Donnerstag, Dezember 30, 2010

O Ritual do Eterno III

"- Ela era piedosa, mas - quem pode saber? - o coração alheio é floresta espessa!"
[ "A dama do cachorrinho e outros contos" - Tchekhov].




A vida sempre lhe fora engraçada, sempre corria para longe dela e agora, veja bem!, crescia dentro dela. Não houve expectativas desde o começo, tudo o mais mecânico possível; como naquele dia da igreja: fazer o que tem que ser feito por pior que se possa fazer ou não fazer. Papai morreu assim. Saiu mais uma vez para sua branquinha, os pés já podres e quando se viu não sabiam nem como iam enterrá-lo. Mamãe ficaria muito sentida se visse.
O ventre de uma brancura pura esticando a cada dia que esgotava, os cigarros rareando, o álcool desaparecido. Era preciso conversar sério com a vida dessa vez, um começo dela estava por vir, era preciso ajuda. Num daqueles finais de tardes demasiadamente ensolarados ele a viu: vestido florido comprido deixando óbvia a barriga, secando o suor do rostinho branco - agora ainda mais angelical -, tentou fingir estar observando a vitrine, mas logo ela o viu com uma expressão de desespero, como se pedisse perdão pelo ventre inchado.

- Eu sinto muito.
- Está tudo bem agora, querido. Preocupa não.

Sinal de afirmativo com a cabeça. Para a paternidade, para saber se estava tudo bem, se morava no mesmo lugar. Custava-lhe muito fazer o choro, a indignação presos na garganta descerem, caminhar sozinha todo aquele tempo lhe pareceu fácil, mas ver diante dos olhos o quanto tudo custou tão caro, o quão uma mão, um abraço, um eu te amo seriam bem melhores do que aqueles muros de silêncio fizeram falta pesava no coração. Daí veio o medo, sensações ruins e adjacências; era uma dor mas era um presente tê-lo lá. Ele sempre com seu rancor nos bolsos, talvez por isso sempre andasse com as mãos nos bolsos -, pronto para inundar o mundo com a sua dor milimetricamente articulada para ser vivida. Era a única pessoa que usava a dor para viver e não como conseqüência de algo. E o seu ventre, assim, tão grande e tão frágil ao mesmo tempo pedia socorro e pedia pelo pai em um mesmo segundo. Já não havia mais o que fazer: a mesma mão que vivia imersa no bolso cheio de rancor agora acariciava aquela barriga envolta em pano florido.

- Eu amo você e o nosso pequeno.

Agora o beijo nos lábios que antes tinham um leve aroma de tabaco tem aroma de chá de flores. Abraço delicado para não machucar o nenê. Ele não fazia idéia do que ia fazer com o aro dourado em seu dedo; também não o preocupava muito. Estava envolvido por uma emoção flutuante de que todas as coisas são pintadas com cores leves e um pouco borradas para dar a impressão de continuidade. Era preciso tomar decisões, era preciso cuidar. Era preciso deixar o papel de pernas andantes que sempre vão embora orgulhosas e ficar. E talvez nunca mais expremer coração alheio para dar cor aos rancores.

Sonntag, Dezember 05, 2010

Ah, não vá de novo!

"Eu te preciso. Perto, longe, tanto faz. Preciso saber que tu está bem, se respira, se comeu ou tomou banho -com o calor que está fazendo neste verão, tome pelo menos uns três ao dia, e pense em mim, estou com calor também. Me faz bem pensar nessas atividades corriqueiras, que supostamente você está fazendo. Ah, e eu estou te esperando, com meu vestido curto, óculos escuros grandes e meu coração pulsando forte, e te abraçar até sentir o mundo girar apenas para nós. É, eu gosto muito de ti."

C. F. Abreu





Querido;

Até no meu egoísmo mais infinito quero você mais feliz do que eu mesma. Se cuida, eu lá queria muita coisa imensa para ti, mas vejo pequenez e aposto no que te levar para longe do meu fantasma. Boa sorte, um abraço enorme.


P.S.: Obrigada por me ensinar a amar.

