Montag, April 13, 2009

Estrelas até o céu



O ônibus acelerava e freava de acordo com os pardais eletrônicos que ameaçavam uma multa. Arranhava o asfalto já tão gasto e tão maltratado pelas erosões do clima - e da imperfeita obra-. Não havia mais tantas luzes. Era manhã e os postes estavam apagados. O sol não chegava ao chão e nem passava perto das folhas de árvores. Engraçado isso, ele só ilumina as folhas, não as seca.
Cidade pequena, casa cheia. Uma garota branca, de óculos enormes e de tranças nos cabelos seria algo tão estranho assim? Talvez a garrafinha de água em mãos e o ar aluado a fizesse parecer uma estrangeira, talvez. Enfim, almoço de família, não? O " como você cresceu!", foi substituído pelo " como você está magra!"; lamentos. E a priminha de colo sorria e sorria. Olhos enormes, tênues. Com os olhos tênues e enormes talvez ela engolisse cada um por um e ninguém pudesse fazer-lhe mal, por isso ria para todos e babava.
Passos arrastados pela varanda e os olhos alcançaram o céu enorme e negro. Na cidade ele é negro, lá não. É azul-cor-de-céu-bonito. E enfeitado com estrelas que preenchem as pupilas e as fazem não parecer tão grandes assim. Afinal de contas, as veias nunca carregam sangue puro. Está sempre muito batizado e já desistiu há tempos de eliminar quaisquer das substâncias inseridas ao longo de anos, até o sangue é vítima do ócio proporcionado pelo monóxido de carbono. Os pés afundam na areia: maresia. Como há quatro anos, não é, meu amor? Mas os pés não afundavam assim tão puros na areia. O que afundou foi o corpo, na água salgada, e eu na sua cama toda vomitada; pior: o vômito era meu.
Tentar fechar a mala e carregá-la até em casa. "Estamos sempre voltando para casa", como diz uma amiga. Aqui o céu não possui estrelas, mas os edifícios possuem. E com poucas lágrimas e o sangue impuro, essas luzes-estrelas ganham mais vida e nós ficamos aqui. Deixamos os caminhos de terra e a vegetação sós. Entretanto, é no asfalto que os pés queimam e acumulam rasgos. Impossível de caminhar, por isso nos arrastamos. Aliás, por isso nos contorcemos em pedaços, para não ter que andar.

1 Kommentar:

Mayara Reis hat gesagt…

Deixamos os caminhos de terra e a vegetação sós...

Eu ainda caminho pelos meus.