Escrevo recém saída de um banho frio. Aliás foi um semi-banho a julgar pelo inverno que anda dando as caras por aqui. No espaco de uma semana muita coisa aconteceu, e foram coisas boas. A verdade é que cada dia eu me integro mais aqui, isso foi difícil - como toda tentativa de adaptacao - mas natural. Sendo mais clara e objetiva: estou feliz. E com toda a licenca do mundo (nunca escrevi palavrao neste blog), pra caralho.
Claro que a felicidade tem nome, mas nao se baseia só nele. Comecei o curso de alemao e estou achando simples, talvez eu deveria ter me matriculado em um nível mais avancado, mas eu preciso de vocabulário, nao é mesmo? Ain, péra, deixa eu me ajeitar aqui na cama. Pronto. Entao, o domingo passado produziu uma segunda-feira muito triste e desnecessária, resultado: conversa em família. Como é bom pedir desculpas, minha gente! Como é bom simplesmente querer consertar as coisas, e só a tentativa já acalma o coracao. Assim a semana seguiu com muito cansaco - mas um cansaco bom, vejam bem - e com um lindo prato de Bratwurst com batatas fritas e muita maionese, rs.
A atencao agora vai para o sistema de transporte alemao: me deixa completamente maluca. Para voces terem uma ideia quase me perdi de novo ontem na volta do curso. Mas algo brilhante: meu boleto pago do curso serve de passagem! Um onibus e um trem, mas é um caminho curto e simples, o problema é que para voce se movimentar por aqui seguem uma lista de conexoes intermináveis onibus-trem que dá um pouco nos nervos. O negócio aqui é dirigir!
Vamos à fofoca: nao vou postar nomes aqui, mas vou contar os fatos (ao menos superficialmente). Ele é lindo. Demais. Estar com o G. é correr e pular no colo dele quando nos encontramos, trocar beijos e bobagens no ponto de onibus por 15 minutos (sim, ele sai de casa só para me levar no ponto quando eu saio com as outras meninas), fazer brincadeiras tolas enquanto estamos deitados assistindo tv, olhar durante horas nos olhos depois do sexo, receber um beijo na testa e nos ombros de repente, ser carregada na bicicleta no meio da madrugada por toda a cidade rindo alto, ver ele preparar o jantar e malandramente por um jarrinho com flores no centro da mesa, assistir ele comer rápido, nao ter vergonha de falar de boca cheia, ser abracada por trás até chegar no sofá da sala, escutar ele perguntando de cinco em cinco minutos se está tudo bem. É ele sair correndo da boate pra te encontrar só porque voce esta na mesma cidade, é ele fazer o maior esforco do mundo para tentar dizer alguma coisa interessante na sms. É, enfim, ser feliz.
Um abraco bem apertado em todos.
Samstag, November 10, 2012
Mittwoch, Oktober 31, 2012
Atualizando.
Entao, hoje é daqueles dias legais em que eu tenho o tempo quase todo só para mim, mas o máximo que consegui fazer foi lavar algumas roupas. Sem qualquer tipo de chance - é porque houveram tentativas - de arrumar meu quarto e limpar o banheiro. Nao quero nem pensar no esforco sobrenatural que farei para ir lá fora por as garrafas de vidro na reciclagem; e faz um dia absurdamente lindo lá fora, com direito a sol, céu azul e apenas 9 graus na temperatura. O problema é que hoje eu acordei no Brasil. Nem lembro o que ou com quem sonhei, mas o fato é que hoje eu estou no Brasil. Às vezes parece que a alma resiste aqui e fica eternamente presa lá em Barajas (Madrid) onde fiz a conexao para chegar na Alemanha.
Estou sozinha em casa e nao quero cozinhar e nem aproveitar o sol na sala e nem escapar sorrateiramente para o parque aqui perto para fumar meu Camel, nada disso. E nao é tristeza ou homesick, até porque eu estou cada dia melhor por aqui. A cultura já nao me pesa tanto, o frio já é amenizado com um bom agasalhamento (e checar sempre a temperatura antes de sair de casa, claro!), e até que - depois de sair com quase metade da Nordrhein Westfalen - eu estou conhecendo alguem super legal e o melhor: desencanada.
Aproveitando quero compartilhar aqui a diferenca gritante sobre como é sair com um europeu, rs. Eles se portam como verdadeiros cavalheiros mas sem perder a masculinidade, ao menos com o G. tem sido assim. Outra coisa legal é o leque de opcoes que eles nos dao (a maioria, porque o primeiro rapaz com quem eu saí aqui era um verdadeiro pulha), perguntando o que voce gostaria de fazer. Por exemplo na sms que recebi: "Ah Ana, nós podemos nadar, ir ao cinema, escalar, jogar boliche..." - Achei fofura, confesso. Estava tao de saco cheio da vibe um barzinho e um violao que eu estava vivenciando no Rio, viu. Nem dava mais a mínima para qualquer olhada esperta advinda da mesa ao lado, rs.
Situando todo mundo que le: eu vi o Sven só mais uma vez e nem deu em nada, além de uma conversa frouxa e um climao. Quanto ao ex-soldado alemao, o Ferdi me avisou que ele é um tipo de estelionatário e por isso foi expulso do exército - olha só a minha vibe errada agindo!-. Entao despretensiosamente conheci o G. Foi assim: eu estava saindo com uma amiga para Düsseldorf, mas antes ela queria passar na casa do G. (amigo dela de longa data) para buscar umas coisas e beber uma cerveja, e fomos...Achei ele tao fofura que logo pegamos contato, saímos dois dias depois e ontem. Só alegrias e boas risadas.
No mais já estou matriculada no curso de alemao em Kaarst. Fiquei surpresa com os elogios da diretora ao meu teste de nível (deu realmente o nível B1). Comeco na próxima terca-feira. E com o passar dos dias e das preguicas vem em todos eles meu aniversário de 23 anos. Credo, viu.
Estou sozinha em casa e nao quero cozinhar e nem aproveitar o sol na sala e nem escapar sorrateiramente para o parque aqui perto para fumar meu Camel, nada disso. E nao é tristeza ou homesick, até porque eu estou cada dia melhor por aqui. A cultura já nao me pesa tanto, o frio já é amenizado com um bom agasalhamento (e checar sempre a temperatura antes de sair de casa, claro!), e até que - depois de sair com quase metade da Nordrhein Westfalen - eu estou conhecendo alguem super legal e o melhor: desencanada.
Aproveitando quero compartilhar aqui a diferenca gritante sobre como é sair com um europeu, rs. Eles se portam como verdadeiros cavalheiros mas sem perder a masculinidade, ao menos com o G. tem sido assim. Outra coisa legal é o leque de opcoes que eles nos dao (a maioria, porque o primeiro rapaz com quem eu saí aqui era um verdadeiro pulha), perguntando o que voce gostaria de fazer. Por exemplo na sms que recebi: "Ah Ana, nós podemos nadar, ir ao cinema, escalar, jogar boliche..." - Achei fofura, confesso. Estava tao de saco cheio da vibe um barzinho e um violao que eu estava vivenciando no Rio, viu. Nem dava mais a mínima para qualquer olhada esperta advinda da mesa ao lado, rs.
