Donnerstag, August 27, 2009

Black holes and revelations

"Foi assim que vocês todos morreram antes do tempo.
Foi assim que eu não morri."
{ Triângulo das águas; C. F. Abreu}


Ontem foi domingo, dia de missa. Puxei mamãe até a igreja e o altar estava em obra. Queria tirar o peso de sabe-se-que-lá cavou o último buraco em mim, se era buraco ao menos devia haver leveza.
Ontem foi domingo, dia de missa. Guardei o blush e o lápis de olho com um terrível medo cristão de que isso fosse se somar aos meus pecados. O bispo deu um sermão que eu não compreendi, mentira, até compreendi mas toda a virtude ricocheteava vã em algum lugar de mim ou passava direto.
Ontem foi domingo, dia de missa. E o corpo de Cristo foi oferecido aos fiéis, eu não o quis. De repente tudo pareceu muito mecânico, eu estava vazia e queria ver aquela imagem de Jesus crucificado que havia atrás das cortinas de obra. Eu queria me lembrar de como eram todos os estigmas e o rosto firme, cheio de abnegação e amor; queria também me lembrar do que vinha antes do martírio.
Ontem foi domingo, dia de missa. O que vem antes são as palavras e quando me dei conta os olhos lacrimejaram, e eu esqueci o meu nome. O bispo me olhou - " um homem que me olha e não me mata"¹ - , bem na hora em que o coro dizia: " Mas diz uma palavra e serei salvo". Eu recebi tantos pecados e distribui tantos perdões que resolvi reproduzir pecados e deixar o perdão para o rapaz com os braços pregados na cruz.
Ontem foi quarta e não domingo. Eu sou um ser humano e burlo todos os mandamentos divinos. O tempo agora pára nos espaços de hora em que se dão os surtos de lucidez. À minha frente um homem que reza a missa, " que me olha e não me mata", a última coisa entre as coisas boas que um dia ofereci me matou antes. " O amor é bom, não quer o mal, não sente inveja ou se envaidece..."; onde foi que desbotou então? " Um homem que me olha e não me mata", e um sol loiro, gotejante. Lá fora, invadindo a sala.



¹: Trecho de "Oceano Mar", Baricco.

Samstag, August 22, 2009

O verdadeiro fantoche

Texto em homenagem à Edu Levy, grande escritor a quem devo metade ( ou mais) do meu acervo cultural.


Diante de grandes reportagens acerca do vício em internet me veio à tona a verdade pura e simples: ela é apenas uma ferramenta a qual usamos a bel-prazer. Ao contrário de toda a paranóia em que há a confirmação de que ficamos bitolados e até mesmo de que somos controlados pelos meios de comunicação, o fato é totalmente reverso. O vício está completamente presente, no entanto, ele começa com uma simples necessidade de auto-afirmação online, meios em que colocamos fotos nossas que não são nossas, compartilhamos gostos que nem ao menos conhecemos e mantemos vínculos superficiais com pessoas as quais falamos menos que Grüβ Gott!.
Quanto ao caso das fotos, isso já está em níveis de cara de pau. Meninas à beira da obesidade se tornam musas malhadas, quase um corpo esculpido na época da Roma antiga. Quando vemos a versão real, alguma coisa cai em nós - e os homens sabem exatamente do que estou falando, com o perdão da piada-. Com os gostos pessoais então a situação é gritante, se metade das pessoas escutassem Sigur Rós ou Pavement como vejo pelos perfis orkutianos, eu garanto, essas bandas já teriam se apresentado no Citibank Hall ( com o NX Zero fazendo a abertura, digno!).
Sabe-se que isso tudo vai muito além da auto-projeção perfeita de meros mortais flagelados pelo bullying ou pela falta de uma dieta decente. Já vi pessoas fantásticas terem a sua moral e dignidade enlameadas por pura fofoca e má interpretação, e pior, por pessoas que desconhecem qualquer nível de qualidade adjetiva. Outra: já fui endeusada e também tive minha existência questionada; aliás, uns meses atrás fui dada como morta pelo orkut, até meus amigos reais creram em tal fato.
Entretanto, o melhor de tudo são os recalcados com os antigos relacionamentos. Esses rendem risos durante pelo menos o resto da semana ( experiência própria). Aliás, melhores amigos, cuidado!, agora com o orkut não cabem mais a vocês brincarem de disse-me-disse. Quer chamar a atenção do(a) ex? É so atualizar seu profile! E ainda pode escolher se vai xingar, reclamar, dizer quantas vezes o cretino broxou, ou ainda, você pode fingir que amadureceu com o fim do relacionamento e pagar de intelectual com alguma frase do Pessoa. Ou tirar fotos com um amigo gay e trocar o status para commited, "estamos muito felizes, ele me traz bombons todos os dias, danke schön!". Como se pudessem escolher uma Julieta, uma Beatriz; já dizia Cortázar. Defitivamente, nós somos os ventrílocos.