Samstag, November 06, 2010

Maledicência

"Eu sei, eu sei, eu sei. Só que eu não aguento mais ninguém indo embora."

C. F. Abreu


Lamentar por você morto foi o escape melhor para todos. Você vivo, imerso na própria desgraça que fluía para nós não nos despertava qualquer sentimento nobre. Fácil agora fazer uma matemática ignominiosa, a conta de uma vida criteriosamente errante subtraída por uma morte trágica. Penso que de trágica não há nada, tragédia é só para os bons e você, assim, tão enlameado de pecados-vícios se assemelha mais a um justamente morto, o que saiu com um rifle pela vida caçando a própria morte. Para mim o caso ainda é elevado a um outro patamar: você, nos momentos salubres; você, descalço e doente; você, engatinhando na vida adulta; você, retirando pétala por pétala até sobrar um galho seco.
Hoje vejo árvores imensas com apenas poucos pontinhos brancos de flores e concluo que a vida é isso; não somos flores e nascemos folhas, olhantes das flores, secamos rápido e nem nascemos belos. O verde, mesmo colorido, será sempre o verde-árvore e permanecerá esquecido, deixado, sem exalar aroma ou se deixar penetrar pelo olfato alheio. Só conseguimos sentir os pés e, clack!, uma folha amarelada. Conhecemos a vida bem demais para um ser humano, porque sempre andamos pedindo licença para a morte, "quero passar". E no âmbito de extrair tudo, olhar tudo, sentir tudo, acabamos por trazer o que há de pior na existência; e nos tornamos piores, e reconhecemos um ao outro com uma tristeza profunda.
E isso me dói de uma maneira que passa longe da tristeza de tanto doer, é como perder alguém tão querido e sofrer tanto que não há nome. Meu sofrimento com o você nunca mais ainda não tem registro em qualquer léxico. Como o verbo oîda em grego, eu não vi mas basta porque sei; e é de um saber dolorido, da maldade de não ter o que fazer e buscar meios, perguntar para Deus e para os anjos se é possível esfarelar o livre-arbítrio e criar uma amplitude justa. Nunca houve. A morte desmistificada, fácil, sem significação: uma morte desamparada.

Freitag, Oktober 29, 2010

Do sol lá fora

"Dort bin ich ihm und ist er mir so nah, wie ich mir selbst es nie sein werde."
[Ausflug mit dem Zerberus - Mirko Bonné]


Da minha murchidão que virou hedionda e absurda dentro de mim mesma e de me reconhecer em qualquer situação. Sinto saudades. Abraços apertados e tudo o que um ser humano tem direito, calando os anos sem. Precisando de. Lacunas não são a minha especialidade, já que havia alguém não para preenchê-las mas para fazê-las para mim. Até nisso eu era dependente de ti, das brigas que ferem às lacunas que com tanto gosto eu não preenchia. Talvez só preenchesse você e muito mal preenchido. E no meu vazio eu nunca te encontrava; perdão. Substituo Zerberus por Mike, diabetes por ódio e ainda não suporto o sol lá fora, como você, muitas vezes. Ele me atrapalha a ter minhas memórias sobre você, sua brancura, seu nariz imenso, seu recato me fazem lembrar algo mais longe, mais distante, mas que dá para se tocar com a ponta dos dedos. Sempre foi assim, eu te tocava com as pontas de meus dedos e você sempre se afastando, e o não-ser doía tanto que eu simplesmente não sentia. Entende agora? Eu sempre senti muitíssimo e você nunca o soube. Você sempre viveu aqui dentro de mim; e era uma vida linda, e mesmo eu sempre estando toda remendada por torturas as quais eu mesma me sujeito eu sempre era o seu 'botãozinho'. Equivalente ao meu sofrimento você foi morrendo em mim, parou de crescer, parou de falar, eu não pude continuar regando nosso amor com os seus rosnados. A gente não pode trocar o engatinhar pela vida pelo rancor só porque ele prometeu nos fazer correr. Você aguardava, eu também. Mais ainda: compartilhava tchê.