Situando todo mundo que le: eu vi o Sven só mais uma vez e nem deu em nada, além de uma conversa frouxa e um climao. Quanto ao ex-soldado alemao, o Ferdi me avisou que ele é um tipo de estelionatário e por isso foi expulso do exército - olha só a minha vibe errada agindo!-. Entao despretensiosamente conheci o G. Foi assim: eu estava saindo com uma amiga para Düsseldorf, mas antes ela queria passar na casa do G. (amigo dela de longa data) para buscar umas coisas e beber uma cerveja, e fomos...Achei ele tao fofura que logo pegamos contato, saímos dois dias depois e ontem. Só alegrias e boas risadas.
No mais já estou matriculada no curso de alemao em Kaarst. Fiquei surpresa com os elogios da diretora ao meu teste de nível (deu realmente o nível B1). Comeco na próxima terca-feira. E com o passar dos dias e das preguicas vem em todos eles meu aniversário de 23 anos. Credo, viu.
Freitag, Oktober 26, 2012
Viersen, 25 de outubro de 2012.
God bless Germany!, finalmente achei um apanhado de lojas com precos acessíveis para o meu bolso, que aqui é independente. Olha a felicidade da moca ao comprar um cardigan quentinho e muitas leggings por apenas doze euros, isso mesmo! E ainda comprei uns cacarecos para o curso de alemao. A Volkshochschule, aliás, é a minha próxima parada.
A entrevista no departamento de estrangeiros foi simples. Em tres semanas eu recebo meu RG alemao, ow lindeza! É ótimo demais ir se acostumando aqui; aquele sentimento de sossego e vitória de achar tudo, resolver tudo por conta própria. Claro que meus amigos alemaes tem feito de tudo para me ajudar, ao que vou ser eternamente grata, e nao mais guardar uma mágoa bem ranzinza como eu achei que fosse ter daqui nas primeiras semanas.
O próximo passo é pedir meu Monatskarte, uma espécie de Riocard daqui. Como nao sou eu quem pago, meu salário irá render mais (a passagem aqui é absurdamente cara!), daí vou poder preparar melhor meu enxoval de inverno, que promete ser rigoroso! O pessoal do ponto de onibus deve estar achando a maior trela a carioca aqui toda de rosa, com uma caneta de sorvete na mao e escrevendo num caderno que tem na capa a Audrey Hepburn em Bonequinha de Luxo. O caderno e a caneta foram presentes da Dressa, inclusive.
O dia aqui está lindo, mas é um lindo Ana: cinzento, nevoento e árvores quase carecas. Em poucos minutos o onibus chega, e lá vou eu fazer minha matrícula e depois comer um enorme e delicioso kebap. Com pommes frites, bitte!
A entrevista no departamento de estrangeiros foi simples. Em tres semanas eu recebo meu RG alemao, ow lindeza! É ótimo demais ir se acostumando aqui; aquele sentimento de sossego e vitória de achar tudo, resolver tudo por conta própria. Claro que meus amigos alemaes tem feito de tudo para me ajudar, ao que vou ser eternamente grata, e nao mais guardar uma mágoa bem ranzinza como eu achei que fosse ter daqui nas primeiras semanas.
O próximo passo é pedir meu Monatskarte, uma espécie de Riocard daqui. Como nao sou eu quem pago, meu salário irá render mais (a passagem aqui é absurdamente cara!), daí vou poder preparar melhor meu enxoval de inverno, que promete ser rigoroso! O pessoal do ponto de onibus deve estar achando a maior trela a carioca aqui toda de rosa, com uma caneta de sorvete na mao e escrevendo num caderno que tem na capa a Audrey Hepburn em Bonequinha de Luxo. O caderno e a caneta foram presentes da Dressa, inclusive.
O dia aqui está lindo, mas é um lindo Ana: cinzento, nevoento e árvores quase carecas. Em poucos minutos o onibus chega, e lá vou eu fazer minha matrícula e depois comer um enorme e delicioso kebap. Com pommes frites, bitte!
Mittwoch, Oktober 17, 2012
Schiefbahn, 17 de outubro de 2012.
Milagre de ressurreicao do terceiro dia eu estar escrevendo de casa (mais especificadamente meu quarto), nao? Pois é, a fase da afirmacao em um lugar, a época de travar conhecimento já foi, resumindo: já encontrei uma brasileira aqui no vilarejo (nao, eu nao era a única relíquia latino-americana aqui, humpf!). Também depois do vomito ferino da dona Carminha aqui sobre mim resolvi desacelerar.
Entao lá vai a dica da Ana: lidar com a cultura de outro país nao é fácil. Com a de um país com um passado nazista menos ainda. O mau hálito da xenofobia às vezes me é insuportável; e a vontade de por a mochila nas costas e me mandar de volta para os simpáticos e abertos holandeses só aumenta. Mas tenho que reforcar meu alemao, ir para Tübingen depois de um ano aqui, ficar mais um ano lá e voltar para o tao amado (nem tanto?) Brasil.
O problema é que na semana passada minha cabeca deu um nó e eu meio que me perdi no que tenho que fazer aqui. Nada que uma boa noite de sono e um pontinho assim de sensatez nao resolvesse! Ah, parei definitivamente de sair com o D. Cacoetes esquisitos e fingimento de que está só com cartao para justificar pao durisse e dividir a conta nao é lá um atrativo para mim. O Sven sumiu (o Sven loiro-alto-lindo, nao o sobrinho de cinco anos do Paul, hein gente!), deve ter tido problemas suficientes em casa depois da nossa última noite - e manha!- juntos. Agora divido meu café, meus cigarros e um pouquinho do meu humor com um ex-soldado alemao que morava em Londres. Uma graca, lindo lindo e o mais importante: gentil.
Por enquanto a vida está assim, um breve suspiro de cansaco para cada hora que me dou conta de que nao há luz solar no meu quarto (e eu achando que isso nao seria um problema, rs...); outras vezes um suspiro de satisfacao quando caminho pelas tardes aqui, ou quando pego o trem, ou ainda: quando percebo que há em mim forca o bastante para insistir e que a beleza daqui - tao vasta - irá me ajudar facilmente. E nao é ela, por acaso, que salvará o mundo?
Ana.
P.S.: Ditta, seu cartao postal vai sair! Me de só um prazo maior porque nesse vilarejo nao encontro nada (da última vez tive que andar alguns quilometros para achar um pente - nao tinha, entao levei uma escova mesmo rs).
Entao lá vai a dica da Ana: lidar com a cultura de outro país nao é fácil. Com a de um país com um passado nazista menos ainda. O mau hálito da xenofobia às vezes me é insuportável; e a vontade de por a mochila nas costas e me mandar de volta para os simpáticos e abertos holandeses só aumenta. Mas tenho que reforcar meu alemao, ir para Tübingen depois de um ano aqui, ficar mais um ano lá e voltar para o tao amado (nem tanto?) Brasil.