Samstag, August 15, 2009

Müdigkeit

Em homenagem à aula de alemão daqui a pouco, deixo a versão "cansaço" deutschliana para vocês. Passei o mês inteiro falando, olhando e contando navios. Só porque o Dood disse que eles são os olhos do mar, e a associação que eu fiz com um poema do Maiakóvski sobre "as maçãs do rosto do oceano" fez muito sentido. Complementando tinha um enorme sol loiro fazendo uma passarela sépia no meio no mar. Eu concluí que aquilo seria a sua silhueta.
A vida tem cheirado mal e perdeu o sabor. Sabe-se lá pelo quê eu não consigo mais assimilar nada em minha volta que não seja café, álcool, cigarros. E quando acabo de utilizar estes entro em estado de desespero do tipo "só isso?", a vida devia ter algo mais a oferecer, mas não tem. É claro que tem ( minha voz católica sopra aqui ao lado), é uma questão - antes de tudo- de abnegação. Aquela coisa toda do amor pobre, da hybris nunca bem vinda e de ser muito mais fácil ser um santo do que ser um humano. Há um humano querendo gritar dentro de mim, aliás, muitos humanos gritam dentro de mim... No entanto, voltar arrasada por ser espancada por uma multidão é complicado, ainda, os cortes e hematomas mal aparecem, se perdem em algum lugar do corpo e depois formam uma hemorragia ou um câncer. Voltam em forma de Wort ( palavra) e acaba fuzilando outro humano, que mais tarde soma-se aos outros gritando dentro de mim. Último gole no café ( muito aguado por sinal). Auf Wiedersehen.

Samstag, August 01, 2009

Atrás

" Meu Deus, mas como você me dói de vez em quando!"
C. F. Abreu



A diferença não estava mais em entrar no ônibus ou não, avisar ou não, São Paulo ou Curitiba, delineador ou lápis de olho. Os olhos iam terminar inundados de qualquer forma, assim como iria também inundar algo dentro de si, e ela nem sabia bem o que era. Inundou tanto que ela teve que tirar as sandálias e esfregar as plantas dos pés em cada paralelepípedo da rua. Contou as linhas da faixa de pedestre e se perguntou por que o pôr-do-sol era tão mais bonito lá. Era lá que ele estava e ele ficou com tudo, não foi? Ficou com a calma, com o pôr-do-sol e o cheiro de algo que continha vida. Você teve que se conformar com o vapor do monóxido de carbono que queimava as suas narinas, assim como o seu cigarro. Só restou isso e uma enorme expressão nauseada diante do mundo e você nunca ao menos se envergonhou disso.
Talvez por isso você tenha tomado o expresso de um gole só, talvez por isso você queria chorar pelas ruas, pela beleza e não pelo encontro. E você nem o sacudiu ou esbofeteou. Nem abraçou. Você não queria se levantar daquele banquinho tão banquinho, tão branquinho. Era muito feio tudo aquilo, mas ficou bonito porque ele chorou, ele sempre chorou, sua boba. O finalmente abraço foi de tão perfeito encaixe que a natureza tratou de tirar uma foto, vocês deviam tanto uma foto à natureza... Vocês também deviam uma união à ela. E tudo ficou num tatear de mãos pelo rosto, pelo pescoço, pelas nádegas e pernas.
Ficou a certeza drástica do amor, não pelas fantasias mas pelas certezas. Numa linha tênue e paradoxal temos uma visão microscópica de algo sensível, palpável e nunca mutável. E ainda a telescopia de ver muito longe - mas ainda assim enxergando com firmeza - aquilo que realmente é. Sem devaneios ou palpites. Assim ela mordia o alto de seu ombro, não como um gesto amoroso, mas como tentativa de levar aquele pedaço de carne dura consigo, como um belo souvenir. E essa carne tinha gosto de tecido mal passado, salgado ( pelas lágrimas que caíam em cima) e de chegada. Ela queria gritar " covarde!", mas as lágrimas nem demoraram assim como o rancor. Um sorriso, muitos beijos, um perdão de cada lado e certezas, finalmente certezas! Eles sentaram-se sobre o paralelepípedo esperando que um caminhão os atravessasse. Não era morte mórbida, era descobrimento da vida, e de coisas feias que nela também haviam: mentira, desilusão, desamor. Mas nada disso lhes pertencia e esse foi o motivo da morte. Já chegaram ao final da busca, não só isso: morderiam-se, colariam-se em um interminável abraço, copulariam como quadrúpedes e morreriam.
- Chegamos ao fim, meu bem.
- Agora sim.

Mittwoch, Juli 29, 2009

Palmas à Cortázar!