Montag, Oktober 18, 2010

Rasgando a manhã seguinte

Eu tenho sofrido muito feio, e todas as tentativas torcidas e foscas de pedaços do meu próprio passado sofredor bonito metamorfosearam em fracasso certo. Doer para que ninguém possa ver dor, apenas ódio. Odiar querendo doer. Doer-odiando e estender-fechar os braços só para as palmas das mãos tocarem os pulmões e alguma realidade penetrá-los além do câncer transfigurado em um cigarro. Puxar amanhãs, como se os pés estivessem varrendo um gramado e no lugar do câncer há uma pipa, voando alto pelos ventos. Linda. Ao horizonte.

Freitag, Oktober 15, 2010

Murchando

"And I have to dry my eyes."

[Morrissey - Boxers]



Pela primeira vez o título é totalmente compatível com o texto, porque acordei assim: murcha, caindo. Me imaginei flor e senti pétala por pétala caindo até sobrar um caule seco, magro, doente. E não é algo grandioso porque isso é lugar-comum desde que me chamo Ana e sinto muito por isso, talvez buscar outros nomes me dariam menos leveza e mais maldade, insubordinação, para que tudo corresse bem. Mas não, fica tudo assim num colorido completo que não me adianta de nada, já que estou desbotada, uma mistura de cores sinistra que de arte passa a horror-Dalí. É tudo tão feio nessa cidade que só de caminhar por qualquer calçada que seja meu estômago revira e minhas pupilas são queimadas por esse sol que aqui se torna desprezível. Aliás, qualquer coisa aqui é notificado de repúdio, aversão, sofrimento. Tudo faz sofrer. Do ambiente natural à rua desconhecida: tudo é triste. Porque não há alma viva que não faça de sua própria existência um carma para si e para outrem. É tudo um grande carma. Tenta-se sorrir e o sorriso é rejeitado pelo seu próprio organismo e assim até sorrir se torna orgânico-mecânico. E a cidade se esqueceu de Deus. E ele chora ofendido num dar de ombros.

Samstag, Oktober 09, 2010

Inerciando

Que fique claro que não estou cansada ou solitária, mas a paciência com a vida se esgotou tanto que só falo não-tudo-bem, sento e espero. Talvez acabe assim, tique-taque, olhar no relógio, encher as bochechas de ar e soltá-lo bufante. O único alívio é que toda a tentativa de sugar da vida de uma maneira muito descortês já é hipótese descartada. Sinto cheiro de tecla pause no ar. E acho engraçado todo mundo se afetar arduamente achando que sempre vai ser meu objetivo final: o objetivo é sempre machucar a vida -a propósito, a minha -, manter eternamente minhas pequenas mãos envolta de seu pescoço, apertar apertar, acabar por deitar do lado, pedir desculpas. E falamos mal da felicidade até ela ficar ressentida com a gente, e vai embora e promete nunca mais voltar. boba, voltaqui!

Sonntag, September 26, 2010

Para lembrar

Tirado preciosamente do blog da Ly:

"Qualquer caminho para fora do meu apartamento guia a um erro incomensurável."

Mittwoch, September 15, 2010

Yes, we can talk about it now

Seus olhos são simplesmente os mais glaucos que já vi. Faço até esforço vivendo depois de acordar só por causa deles. Alegria simples de ser absurdamente feliz tendo um caráter de natureza triste.

No, we can't talk about it now

Um despertar singular o de hoje. Cabelos castanho claros espalhados pelos ombros, pelas costas; o sol lutando para abrir uma brecha no nublado de começo de dia e um sono interrompido que não foi interrompido, foi se extinguindo até o corpo se dar conta que estava satisfeito. Nada de aula de francês hoje, desculpa fenomenal de que eu sei que o faire fica faisiez na terceira do L'imparfait de l'indicatif e assisti tv, como se o dia nunca fosse ultrapassar as 8 horas da manhã, como se nem ao menos houvesse mundo.
Ficou ressoando por aqui o refrão da música do Death Cab, "you're beautiful but you don't mean a thing to me"; como se a música tivesse sido feita para a própria vida em si. Tratar a vida como um ser humano tem me causado problemas, e sim vida você é linda mas nunca consegue significar muito para mim, ao menos não por muito tempo. E eu sei bem dessa beleza que enche nossos olhos e põe nossos braços em formato de arcos, abertos, imensos e prontos para se fecharem no que quer que seja o tamanho. Nossos braços sempre serão cômodos para todas as coisas existentes, daí a preocupação do Calvino -ler abaixo do título do blog -. Pena que eles desintegram antes das coisas, então somos aleijados, cruzando o dedo dos pés para que a 8 horas da manhã não se prolongue.