O problema é que na semana passada minha cabeca deu um nó e eu meio que me perdi no que tenho que fazer aqui. Nada que uma boa noite de sono e um pontinho assim de sensatez nao resolvesse! Ah, parei definitivamente de sair com o D. Cacoetes esquisitos e fingimento de que está só com cartao para justificar pao durisse e dividir a conta nao é lá um atrativo para mim. O Sven sumiu (o Sven loiro-alto-lindo, nao o sobrinho de cinco anos do Paul, hein gente!), deve ter tido problemas suficientes em casa depois da nossa última noite - e manha!- juntos. Agora divido meu café, meus cigarros e um pouquinho do meu humor com um ex-soldado alemao que morava em Londres. Uma graca, lindo lindo e o mais importante: gentil.
Por enquanto a vida está assim, um breve suspiro de cansaco para cada hora que me dou conta de que nao há luz solar no meu quarto (e eu achando que isso nao seria um problema, rs...); outras vezes um suspiro de satisfacao quando caminho pelas tardes aqui, ou quando pego o trem, ou ainda: quando percebo que há em mim forca o bastante para insistir e que a beleza daqui - tao vasta - irá me ajudar facilmente. E nao é ela, por acaso, que salvará o mundo?
Ana.
P.S.: Ditta, seu cartao postal vai sair! Me de só um prazo maior porque nesse vilarejo nao encontro nada (da última vez tive que andar alguns quilometros para achar um pente - nao tinha, entao levei uma escova mesmo rs).
Donnerstag, Oktober 11, 2012
Krefeld, 11 de outubro de 2012.
Tenho amanhecido em dias frios, mas ensolarados. Hoje o Jannis veio correndo em direcao ao meu quarto (Ana! Ana!) com uma folha de papel: me chamou para ir ao zoológico com ele. Fiquei pululante com meu primeiro passeio em família, nao gostaria de ficar para sempre na rota quarto-pub-do-Fred.
O zoológico de Krefeld é um lugar maravilhoso. Foi harmonico demais o dia ensolarado, os animais (nada de grades ou jaulas) e caminhar por toda aquela flora outonal. As coisas aqui nao estao fáceis, ainda nao sei quem sou e sinceramente às vezes esqueco o que vim fazer aqui. Uma sensacao louca de estar perdida e meio que vagabundeando pelo mundao. Provavelmente comeco a Volkshochschule mes que vem. Mas voltando ao zoológico: quando abri uma porta me deparei com uma estufa aquecida e centenas de borboletas, de todas as combinacoes de cores possíveis, voavam ao redor de meus cabelos. Esse é um dos momentos da minha estadia aqui que vao ficar eternamente guardados, por amansarem a violencia de se estar longe.
Cada canto que olho aqui faz um rasgo de uma beleza profunda em alguma parte de mim. E fico feliz; e a homesick cresce os pés e some. O próximo post provavelmente será de Düsseldorf. Nada de badalacao, apenas vou passar o dia lá comprando alguns artigos para o inverno, e by the way, preciso de botas novas. Lembrando que esqueci meu cachecol preto em um quarto de hotel em Willich, rs. Ah, meus queridos!, a Alemanha anda moldando uma nova Ana, nem sempre de forma piedosa.
O zoológico de Krefeld é um lugar maravilhoso. Foi harmonico demais o dia ensolarado, os animais (nada de grades ou jaulas) e caminhar por toda aquela flora outonal. As coisas aqui nao estao fáceis, ainda nao sei quem sou e sinceramente às vezes esqueco o que vim fazer aqui. Uma sensacao louca de estar perdida e meio que vagabundeando pelo mundao. Provavelmente comeco a Volkshochschule mes que vem. Mas voltando ao zoológico: quando abri uma porta me deparei com uma estufa aquecida e centenas de borboletas, de todas as combinacoes de cores possíveis, voavam ao redor de meus cabelos. Esse é um dos momentos da minha estadia aqui que vao ficar eternamente guardados, por amansarem a violencia de se estar longe.
Cada canto que olho aqui faz um rasgo de uma beleza profunda em alguma parte de mim. E fico feliz; e a homesick cresce os pés e some. O próximo post provavelmente será de Düsseldorf. Nada de badalacao, apenas vou passar o dia lá comprando alguns artigos para o inverno, e by the way, preciso de botas novas. Lembrando que esqueci meu cachecol preto em um quarto de hotel em Willich, rs. Ah, meus queridos!, a Alemanha anda moldando uma nova Ana, nem sempre de forma piedosa.
Dienstag, Oktober 09, 2012
Köln, 30 de setembro de 2012.
A minha saga até a mitfahrgelegenheit obviamente nao foi concluída. Perdi minha carona, com direito a ligacoes do Herr Kramer perguntando o que estava rolando para eu ter que desmarcar etc. E ainda se virou num ingles super polido, visto que na linha havia uma Ana completamente perturbada e impossibilitada de falar alemao, rs.
Como nem tudo é confusao nessa vida e a gente tem pausa para descanso, eu cheguei com folga de horário na Köln Hauptbahnhof. Mal saio da estacao e me deparo com uma catedral gigantesca. Tento olhar para as pontas das torres e sou arrebatada com uma espécie de space dementia bem das violentas. Quanta imensidao. Quanta beleza.E brasileiros chegando! Logo encontrei minha turma e daí em diante foi banho, turismo, fotos, chacoalhar a bandeira do Brasil na cara dos alemaes e umas 372 igrejas, rs. Em uma delas havia um coro de freiras que entonavam como verdadeiros anjos. Curti Köln; ao menos pelas catedrais ternurinhas, religiao católica e óbvio: o Rio Reno. Ele está por toda parte e vezemquando paramos num café à beira, fumando nossos cigarros e cantamos you know what you are, you gonna be a star...
Agitei as meninas para garantirmos nossa cervejinha esperta na parte da noite. Oras!, minha primeira reuniao! Tinha que mostrar logo o jeitao carioca de ser (engracado isso, essa nacionalidade, esse orgulho que cresce na gente quando estamos do lado de cá); entao partimos para um simpático pub irlandes. Ao contrário dos pubs irlandeses no Rio, no de Köln realmente havia irlandeses. E um grupo de ingleses que mal nos deixaram pedir a primeira deliciosa Guiness e já foram comecando uma conversa. Resultado: aquela mesa metade samba, metade Beatles. E um John muito bebum cantando Oasis comigo. E um romance bem fofura com um charmoso professor ingles, né Paula? rs.
A volta foi conturbada, mas domingo de manha fomos dar um passeio na cidade de Beethoven: Bonn. Bem pequetita e, claro, cheirava a aristocracia. Querendo garantir mais uma cervejinha esperta para fechar o passeio, acabamos tendo problemas com a bagagem. De tanto estourarem nossa paciencia, largamos as bagagens lá mesmo e fomos dar o último Prosit! - saúde em alemao - no mesmo pub. Acabei tendo uma conversa mega descontraída com um irlandes que vive em Köln há alguns anos. Cozinheiro, barba ruiva, aquele nariz enorme e bem torto (!); se continuar assim vou me mudar de mala e alma pros lados da Gra Bretanha, hein, pessoas. Só uma coisa a dizer: recomendo.
