem o sacudiu ou esbofeteou. Nem abraçou. Você não queria se levantar daquele banquinho tão banquinho, tão branquinho. Era muito feio tudo aquilo, mas ficou bonito porque ele chorou, ele sempre chorou, sua boba. O finalmente abraço foi de tão perfeito encaixe que a natureza tratou de tirar uma foto, vocês deviam tanto uma foto à natureza... Vocês também deviam uma união à ela. E tudo ficou num tatear de mãos pelo rosto, pelo pescoço, pelas nádegas e pernas.
Ficou a certeza drástica do amor, não pelas fantasias mas pelas certezas. Numa linha tênue e paradoxal temos uma visão microscópica de algo sensível, palpável e nunca mutável. E ainda a telescopia de ver muito longe - mas ainda assim enxergando com firmeza - aquilo que realmente é. Sem devaneios ou palpites. Assim ela mordia o alto de seu ombro, não como um gesto amoroso, mas como tentativa de levar aquele pedaço de carne dura consigo, como um belo souvenir. E essa carne tinha gosto de tecido mal passado, salgado ( pelas lágrimas que caíam em cima) e de chegada. Ela queria gritar " covarde!", mas as lágrimas nem demoraram assim como o rancor. Um sorriso, muitos beijos, um perdão de cada lado e certezas, finalmente certezas! Eles sentaram-se sobre o paralelepípedo esperando que um caminhão os atravessasse. Não era morte mórbida, era descobrimento da vida, e de coisas feias que nela também haviam: mentira, desilusão, desamor. Mas nada disso lhes pertencia e esse foi o motivo da morte. Já chegaram ao final da busca, não só isso: morderiam-se, colariam-se em um interminável abraço, copulariam como quadrúpedes e morreriam.
- Chegamos ao fim, meu bem.
- Agora sim.

Kommentare:

Roberto Borati hat gesagt…

muito, muito bom.

sempre tem um fim e que belo fim, ou não...rs

thisisthenewshit hat gesagt…

Que profundo, Aninha.
É sempre tão mais gostoso ler coisas assim do que os pseudo-jornalistas que entopem esse blogspot, sempre faz a gente pensar, sempre faz descobrir uma metonímia nova, enxergar filosofia no background.

Mas, ó, entre Sampa e Curitiba, vá pra Sampa, tá? Que daí a gente se vê. :D

Ana ® hat gesagt…

nossa, xará.. como uma dor pode ser expressa com beleza e profundidade? Foi o que você fez nesse texto... parabéns!