Sonntag, September 12, 2010

Desmistificando Werther

A obra de Goethe guiada pelo Romantismo alemão e da tendência Sturm und Drang apresenta erros graves seguidos do sentimentalismo e sensibilidade randômicos. Werther apresenta-se como figura carismática em explosões de emoções, daí a grande recepção livro-personagem. Entretanto, pelas atitudes falhas ao longo do livro vê-se claramente a sua personalidade mesquinha e muitas vezes medíocre.
Começando pela relação de Werther com os nobres e bem-sucedidos, há o menosprezo do personagem contido no fato puro e simples dos nobres ignorarem a sua presença e avaliarem a sua conduta como exagerada. Ora essa, nobres e burgueses não se misturavam na época pelos primeiros acharem o manejo com dinheiro sujo, coisa incompreensível atualmente mas um costume na época. Assim, Werther se dedicava a pessoas de origem mais humilde acrescentando ao caráter dessas adjetivos exaltivos, maravilhosos. A mesma relação da fábula de La Fontaine, em que a raposa desdenha das uvas. Ele é como a continuação da fábula, no caso a raposa cospe nas uvas e cata "gravetos saborosíssimos" para se alimentar.
O estopim dessa relação chega quando um de seus humildes amigos do vilarejo comete homicídio contra o atual namorado de sua amada. O homem é capturado e Werther adentra a sala defendendo seu amigo com argumentos pífios e infantis, querendo justificar o fato de um inocente ter sido assassinado. Até onde chega o nosso herói: força uma relação com uma mulher comprometida, sabendo de antemão que ela tem um noivo, não obstante ainda se põe - com a desculpa de uma amizade duvidosa - entre Charlotte e o noivo (que posteriormente vira esposo), e ainda defende um assassino por pura e simplesmente este ter cometido um crime passional. Crime é crime. Se até Raskolnikov pagou na Sibéria pelo übermenschianismo de matar a velha usurária, por que teria que ser diferente com um despeitado?
Especificando a parte Werther-Charlotte, a obra toma proporções pateticamente catastróficas. Werther alimenta um amor cismante por Lotte, não é que o amor tenha acontecido, ele que escolheu amá-la. Ela era bela e meiga, como a maioria da população feminina na Alemanha da época; o que ressalto é: o amor nutrido era artificial e só servia para Werther martirizar a si mesmo e alimentar a sua própria afetação para que ele pudesse sentir que era um homem diferente, out of line. Charlotte, diante da persuasão e devoção de Werther, acabou por amá-lo à sua forma; mas foi um amor que não passou pelo caminho da beleza antes de virar amor, e sim pela piedade de ter que amar.
Saindo um pouco do enredo da história e entrando na parte de raciocínios errados de Werther (querendo ser aforismos), mostro um trecho: "E então, por mais limitado que seja, guarda sempre no coração a doce sensação de liberdade, sabendo que poderá livrar-se do cárcere quando quiser". Só nos cresce a sensação de liberdade quando estamos em cárcere obrigatório ou em inércia, esse sentimento não é natural, não se estabelece sozinho; e quando se estabelece ele não tem nada de 'doce sensação' e sim tristeza, algo como uma grande espera inquietante. A liberdade só se transforma em algo belo quando é alcançada, em seguida se metamorfoseia em paz de espírito.
Chegamos então ao suicídio de Werther, ao final da obra. Aí vemos o tamanho de sua mesquinhez, uma eterna criança mal-criada batendo os pés no chão pelo relevante, eis Werther. Antes do suicídio deixa uma carta para a sua amada penalizando-a sentimentalmente: "Vê, Charlotte!Não estremeço ao tomar nas mãos a fria e terrível taça, da qual deverei sorver a embriaguez da morte! Tu mesma ma ofereceste, e não hesito por um momento sequer". Ele estava errado desde os primeiros momentos, mas quis atribuir sua culpa à segundos, terceiros. Vemos a mediocridade desta obra mais nitidamente quando comparamos com "Noites Brancas" de Dostoiévski, em que o personagem também sofre de um amor renegado e sofre um golpe muito pior do que Werther: depois de arduamente ter esperado sua querida Nástienhka e finalmente tê-la conseguido para si, no dia seguinte ela volta para seu antigo pretendente, abandonando-o. O que o herói de Noites Brancas faz? Abre um doce sorriso e exclama: "Meu Deus! Um momento de felicidade! Sim! Não será isso o bastante para preencher uma vida?" O personagem de Goethe é aí nocauteado ferozmente pelo personagem de Dostoiévski.
Contudo, fecho com a única passagem bela que encontrei no livro e que realmente merece crédito: "É como se um véu se tivesse rasgado diante de minha alma, e o palco da vida infinita transforma-se, para mim, no abismo de um túmulo eternamente aberto. Poderás dizer: 'É assim mesmo!' Quando tudo passa? Quando tudo deixa de existir e desaparece com a rapidez de um raio, tão raramente sendo dado aos seres viver até se esgotarem as suas forças, quando eles, ai, são arrastados pela correnteza, engolfados por ela e destroçados de encontro aos rochedos? Não há um momento em que não destrua a ti e aos teus, em que não sejas, necessariamente, também tu um destruidor. Um simples passeio custa a vida de milhares de pobres vermezinhos, uma passada desmantela as construções penosamente erigidas pelas formigas, e condena a um túmulo ignominioso todo um pequeno universo."