No mais, recuperamos nossas malas e partimos num trem para nossas respectivas cidades. Eu nao consegui chegar tao facilmente porque moro quase numa aldeia indígena - vilarejo MESMO!-, entao peguei um táxi. O cansaco das viagens continua e eu ainda nao sei quando minha essencia chegará aqui. De qualquer forma, o corpo já está.
Como nem tudo é confusao nessa vida e a gente tem pausa para descanso, eu cheguei com folga de horário na Köln Hauptbahnhof. Mal saio da estacao e me deparo com uma catedral gigantesca. Tento olhar para as pontas das torres e sou arrebatada com uma espécie de space dementia bem das violentas. Quanta imensidao. Quanta beleza.E brasileiros chegando! Logo encontrei minha turma e daí em diante foi banho, turismo, fotos, chacoalhar a bandeira do Brasil na cara dos alemaes e umas 372 igrejas, rs. Em uma delas havia um coro de freiras que entonavam como verdadeiros anjos. Curti Köln; ao menos pelas catedrais ternurinhas, religiao católica e óbvio: o Rio Reno. Ele está por toda parte e vezemquando paramos num café à beira, fumando nossos cigarros e cantamos you know what you are, you gonna be a star...
Agitei as meninas para garantirmos nossa cervejinha esperta na parte da noite. Oras!, minha primeira reuniao! Tinha que mostrar logo o jeitao carioca de ser (engracado isso, essa nacionalidade, esse orgulho que cresce na gente quando estamos do lado de cá); entao partimos para um simpático pub irlandes. Ao contrário dos pubs irlandeses no Rio, no de Köln realmente havia irlandeses. E um grupo de ingleses que mal nos deixaram pedir a primeira deliciosa Guiness e já foram comecando uma conversa. Resultado: aquela mesa metade samba, metade Beatles. E um John muito bebum cantando Oasis comigo. E um romance bem fofura com um charmoso professor ingles, né Paula? rs.
A volta foi conturbada, mas domingo de manha fomos dar um passeio na cidade de Beethoven: Bonn. Bem pequetita e, claro, cheirava a aristocracia. Querendo garantir mais uma cervejinha esperta para fechar o passeio, acabamos tendo problemas com a bagagem. De tanto estourarem nossa paciencia, largamos as bagagens lá mesmo e fomos dar o último Prosit! - saúde em alemao - no mesmo pub. Acabei tendo uma conversa mega descontraída com um irlandes que vive em Köln há alguns anos. Cozinheiro, barba ruiva, aquele nariz enorme e bem torto (!); se continuar assim vou me mudar de mala e alma pros lados da Gra Bretanha, hein, pessoas. Só uma coisa a dizer: recomendo.
No mais, recuperamos nossas malas e partimos num trem para nossas respectivas cidades. Eu nao consegui chegar tao facilmente porque moro quase numa aldeia indígena - vilarejo MESMO!-, entao peguei um táxi. O cansaco das viagens continua e eu ainda nao sei quando minha essencia chegará aqui. De qualquer forma, o corpo já está.
Montag, Oktober 01, 2012
Düsseldorf, 29. september 2012.
É, fui lapear em Düsseldorf lindamente e estou quase perdendo minha carona para Köln. Brasilidades na Alemanha. Ainda bem que com um pouquinho de humor e cariocagem o D. achou engracado. A impressao que tenho é de todos torcendo por mim. Vai, Ana! Pega logo esse onibus para Krefeld!
Tenho urgentemente que estar na Krefeld Hauptbahnhof e só chegarei 11:00h em Schiefbahn. Conto com a minha cariocagem agora. Primeira vez de trem. Hora de comecar a rezar por motivos de: estar atrasada, dormi fora e nao arrumei a mala. Tá que só eu nao estou achando o atraso engracado. 10:42h , hora de comecar a rezar, ajoelhar no meio do trem e tudo o mais, se eu por um pano na cabeca nao vai parecer tao estranho (a julgar a quantidade de islamicos aqui). Dar com a testa no chao para ver se Herr Kramer nao se emputece com meu atraso. Se o trem para Köln atrasa eu chego lá nao tao linda assim, mas meio que há tempo. Será que o trem já chegou em Kaarst? Eu devia ter feito a minha mala...
Ana.
Tenho urgentemente que estar na Krefeld Hauptbahnhof e só chegarei 11:00h em Schiefbahn. Conto com a minha cariocagem agora. Primeira vez de trem. Hora de comecar a rezar por motivos de: estar atrasada, dormi fora e nao arrumei a mala. Tá que só eu nao estou achando o atraso engracado. 10:42h , hora de comecar a rezar, ajoelhar no meio do trem e tudo o mais, se eu por um pano na cabeca nao vai parecer tao estranho (a julgar a quantidade de islamicos aqui). Dar com a testa no chao para ver se Herr Kramer nao se emputece com meu atraso. Se o trem para Köln atrasa eu chego lá nao tao linda assim, mas meio que há tempo. Será que o trem já chegou em Kaarst? Eu devia ter feito a minha mala...
Ana.
Montag, September 24, 2012
Willich, 23 de setembro de 2012.
Cheguei, e junto comigo trouxe uma alergia enorme que peguei no ar seco do aviao. Para melhorar tudo o ar daqui também é seco. Se eu já sabia disso? Claro, foram muitas noites de péssimas respiracoes e nariz sangrando na Holanda, do jeito que o meu nariz está sinto é falta de quando ele só sangrava.
A cidade é linda e eu já tenho meu canto favorito: o Gartenbier. É lá que acendo o meu Camel depois de sentar satisfeita no banco de madeira, em frente ao escorregador vermelho (ao lado muitas árvores repletas de esquilos).
Ontem fui à Düsseldorf e aquilo lá é muito Niterói. Nao sei se é pelo número absurdo de chineses, adolescentes querendo impressionar com roupa-cabelos esquisitos, ou ainda, a estrutura incrivelmente comercial daquele lugar. No mais o povo é super educado e solícito. Minhas aquisicoes de lá: um chip para o celular e duas cervejas espanholas (sim, estou na Alemanha e ainda nao bebi cerveja alema, rs).
O meu quarto aqui é belíssimo. Como é no porao, tem todo um ar de bunker refinado; daí eu posso escolher entre ficar esparramada na cama gigante, assistir um pouco de tv alema, ou ficar no sofá lendo um dos livros que trouxe. Sem comentários para o meu banheiro com a melhor ducha do mundo e uma sauna.
Como o meu nariz nao está me dando paz desde que cheguei, vou dar uma caminhada para ver se a respiracao melhora.
Ana.
P.S.: Essa semana fui ao supermercado com o Jannis, e num momento de distracao eu o chamei de Sven. Nesse instante eu foquei no rosto dele: tao pálido e com cabelos tao loiros! Seria uma situacao engracada, mas é aquele momento em que a cicatriz aparece ardendo, voce a olha, e descobre, relembra, como ela foi feita, como dolorosamente ela se desenhou ali.