Porque de longe é possível almejar, querer e até tentar trazer para si, mas nunca criar, remendar os maltrapilhos restos humanos e torná-los uma Julieta, uma Beatriz. E o mais fofurinha é que a Julieta dos dias de hoje é uma Atália, uma Maga. Ótimo, posso tirar meu espartilho.

Freitag, Juli 17, 2009

Deu até pena

Jogar frases ao nada como se essas pudessem salvar algo. Como se falar e falar fosse transformar o passado, o que já se foi, em algo que foi realmente importante. Mas não foi. E toda tentativa de tornar isso num encontro-desencontro bonito, cheio de romantismo e amor verdadeiro já caiu por água, aliás, nunca o foi.
A-m-o-r, como se em alguma parte disso houvesse existido, e nem é que não exista, é que não teve e você não se conforma. O pior das pessoas é que elas tentam associar sexo-palavras-bonitas a amor. Tem burrice maior do que essa? Tem, e acreditem, isso envolve soletrar meu nome.

Mittwoch, Juli 08, 2009

Hybris

"Diazepam (that's valium);
Tamazepam... lithium,
...hrt, ect
how long must I stay on this stuff?"
( Something is squeezing my skull - Morrissey)


Em grego a significação fica em torno de excesso, desmedida. Uma das características humanas que eram severamente punidas pelos deuses: Aracne foi punida por Palas Atena por sua soberba, Sísifo pagou no Hades por suas desmedidas em vida. Mas houve aqueles que pagaram muito além do que deviam, aliás do que não deviam. O que percebe-se é que os soberbos pagaram muito aquém do que os altruístas pagaram. Édipo usou-se da razão, desvendou a esfinge e terminou em estado de desgraça inegualável. O sofrimento chegou a tal estado de loucura que arrancou os colchetes do vestido de sua mãe suicida e furou os próprios olhos. A mãe que outrora havia fecundado sem saber que era sua genitora.
Os antigos nos fazem reavaliar os próprios valores, pois se a soberba é punida, mas nem tanto assim e, a racionalidade e altruísmo nos arrastam nos caminhos de mártir, qual bem a graça de ter o mínimo de caráter? Agora compreendo amplamente como seres se desfazem da dignidade como se fosse até um estigma, uma vergonha. Porque ela não leva a nada para quem não compreende o mérito que se tem. Ninguém compreendeu Jesus Cristo quando ele se atirou aos romanos e se deixou ser crucificado. Ninguém decerto aprovou o facto de Aquiles ter preferido ter uma vida curta, seguida da "bela morte" através do combate singular para que se alcançasse finalmente a kléos (honra eterna após a morte).
Porque sempre é melhor doar um amor mais pobre. Desvendar e sentir complexidades nunca foi o forte do ser humano, quer dizer, ele é dotado de complexidade mas não sabe. Basta saber da cadeia de DNA e tantas enzimas, isso é o suficiente. E realmente não precisa ser nada que remeta à calma, é só algo que não faça sacudir os ânimos, berrar com os olhos cheios ou rasgar um sorriso no rosto de maneira que ele não queira sair, e nem saber da onde veio o sorriso. Não se pode mexer com as emoções, não é para isso que elas servem mais. Daí caímos no excesso, louvamos Dioníso, damos um pontapé em Sísifo e agarramos a rocha que ele empurrava. Com tanta vontade e coragem de que vamos fazê-la fincar no alto que chega a causar pena. Tolos, pensamos em todo mártir com resignação, respeito. Nós somos eles, todos.

Dienstag, Juni 30, 2009

Você

Você já acorda com a face banhada em pranto, e fica ora olhando as pernas compridas e magras, ora a janela. E você olha tão densamente a paisagem que acaba por se tornar uma, todos ficam encabulados e sem entender bem o que se passa, como alguém pode manter por tanto tempo esse olhar raso.
Você fecha os dedos no ar para tentar sentir as imagens e termina assustada, amuada e acusada de loucura. Ninguém consegue compreender que realmente não faz sentido e que é preciso tocar para que não se sinta enganado pela vida. Mas é miragem, você chora e quando se comovem trata logo de abrir duas covinhas no rosto cor-de-leite.
Você costumava ser feliz e viver a vida, tão-somente vida, sem mistificação. Você costumava perdoar, você costumava chorar. Você costumava se importar também e enxergar. Você costumava até sorrir, mas não era como um reflexo, era verdadeiro. Eu não sou mais você, porque afinal de contas "eu" ou "você" é quem está com a palavra e permaneço muda. Cega e surda, porque as imagens e sons distorcidos, irreais e controlados pelo Grande Ego também são uma invalidez. Cega, surda, louca, chorosa. Você. Permaneço muda.

Montag, Juni 29, 2009

Parafraseando Camus:

(...)