Boa sorte na leitura - e muita paciência -.

Freitag, August 27, 2010

Coisa linda!

E sabe-se lá porque lidar com tanta perfeição não tem sido um custo ou um martírio. Porque nem nos maiores erros você faria doer, para você sempre é uma questão de 'tá, não gostei' e não repetir nunca mais. E você não repete, você parece ter um banco de dados de idiotias. Ou pior: você aprende com os erros; e é fácil imaginar a vida sem você: andar afundando o pé em buracos até torcê-los tanto a ponto de ter que engatinhar com as mãos, depois se arrastar. Deus sabe o quanto dói se arrastar pela vida com a boca na lama. Fácil agora ter 1,80m de caminho que sempre se prolongará, tamanha generosidade. Agora eu fico andando pela vida na ponta dos pés, sempre lembrando que o caminho parece tanto com você; claríssimo e apertável - como em um balé.

Sonntag, August 08, 2010

Ao pequeno garoto púrpura

"Y aprendi a quitar al tiempo los segundos,
Tu me hiciste ver el cielo aún más profundo..."

Shakira , Antologia.





Cinco semanas, foi extremamente curto para viver tudo de uma vez só e muito amplo para termos consciência que essa coisa da gente viver um sem o outro não vai ter chance mesmo, no way. Era acordar todo dia ao lado de um rapaz que passou a noite inteira sem dormir única e exclusivamente para passar esse tempo te admirando em sono, contando os intervalos de sua respiração, achando tudo muito doce; até o fato de dormir pouco e ficar até tarde bebendo cerveja do lado de gente que não fala seu idioma.
Recebia também sete beijos seguidos entre as minhas costelas antes de pensar em levantar da cama, escovar os dentes e tomar banho; e com a cascata de cabelos loiro-acinzentados nos meus olhos. Era divertido dormir com uma das suas blusas listradas que só você tem. Descer do ônibus de madrugada para fumar um cigarro completamente agasalhada e ainda assim morrendo de frio - eu realmente achei que ia perder meus dedos - , e me deparar com você sem agasalho achando que não estava frio, apenas fresco. Em seguida você se entupia de iogurte na lanchonete da rodoviária, sem dúvida as pessoas deveriam aprender a tomar iogurte da forma fofa como você faz. Aliás, todo mundo devia imitar você todo tempo, você é de uma doçura invejável. É tão doce que eu só consigo imaginar a vida te apertando, apertando, apertando e dizendo 'ain-oin-nhoin-hoin' e olhando olhando, até os olhos ficarem estrábicos. O que contrasta com a frieza que seus olhos exalam de vez em quando, nada demais, herança do velho continente.
Forma fria que desapareceu naquela manhã, do quarto completamente ensolarado, quando você chorava, chorava, medroso do futuro sem a Ana. Te chamei de Mädchen e quase disse para você ter fé e ver coragem no amor, mas não dá pra traduzir isso com a emoção merecida pro seu idioma. Infelizmente temos o Atlântico, meu ócio e desvios da vida em nosso caminho, mas quer saber? Quer saber de verdade? Pela primeira vez não estou prevendo nenhuma sapecagem da vida ou coisa do tipo. Porque você é limpo e me fez praticar aquele tipo de amor-não-devo-nada-a-ninguém. A maioria das pessoas ama para os outros e esquece de que se tratava o