A cidade é linda e eu já tenho meu canto favorito: o Gartenbier. É lá que acendo o meu Camel depois de sentar satisfeita no banco de madeira, em frente ao escorregador vermelho (ao lado muitas árvores repletas de esquilos).
Ontem fui à Düsseldorf e aquilo lá é muito Niterói. Nao sei se é pelo número absurdo de chineses, adolescentes querendo impressionar com roupa-cabelos esquisitos, ou ainda, a estrutura incrivelmente comercial daquele lugar. No mais o povo é super educado e solícito. Minhas aquisicoes de lá: um chip para o celular e duas cervejas espanholas (sim, estou na Alemanha e ainda nao bebi cerveja alema, rs).
O meu quarto aqui é belíssimo. Como é no porao, tem todo um ar de bunker refinado; daí eu posso escolher entre ficar esparramada na cama gigante, assistir um pouco de tv alema, ou ficar no sofá lendo um dos livros que trouxe. Sem comentários para o meu banheiro com a melhor ducha do mundo e uma sauna.
Como o meu nariz nao está me dando paz desde que cheguei, vou dar uma caminhada para ver se a respiracao melhora.
Ana.
P.S.: Essa semana fui ao supermercado com o Jannis, e num momento de distracao eu o chamei de Sven. Nesse instante eu foquei no rosto dele: tao pálido e com cabelos tao loiros! Seria uma situacao engracada, mas é aquele momento em que a cicatriz aparece ardendo, voce a olha, e descobre, relembra, como ela foi feita, como dolorosamente ela se desenhou ali.
Samstag, September 22, 2012
Madrid, 20 de setembro de 2012.
Acabo de chegar em Barajas. Foi o voo mais rápido e confortável até agora. Apesar da imigracao daqui ser mais-que-fofa-ternurinha, odiei o lugar. Nao sei se foi pelo orelhao que me engoliu uma moeda de dois euros ou se foi mesmo mágoa por nao saber mexer naquilo.
Madrid é ensolarada. Quando o aviao se aproxima da cidade, voce pensa que está chegando em Niterói, quando o aviao chega voce tem certeza. Os espanhóis sao muito educados, mas com ares de soberbos, parecem até que esqueceram que estao falidos. Corrigem meu portugues como se soubessem portugues, ou ainda, como se a língua portuguesa fosse um dialeto mínimo - primo paupérrimo - do espanhol.
Meu voo para Düsseldorf sai em tres horas e eu preciso fumar. Rodei, rodei: nada de fumódromos, e para completar passei um pacote de cigarros para uma espanhola no caixa (para quem advém de fora da UE é mais barato) e estou com medo de barrarem a compra de um macinho simples de Camel, ótimo nao?!
É isso, vou checar meu embarque para Düsseldorf, nao quero correr o risco de ficar horas a mais na tediosa-ensolarada Madrid.
Ana.
Madrid é ensolarada. Quando o aviao se aproxima da cidade, voce pensa que está chegando em Niterói, quando o aviao chega voce tem certeza. Os espanhóis sao muito educados, mas com ares de soberbos, parecem até que esqueceram que estao falidos. Corrigem meu portugues como se soubessem portugues, ou ainda, como se a língua portuguesa fosse um dialeto mínimo - primo paupérrimo - do espanhol.
Meu voo para Düsseldorf sai em tres horas e eu preciso fumar. Rodei, rodei: nada de fumódromos, e para completar passei um pacote de cigarros para uma espanhola no caixa (para quem advém de fora da UE é mais barato) e estou com medo de barrarem a compra de um macinho simples de Camel, ótimo nao?!
É isso, vou checar meu embarque para Düsseldorf, nao quero correr o risco de ficar horas a mais na tediosa-ensolarada Madrid.
Ana.
Sonntag, April 15, 2012
D'o encontro marcado
Deixe-me ir ver o sonho, a velocidade, o milagre,
não me detenha com um olhar triste, esta noite
deixe-me viver lá longe, à beira do mundo,
apenas esta noite, depois voltarei.
[Esta História, A. Baricco; p.10]
Ela já estava a caminho. Desespero e aflições loucos daqueles que acometem quando cravamos os pés no ponto de partida, contando nos dedos se o caminho vai ser longo, observando se as pernas dariam um passo realmente largo até onde se quer ir. Tudo isso demorou dentro da mágoa daquele trânsito tão intenso, do descaso do motorista explicando que ela havia tomado a condução errada e que pelamordedeus! não era o fim do mundo, ficaria perto de lá, se os santos assim o quisessem.
A outra já estava lá. Junto com o outro. Ambos se banhando em cerveja e na mesma espera incansável que ela. Risos e histórias em comum de dez anos de espera, que mais parecia ontem, que mais parecia que a longa amizade entre o tempo que se conheceram até o tempo em que se encontraram não parecia uma linha tão basta, mas um descansar louvável do tempo, amortecendo qualquer tentativa de esforço vital.
Ela cruzou ruas, pra lá, pra cá, aimeudeus onde fica isso? Cigarro na boca depois da extensa viagem, vontade de chegar, de alongar as pernas, de sentar, de quebrar as emoções dos cumprimentos direto para o copo de chopp e acabar logo com isso. E chegou. A outra pôs-se de pé, sorriso imenso, aonde é que você estava?!, vem cá, me dá um abraço. O outro já estava de pé há tempos e atrás; sorriso brilhante, olhos piscando, como você demorou! Ah, conversas... tratando o passado tão sonhado e lúdico como uma abreviação e discutindo agruras do presente. Logo, as maldades do futuro. Uma noite que ele não queria que terminasse no até logo, visto tamanha felicidade de se descobrirem juntos e a possibilidade de lhe abrirem um horizonte melhor, depois de tanto tempo de mais do mesmo.
Ela contava os quartos de hora. A outra também. Ele estava bêbado. Elas inspiravam uma pressa absurda dessas que vem com a sobriedade. Ele queria esboçar o horizonte de que haviam lhe falado há pouco a partir desse mesmo dia, se possível naquela hora. Caminharam nas ruas com a insistência dele ecoando nos ouvidos. Elas foram, ele ficou. O até logo saiu numa voz que mal se ouviu. E dentro desse meio esteve a certeza de um vício que estava ali, não só entre eles, mas em muitos outros. Um vício franco, que não destrói, nem machuca.
não me detenha com um olhar triste, esta noite
deixe-me viver lá longe, à beira do mundo,
apenas esta noite, depois voltarei.
[Esta História, A. Baricco; p.10]
Ela já estava a caminho. Desespero e aflições loucos daqueles que acometem quando cravamos os pés no ponto de partida, contando nos dedos se o caminho vai ser longo, observando se as pernas dariam um passo realmente largo até onde se quer ir. Tudo isso demorou dentro da mágoa daquele trânsito tão intenso, do descaso do motorista explicando que ela havia tomado a condução errada e que pelamordedeus! não era o fim do mundo, ficaria perto de lá, se os santos assim o quisessem.
A outra já estava lá. Junto com o outro. Ambos se banhando em cerveja e na mesma espera incansável que ela. Risos e histórias em comum de dez anos de espera, que mais parecia ontem, que mais parecia que a longa amizade entre o tempo que se conheceram até o tempo em que se encontraram não parecia uma linha tão basta, mas um descansar louvável do tempo, amortecendo qualquer tentativa de esforço vital.
Ela cruzou ruas, pra lá, pra cá, aimeudeus onde fica isso? Cigarro na boca depois da extensa viagem, vontade de chegar, de alongar as pernas, de sentar, de quebrar as emoções dos cumprimentos direto para o copo de chopp e acabar logo com isso. E chegou. A outra pôs-se de pé, sorriso imenso, aonde é que você estava?!, vem cá, me dá um abraço. O outro já estava de pé há tempos e atrás; sorriso brilhante, olhos piscando, como você demorou! Ah, conversas... tratando o passado tão sonhado e lúdico como uma abreviação e discutindo agruras do presente. Logo, as maldades do futuro. Uma noite que ele não queria que terminasse no até logo, visto tamanha felicidade de se descobrirem juntos e a possibilidade de lhe abrirem um horizonte melhor, depois de tanto tempo de mais do mesmo.
Ela contava os quartos de hora. A outra também. Ele estava bêbado. Elas inspiravam uma pressa absurda dessas que vem com a sobriedade. Ele queria esboçar o horizonte de que haviam lhe falado há pouco a partir desse mesmo dia, se possível naquela hora. Caminharam nas ruas com a insistência dele ecoando nos ouvidos. Elas foram, ele ficou. O até logo saiu numa voz que mal se ouviu. E dentro desse meio esteve a certeza de um vício que estava ali, não só entre eles, mas em muitos outros. Um vício franco, que não destrói, nem machuca.
Sonntag, Juli 17, 2011
Cute!
- Oh, your mom in the room, blech!
- You hate my mom,not?
- Not, I love her. She gaves birth to you.
Samstag, März 26, 2011
Tormento
Donnerstag, Februar 17, 2011
Het spijt me II
"A quem confiar minha tristeza?"
[Trecho de uma das canções da Igreja Russa]
Ainda foge de minha comprensão o porquê do desculpa ou sinto muito soarem palavrões e ofensas proferidos por mim. Daí a facilidade de pedir desculpas, tentar tentar repetir até que soem como devem ser e que melhore a dor, insatisfação, que salve algum pedaço de mim ainda não esmigalhado.
Talvez a miséria seja uma roupa que combine muito com meu tom de pele. Um sinto muito com o nariz vermelho e olhos marejados devem ser muito bonitos de se verem em mim. Não sei.Nunca o quis também. E aí vem a inércia da própria situação, a preguiça da circunloquicidade dos passos que nunca serão passos e não por falta de esforço. Parar de engatinhar, começar a andar, logo correr, cansar, cortar as próprias pernas para transfigurar a maldade em pedaços pequenos da própria carne para tentar entender. Não entender, cansar de perguntar entre soluços "por que?", ver que há muito a ser feito mas ver também que é mais bonito ficar assim, parada, soluçando, nariz vermelho, sem pernas, olhos completamente perdidos; apenas um mito superestimado.
[Trecho de uma das canções da Igreja Russa]
Ainda foge de minha comprensão o porquê do desculpa ou sinto muito soarem palavrões e ofensas proferidos por mim. Daí a facilidade de pedir desculpas, tentar tentar repetir até que soem como devem ser e que melhore a dor, insatisfação, que salve algum pedaço de mim ainda não esmigalhado.
Talvez a miséria seja uma roupa que combine muito com meu tom de pele. Um sinto muito com o nariz vermelho e olhos marejados devem ser muito bonitos de se verem em mim. Não sei.Nunca o quis também. E aí vem a inércia da própria situação, a preguiça da circunloquicidade dos passos que nunca serão passos e não por falta de esforço. Parar de engatinhar, começar a andar, logo correr, cansar, cortar as próprias pernas para transfigurar a maldade em pedaços pequenos da própria carne para tentar entender. Não entender, cansar de perguntar entre soluços "por que?", ver que há muito a ser feito mas ver também que é mais bonito ficar assim, parada, soluçando, nariz vermelho, sem pernas, olhos completamente perdidos; apenas um mito superestimado.
Mittwoch, Januar 19, 2011
Graça!
Depois de cervejas o Paul resolveu aprender uma frase ou outra em português; claro que minha noção de nível de importância é por toda débil e deu no que deu, rs :
Depois ele resolveu me filmar tragando. Fetiche por fumantes? Prova criminal de que estou fumando em local fechado? Não sei, mas até que ficou legal :
Tot straks.
Sonntag, Januar 16, 2011
Het spijt me
De todos os nossos problemas o principal está comigo: não saber o significado, a importância da espera. Resquícios de minha adolescência talvez, medo de ver escorrer entre os dedos todas as possibilidades, mania de tentar sempre brincar cruelmente com o tempo, envolvê-lo com as mãos, brincar de lego, brincar de deus. E isso tem se tornado como um câncer em mim, e mal sei diferenciar amor de sinto muito por te amar tanto e machucar tanto nunca querendo machucar. Se sentir a última da fila para poder requerer seu abraço. Mas hoje temos um azul profundo de céu, querendo colorir todos os cantos, querendo nos dar uma trégua, desculpas sinceras da vida.
Donnerstag, Dezember 30, 2010
O Ritual do Eterno III
"- Ela era piedosa, mas - quem pode saber? - o coração alheio é floresta espessa!"
[ "A dama do cachorrinho e outros contos" - Tchekhov].
A vida sempre lhe fora engraçada, sempre corria para longe dela e agora, veja bem!, crescia dentro dela. Não houve expectativas desde o começo, tudo o mais mecânico possível; como naquele dia da igreja: fazer o que tem que ser feito por pior que se possa fazer ou não fazer. Papai morreu assim. Saiu mais uma vez para sua branquinha, os pés já podres e quando se viu não sabiam nem como iam enterrá-lo. Mamãe ficaria muito sentida se visse.
O ventre de uma brancura pura esticando a cada dia que esgotava, os cigarros rareando, o álcool desaparecido. Era preciso conversar sério com a vida dessa vez, um começo dela estava por vir, era preciso ajuda. Num daqueles finais de tardes demasiadamente ensolarados ele a viu: vestido florido comprido deixando óbvia a barriga, secando o suor do rostinho branco - agora ainda mais angelical -, tentou fingir estar observando a vitrine, mas logo ela o viu com uma expressão de desespero, como se pedisse perdão pelo ventre inchado.
- Eu sinto muito.
- Está tudo bem agora, querido. Preocupa não.