começo. E você nunca me deixará esquecer, com seus imensos olhos azuis marejados. Ondas no mar, t'aí uma boa definição para quando você chora: ondas, mas daquele tipo bem brando, não uma coisa praiana, mas sim algo que recorde o oceano, tamanha a imensidão. Fica a minha saudade feliz - eu nem sabia que existia saudade feliz, até isso você me ensinou - dos dias mais simples da minha vida, obrigada pela felicidade, foi um presente tão magistral quanto o livro do Amós que você me deu. De mim fica o barquinho vermelho, para a sua coleção, barquinho na correnteza, Deus dará, citando Caio. Não dá para me utilizar do cliché de que "você me ensinou a amar', porque isso você não fez, já tinha aprendido e acumulado péssimas experiências do passado, que eu até visitava de vez em quando. Você fez o mais importante: me ensinou a viver sóbria.

E hoje...

...eu sei,







sem você...











...sou pá furada.


















Samstag, Juli 31, 2010

Da morte

Não é uma grande boa nova de que tudo me dói, o engraçado foi não doer na hora, nem depois. Não que não doa, mas esqueceu de doer, o sofrimento às vezes esquece da gente de uma maneira muito avulsa. Não doeu de uma maneira como se eu já soubesse e não soubesse. Porque eu não sabia, mas meu corpo fazia esforço para entender os traços da vida, as sutilezas de sinais e reagia como podia.
Nada de calafrios, grandes lágrimas ou "creio em Deus pai todo poderoso"; apenas uma tristeza de que tão aguda era transversal a mim. Como meu corpo já está acostumado a todas as sensações ruins existentes, não dei bola. É exagero no álcool, deve ser isso. E era apenas perda, t'aí!, como era perda e nisso eu sou pós-graduada eu não dei a mínima, devido ao costume exagerado a essa sentimento. Daí um milagre: a perda só é percebida quando a contam. Se você não souber da perda ela nunca existirá, eu não sei se esse raciocínio é válido para todos ou só para os que tem a alma deformada como a minha. Por fim, de tudo ficaram ensinamentos valorosos. Nosso organismo é coordenado pelo nosso espírito; a perda de tão desgastada está banalizada e não mais sentida; e o terceiro...bem, eu esqueci o terceiro. Vocês entendem, muitos anos de álcool, hão de me dar licença. O que eu quis dizer o texto todo foi: meu irmão alcólatra morreu e se eu não me der jeito também vou causar estranhezas em organismos alheios.

Samstag, Juli 03, 2010

Wochenende

Assim como a Ly, eu não sei como cheguei inteira no final do semestre, ou ainda, como ele finalmente terminou. Meses tão duros que eu estou aqui gozando de plena liberdade e não consigo me movimentar ou ter a percepção de alguma coisa. O que eu consigo resumir é que meu cabelo está ultrapassando a cintura, eu estou mais magra - como se fosse possível - e o cansaço se multiplicou de forma irreversível e tornou-se lição: fechar os olhos e parar de respirar na maioria dos momentos, tão-somente. Daqui há algumas horas eu vou voltar aos abraços do homem mais feliz que já conheci em vida, e assim, com nenhum esforço e muita ajuda divina tentar fechar os olhos, parar de respirar e em nenhuma possibilidade lembrar que a Ana existe. Auf wiedersehen.