Sinal de afirmativo com a cabeça. Para a paternidade, para saber se estava tudo bem, se morava no mesmo lugar. Custava-lhe muito fazer o choro, a indignação presos na garganta descerem, caminhar sozinha todo aquele tempo lhe pareceu fácil, mas ver diante dos olhos o quanto tudo custou tão caro, o quão uma mão, um abraço, um eu te amo seriam bem melhores do que aqueles muros de silêncio fizeram falta pesava no coração. Daí veio o medo, sensações ruins e adjacências; era uma dor mas era um presente tê-lo lá. Ele sempre com seu rancor nos bolsos, talvez por isso sempre andasse com as mãos nos bolsos -, pronto para inundar o mundo com a sua dor milimetricamente articulada para ser vivida. Era a única pessoa que usava a dor para viver e não como conseqüência de algo. E o seu ventre, assim, tão grande e tão frágil ao mesmo tempo pedia socorro e pedia pelo pai em um mesmo segundo. Já não havia mais o que fazer: a mesma mão que vivia imersa no bolso cheio de rancor agora acariciava aquela barriga envolta em pano florido.
- Eu amo você e o nosso pequeno.
Agora o beijo nos lábios que antes tinham um leve aroma de tabaco tem aroma de chá de flores. Abraço delicado para não machucar o nenê. Ele não fazia idéia do que ia fazer com o aro dourado em seu dedo; também não o preocupava muito. Estava envolvido por uma emoção flutuante de que todas as coisas são pintadas com cores leves e um pouco borradas para dar a impressão de continuidade. Era preciso tomar decisões, era preciso cuidar. Era preciso deixar o papel de pernas andantes que sempre vão embora orgulhosas e ficar. E talvez nunca mais expremer coração alheio para dar cor aos rancores.
[ "A dama do cachorrinho e outros contos" - Tchekhov].
A vida sempre lhe fora engraçada, sempre corria para longe dela e agora, veja bem!, crescia dentro dela. Não houve expectativas desde o começo, tudo o mais mecânico possível; como naquele dia da igreja: fazer o que tem que ser feito por pior que se possa fazer ou não fazer. Papai morreu assim. Saiu mais uma vez para sua branquinha, os pés já podres e quando se viu não sabiam nem como iam enterrá-lo. Mamãe ficaria muito sentida se visse.
O ventre de uma brancura pura esticando a cada dia que esgotava, os cigarros rareando, o álcool desaparecido. Era preciso conversar sério com a vida dessa vez, um começo dela estava por vir, era preciso ajuda. Num daqueles finais de tardes demasiadamente ensolarados ele a viu: vestido florido comprido deixando óbvia a barriga, secando o suor do rostinho branco - agora ainda mais angelical -, tentou fingir estar observando a vitrine, mas logo ela o viu com uma expressão de desespero, como se pedisse perdão pelo ventre inchado.
- Eu sinto muito.
- Está tudo bem agora, querido. Preocupa não.
Sinal de afirmativo com a cabeça. Para a paternidade, para saber se estava tudo bem, se morava no mesmo lugar. Custava-lhe muito fazer o choro, a indignação presos na garganta descerem, caminhar sozinha todo aquele tempo lhe pareceu fácil, mas ver diante dos olhos o quanto tudo custou tão caro, o quão uma mão, um abraço, um eu te amo seriam bem melhores do que aqueles muros de silêncio fizeram falta pesava no coração. Daí veio o medo, sensações ruins e adjacências; era uma dor mas era um presente tê-lo lá. Ele sempre com seu rancor nos bolsos, talvez por isso sempre andasse com as mãos nos bolsos -, pronto para inundar o mundo com a sua dor milimetricamente articulada para ser vivida. Era a única pessoa que usava a dor para viver e não como conseqüência de algo. E o seu ventre, assim, tão grande e tão frágil ao mesmo tempo pedia socorro e pedia pelo pai em um mesmo segundo. Já não havia mais o que fazer: a mesma mão que vivia imersa no bolso cheio de rancor agora acariciava aquela barriga envolta em pano florido.
- Eu amo você e o nosso pequeno.
Agora o beijo nos lábios que antes tinham um leve aroma de tabaco tem aroma de chá de flores. Abraço delicado para não machucar o nenê. Ele não fazia idéia do que ia fazer com o aro dourado em seu dedo; também não o preocupava muito. Estava envolvido por uma emoção flutuante de que todas as coisas são pintadas com cores leves e um pouco borradas para dar a impressão de continuidade. Era preciso tomar decisões, era preciso cuidar. Era preciso deixar o papel de pernas andantes que sempre vão embora orgulhosas e ficar. E talvez nunca mais expremer coração alheio para dar cor aos rancores.
Sonntag, Dezember 05, 2010
Ah, não vá de novo!
"Eu te preciso. Perto, longe, tanto faz. Preciso saber que tu está bem, se respira, se comeu ou tomou banho -com o calor que está fazendo neste verão, tome pelo menos uns três ao dia, e pense em mim, estou com calor também. Me faz bem pensar nessas atividades corriqueiras, que supostamente você está fazendo. Ah, e eu estou te esperando, com meu vestido curto, óculos escuros grandes e meu coração pulsando forte, e te abraçar até sentir o mundo girar apenas para nós. É, eu gosto muito de ti."
C. F. Abreu
Querido;
Até no meu egoísmo mais infinito quero você mais feliz do que eu mesma. Se cuida, eu lá queria muita coisa imensa para ti, mas vejo pequenez e aposto no que te levar para longe do meu fantasma. Boa sorte, um abraço enorme.
P.S.: Obrigada por me ensinar a amar.
C. F. Abreu
Querido;
Até no meu egoísmo mais infinito quero você mais feliz do que eu mesma. Se cuida, eu lá queria muita coisa imensa para ti, mas vejo pequenez e aposto no que te levar para longe do meu fantasma. Boa sorte, um abraço enorme.
P.S.: Obrigada por me ensinar a amar.
Samstag, November 06, 2010
Maledicência
"Eu sei, eu sei, eu sei. Só que eu não aguento mais ninguém indo embora."
C. F. Abreu
Lamentar por você morto foi o escape melhor para todos. Você vivo, imerso na própria desgraça que fluía para nós não nos despertava qualquer sentimento nobre. Fácil agora fazer uma matemática ignominiosa, a conta de uma vida criteriosamente errante subtraída por uma morte trágica. Penso que de trágica não há nada, tragédia é só para os bons e você, assim, tão enlameado de pecados-vícios se assemelha mais a um justamente morto, o que saiu com um rifle pela vida caçando a própria morte. Para mim o caso ainda é elevado a um outro patamar: você, nos momentos salubres; você, descalço e doente; você, engatinhando na vida adulta; você, retirando pétala por pétala até sobrar um galho seco.
Hoje vejo árvores imensas com apenas poucos pontinhos brancos de flores e concluo que a vida é isso; não somos flores e nascemos folhas, olhantes das flores, secamos rápido e nem nascemos belos. O verde, mesmo colorido, será sempre o verde-árvore e permanecerá esquecido, deixado, sem exalar aroma ou se deixar penetrar pelo olfato alheio. Só conseguimos sentir os pés e, clack!, uma folha amarelada. Conhecemos a vida bem demais para um ser humano, porque sempre andamos pedindo licença para a morte, "quero passar". E no âmbito de extrair tudo, olhar tudo, sentir tudo, acabamos por trazer o que há de pior na existência; e nos tornamos piores, e reconhecemos um ao outro com uma tristeza profunda.