Sonntag, Juni 20, 2010

Silent edges

"You run around and groove like a baggy
You're only here just out of habit."
(Kinky Afro - Happy Mondays)



Entrar em qualquer tipo de explicação ou lógica já saiu há muito de controle. Vou tentar simplificar, é assim: eu sou um ser humano, carne-osso-carbono, simples. E eu tenho inércia. E não é daquelas inércias simples, só aquela dificuldade sempre de fazer qualquer coisa para mudar qualquer estado. Aliado à inércia tenho falta de vontade total. Então até tento me levantar e ir embora, sair. Mas quando tento a vida trata de me dar uma pancada muito forte, bem no meio do estômago; logo vomito e ando para trás, porque se eu estava sentada agora estou ao chão. Não se trata mais de não poder se mover, mas de medo de se mover e ter que vomitar de novo.
Não faço idéia do que há de errado e não digo para mim, porque até agora não estou vendo nada de errado e isso é atemorizante. A vida quando é vida tem muita coisa de errado, mesmo com aquela história toda da desmistificação. Estou completamente errada e não sei nem ao menos o porquê. Só sinto muito por todo mundo e sério o sinto de verdade, talvez o fato de me sentir errada esteja tomando proporções catastróficas no meu Id. Não posso fazer nada, empurrar a pedra até o topo já não é mais tão digno assim. Um momento de felicidade? Já não preenche nenhuma vida. Preencherá, mas isso ainda está muito longe. Enquanto a felicidade não vem eu a vejo assim, bonita, enquadrada, belíssima; da agonia de vê-la, estender os dedos, achar em delírios que a toco e dormir no cansaço de todas as tentativas. Quando ela finalmente chegar me acordem. Se conseguirem.

Donnerstag, Juni 03, 2010

Como perder um homem em 4 horas e meia

Ou: "Welcome to my life"
Ou ainda: Kate Hudson, senta lá!




1º Comece conversando sobre você, seu ego, sobre o Grande Ego e sobre como todas as pessoas acham você Deus.

2º Encha a cara, afinal de contas, você é uma alcólatra.

3º Use drogas na frente dele, principalmente sabendo que ele não suporta cheiro de marijuana.

4º Fale de todas as vergonhas e situações caóticas que você já passou na vida.

5º Sente no colo dele e chame-o para ir ao motel (primeiro encontro, remember?).

6º Beba mais.

7º Você bebeu muito, tá a capa do Batman!; então vá até a sarjeta e fique lá jogada às traças enquanto ele (bonitinho!) te compra água.

8º Vá para casa, agarre-se à privada e faça de lá seu colo de mãe.

Donnerstag, Mai 27, 2010

Sujando Caio

.