E isso me dói de uma maneira que passa longe da tristeza de tanto doer, é como perder alguém tão querido e sofrer tanto que não há nome. Meu sofrimento com o você nunca mais ainda não tem registro em qualquer léxico. Como o verbo oîda em grego, eu não vi mas basta porque sei; e é de um saber dolorido, da maldade de não ter o que fazer e buscar meios, perguntar para Deus e para os anjos se é possível esfarelar o livre-arbítrio e criar uma amplitude justa. Nunca houve. A morte desmistificada, fácil, sem significação: uma morte desamparada.
C. F. Abreu
Lamentar por você morto foi o escape melhor para todos. Você vivo, imerso na própria desgraça que fluía para nós não nos despertava qualquer sentimento nobre. Fácil agora fazer uma matemática ignominiosa, a conta de uma vida criteriosamente errante subtraída por uma morte trágica. Penso que de trágica não há nada, tragédia é só para os bons e você, assim, tão enlameado de pecados-vícios se assemelha mais a um justamente morto, o que saiu com um rifle pela vida caçando a própria morte. Para mim o caso ainda é elevado a um outro patamar: você, nos momentos salubres; você, descalço e doente; você, engatinhando na vida adulta; você, retirando pétala por pétala até sobrar um galho seco.
Hoje vejo árvores imensas com apenas poucos pontinhos brancos de flores e concluo que a vida é isso; não somos flores e nascemos folhas, olhantes das flores, secamos rápido e nem nascemos belos. O verde, mesmo colorido, será sempre o verde-árvore e permanecerá esquecido, deixado, sem exalar aroma ou se deixar penetrar pelo olfato alheio. Só conseguimos sentir os pés e, clack!, uma folha amarelada. Conhecemos a vida bem demais para um ser humano, porque sempre andamos pedindo licença para a morte, "quero passar". E no âmbito de extrair tudo, olhar tudo, sentir tudo, acabamos por trazer o que há de pior na existência; e nos tornamos piores, e reconhecemos um ao outro com uma tristeza profunda.
E isso me dói de uma maneira que passa longe da tristeza de tanto doer, é como perder alguém tão querido e sofrer tanto que não há nome. Meu sofrimento com o você nunca mais ainda não tem registro em qualquer léxico. Como o verbo oîda em grego, eu não vi mas basta porque sei; e é de um saber dolorido, da maldade de não ter o que fazer e buscar meios, perguntar para Deus e para os anjos se é possível esfarelar o livre-arbítrio e criar uma amplitude justa. Nunca houve. A morte desmistificada, fácil, sem significação: uma morte desamparada.
Freitag, Oktober 29, 2010
Do sol lá fora
"Dort bin ich ihm und ist er mir so nah, wie ich mir selbst es nie sein werde."
[Ausflug mit dem Zerberus - Mirko Bonné]
Da minha murchidão que virou hedionda e absurda dentro de mim mesma e de me reconhecer em qualquer situação. Sinto saudades. Abraços apertados e tudo o que um ser humano tem direito, calando os anos sem. Precisando de. Lacunas não são a minha especialidade, já que havia alguém não para preenchê-las mas para fazê-las para mim. Até nisso eu era dependente de ti, das brigas que ferem às lacunas que com tanto gosto eu não preenchia. Talvez só preenchesse você e muito mal preenchido. E no meu vazio eu nunca te encontrava; perdão. Substituo Zerberus por Mike, diabetes por ódio e ainda não suporto o sol lá fora, como você, muitas vezes. Ele me atrapalha a ter minhas memórias sobre você, sua brancura, seu nariz imenso, seu recato me fazem lembrar algo mais longe, mais distante, mas que dá para se tocar com a ponta dos dedos. Sempre foi assim, eu te tocava com as pontas de meus dedos e você sempre se afastando, e o não-ser doía tanto que eu simplesmente não sentia. Entende agora? Eu sempre senti muitíssimo e você nunca o soube. Você sempre viveu aqui dentro de mim; e era uma vida linda, e mesmo eu sempre estando toda remendada por torturas as quais eu mesma me sujeito eu sempre era o seu 'botãozinho'. Equivalente ao meu sofrimento você foi morrendo em mim, parou de crescer, parou de falar, eu não pude continuar regando nosso amor com os seus rosnados. A gente não pode trocar o engatinhar pela vida pelo rancor só porque ele prometeu nos fazer correr. Você aguardava, eu também. Mais ainda: compartilhava tchê.
[Ausflug mit dem Zerberus - Mirko Bonné]
Da minha murchidão que virou hedionda e absurda dentro de mim mesma e de me reconhecer em qualquer situação. Sinto saudades. Abraços apertados e tudo o que um ser humano tem direito, calando os anos sem. Precisando de. Lacunas não são a minha especialidade, já que havia alguém não para preenchê-las mas para fazê-las para mim. Até nisso eu era dependente de ti, das brigas que ferem às lacunas que com tanto gosto eu não preenchia. Talvez só preenchesse você e muito mal preenchido. E no meu vazio eu nunca te encontrava; perdão. Substituo Zerberus por Mike, diabetes por ódio e ainda não suporto o sol lá fora, como você, muitas vezes. Ele me atrapalha a ter minhas memórias sobre você, sua brancura, seu nariz imenso, seu recato me fazem lembrar algo mais longe, mais distante, mas que dá para se tocar com a ponta dos dedos. Sempre foi assim, eu te tocava com as pontas de meus dedos e você sempre se afastando, e o não-ser doía tanto que eu simplesmente não sentia. Entende agora? Eu sempre senti muitíssimo e você nunca o soube. Você sempre viveu aqui dentro de mim; e era uma vida linda, e mesmo eu sempre estando toda remendada por torturas as quais eu mesma me sujeito eu sempre era o seu 'botãozinho'. Equivalente ao meu sofrimento você foi morrendo em mim, parou de crescer, parou de falar, eu não pude continuar regando nosso amor com os seus rosnados. A gente não pode trocar o engatinhar pela vida pelo rancor só porque ele prometeu nos fazer correr. Você aguardava, eu também. Mais ainda: compartilhava tchê.
Montag, Oktober 18, 2010
Rasgando a manhã seguinte
Eu tenho sofrido muito feio, e todas as tentativas torcidas e foscas de pedaços do meu próprio passado sofredor bonito metamorfosearam em fracasso certo. Doer para que ninguém possa ver dor, apenas ódio. Odiar querendo doer. Doer-odiando e estender-fechar os braços só para as palmas das mãos tocarem os pulmões e alguma realidade penetrá-los além do câncer transfigurado em um cigarro. Puxar amanhãs, como se os pés estivessem varrendo um gramado e no lugar do câncer há uma pipa, voando alto pelos ventos. Linda. Ao horizonte.
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