Já fiz um texto aqui reclamando uns absurdos com o Caio. Tanto faz, minha vingança foi você cair na boca lamacenta da galera whatever. A foto acima foi tirada minutos antes da prova de Morfologia, ando gostando de Morfologia, apesar de ser melhor em literatura do que em gramática. Agora descobri que meu forte é literatura russa. Povo forte, sofrido, miserável e sonhador. Tá, problema meu se vou prestar vestibular de novo para letras-russo na UFRJ e me cansar mais do que já me canso, e fumar mais do que já fumo fazendo só uma faculdade. Cigarro é uma despesa idiota, bebida também. Eu não fui ver o filme sobre Perseus (só ia ver pela Medusa mesmo) e parei no bar de onde não saí tão cedo. Dê adeus à dignidade, pobre fígado.
Por falar em dignidade tenho visto coisas vergonhosas. Assim, eu ponho a culpa no álcool, e é uma culpa verdadeira, mas há quem faça sóbrio. Acho perda de tempo e de senso crítico montar um espaço para imbecis. Dá desespero, sério. Blábláblá. Blábláblá. Ninguém sabe mais prestar homenagens bonitas. Até as demonstrações de amor são puramente egoístas, não é uma questão de fulano, é uma questão sua; aliás, é uma questão minha, para mim. Tanto faz, vai tudo cair em meus ombros; imbecis costumam achar digno e bonito ações mais imbecis ainda providas de outro imbecil. Que cansaço. Que cansaço. Que can-sa-ço!
Minha nossa, é surreal como as coisas voltam. Senti o mundo totalmente limitado e redondo agora. Como pode? É inexplicável, sempre o foi. E Caio sempre alimentou, o maldito (bem feito!, caiu na boca da patuléia!). É extra-surreal, na verdade. É absurdo. E vendo aqui, ain, péra... nossa, que saudade. É essa a palavra exata, saudade. Como o Drew vendo o Mitch morto no caixão e tentando saber qual palavra usar. É saudade e não faço idéia de quê. Se eu tirasse o acento do 'quê' ficaria muito Padre Pluche com as orações. Caquinha! Falei besteira, lembrei besteira. Definitivamente, o Grande Ego ficou fora disso há muito tempo, logo não posso explicar. Talvez seja mais do que visceral, visual ou sentimental. Acho que é da providência divina, só tenho essa explicação para tão pouca clemência com meus pés.
Tudo costumava ser muito bonito, mesmo. E nem era tão bonito assim, enfeitado e afetado; só era bonito e leve. Eu era a que precisava menos, sempre fui. Grandes erros da soberba descomedida, do desapego e indiferença exacerbados. Pura hýbris. Sem a kléos, claro. Remoendo aqui no pc achei um vídeo que fiz de presente de aniversário pra Mayzóca. O meu olhar era mais brando, como é fim de semestre e por si só já sou naturalmente arrasada eles estão, hmm, não sei. Só estão colados no rosto. Hmm, aqui o vídeo:

Por fim, a vida não anda fácil. Limite? Talvez. Cansei dessa liberdade ilusória, eu preciso de caminhos de verdade e não ficar traçando minha vida aqui, sentada, levantando de vez em quando, acendendo um cigarro. Enquanto meus olhos não voltam eu espero eles aqui, abarrotada de saudade. Até o céu.

Dienstag, Mai 18, 2010

Um respeito ao Grande Ego

"Já são quase 5 da manhã
Por que ainda insiste?
Faz muito tempo
Que não tenho o que dizer..."

(Moptop- Aonde quer chegar)




Não faz falta e nem ao menos se faz perceptível. A não ser nas horas de muito cansaço, muito sono e muito álcool; talvez eu não seja mais eu mesma nessas horas e sobre um pouco de adeus irredutível grudados dentro de mim e alguma alma estranha apertando as teclas.
Assim, talvez seja um desses rasgões que fazemos por aí nos pés, nos braços e que não percebemos que estão ali e nem doem, e se curam sozinhos. O fato é que não amo mais, não mesmo e sim já amei mas se foi e todos estão muito bem com isso, ao menos em um pedaço de aparência, em alguma engrenagem que faz o tempo continuar a funcionar e não damos a mínima. Todo mundo cansou de tanta maldade gratuita sem ter o porquê, e um grande anjo - o mesmo que te acolheu no auge do sofrimento - deu aval de liberdade para que se enxergasse tanta mentira boba, e por fim os rasgos nos pés se tornaram aquelas casquinhas tão gostosas de se arrancar.
Agora os pés estão limpos, brancos e prontos para encharcarem-se de poeira nesse tanto de caminhos que eu tenho e que você, por atitudes tão vis e que não vão fazer a mínima diferença na vida de ninguém que por excelência é bom e merecedor de todas as doçuras da vida, não vai ter sequer a oportunidade de provar. Mas não estou aqui para lhe fazer julgamentos que me falta peso nas mãos e ar nos pulmões (já congestionados pela nicotina) para sentenciar. Apenas escute: eu não te amo, não é insistência e não há sonhos acerca de você, pois não se constrói sonhos com monstros: faltaria beleza e isso eu tenho a acrescentar graças à Deus! Outra: da próxima vez que for encenar cuidar da pessoa que gosta, faça-o com sinceridade. Não faça mais de mim um meio, um caminho para todo esse inferno que você - por vontade própria - guarda em si. Tão-somente.