É preciso imaginar Ana feliz.

Sonntag, Juni 28, 2009

Mutter II

"Mas Jesus me fez, então
Jesus me salve da pena, da compaixão
E das pessoas comentando sobre mim"
( November spawned a monster - Morrissey)



"Olá, mamãe?", foi o que tentei dizer forçando um sorriso, com os pequeninos lábios ainda cobertos de batom e com os cantos feridos pelas bofetadas, mamãe. E quando levei os dedos à boca para secar as gotículas de sangue, pude notar que meus braços outrora tão brancos estavam com grossos ematomas roxos que poderiam ter sido evitados, mas você mal me olhou no rosto, mamãe... Pegou-me pelos braços e as palavras e vírgulas eram na verdade tapas e esmurros, e então eu caí de joelhos, mamãe.E tudo isso contrastando com meu vestido florido já amassado da noite, o sutiã preto rendado por debaixo e o delineador escorrendo me fez ficar triste, te fez ficar triste e todos choramos juntos.
Mas por que seus braços me sacodem desse jeito, mamãe? Pare. Eu não estou entendendo muito bem todas as coisas: dos objetos à seu rosto inflamado de fúria; e não sei se é resquício do whisky barato ou se o mundo agora parece confuso com seus gritos. Eu não queria mamãe, mas não sei muito bem o que não queria, pois não me vem à memória nada de tão vergonhoso ou errado. Ah mamãe...! Vem, assim... Não precisa chorar, eu sei que você não queria, eu sei. Ninguém tem culpa: eu não tenho, você não tem, muito menos Deus... Você sabe que se eu pudesse eu nasceria novamente, mamãe. Roupas decentes, nenhuma tatuagem, fígado e pulmão intactos; eu o faria por você... juro que faria. No entanto, isso seria retroceder e quando voltamos ao passado ele sempre nos esmaga, e eu prefiro sempre a forma mais lenta para decair, mamãe.
Eu lhe dei tudo, mamãe. Sei que não foi nada, porque tudo que há em mim fica para mim e só Deus sabe o quanto é bom eu guardar o que é meu só para mim. Pois isso explica de maneira óbvia porque você não me quer tanto assim. Você algum dia quis? Algum dia... você... poderia?

Montag, Juni 22, 2009

Com o perdão dos clichés

"Manchei o mapa quotidiano
jogando-lhe a tinta de um frasco
e mostrei oblíquas num prato as maçãs do rosto do oceano."
{ Maiakóvski}


Somos pedaços do que um dia iríamos ser. Nietzsche tinha razão em considerar a tragédia uma imitação perfeita da vida, que seria irreversivelmente descontínua. Por isso bradamos com os olhos cheios d'água ao ver uma cena de teatro com aforismos. É exigir demais do nosso organismo emocional essa expansão de sentimentos já tão mortos, mortos? Não... desgostosos mesmo. Quando um alimento sem gosto rola pela boca, cuspimos ou engolimos. E nem conotem de forma positiva: não é a pressa de se livrar, é que não faz mais nada então, rejeitado ele some.
Somos partículas de nada. Me pego, me olho. Grito meu nome. Falo com os transeuntes. Falo mais de uma vez. É como se carne, olhos e voz não fossem nada. É como o mito da raça de ouro de Hesíodo¹ : morremos fartos de dias e mesmo assim continuamos vagando como belos fantasmas. É como arrogância, que migrou para o egocentrismo, que migrou para uma indiferença doce mas ainda assim indiferença.
Esperei demais de mim e superei. Agora nada posso pedir de vocês, o que eu poderia? Já me dei tudo, já fui tudo, já me basto. Uma criancinha balança os gordos bracinhos para o pai: já sei o que me falta, mas perdeu o gosto, enrolou na boca, desceu direto e entupiu o coração.


¹ ver " Os trabalhos e os dias" Hesíodo.

Montag, Juni 15, 2009

Semi-ótica

- Eu te amo.
- Oi?
- Foi bom ter te encontrado.
- Quê?
- Você é linda...
- Oi?
- Eu me casaria com você.
- Quê?
- Eu tenho um problema...
[trago no cigarro]

- Oi?
- Eu tenho um problema.
- Quê?
- Eu-tenho-um-problema!
- Ah, meu bem...

Dienstag, Juni 02, 2009

Mutter

É mamãe, você esperava bem mais. Porque nove meses e um peso de três quilos foram coisas demais para se suportar em vão. E se você pudesse adivinhar dentre os ares tranqüilos que inspirava para dentro que eu não iria, de longe, ficar para sempre com bochechas rosadas e gordas, bem...Você não o faria. Na verdade você nunca o quis. Porque era para ser um menino e nem meu órgão genital correspondeu bem ao que você esperava. Assim como as minhas bochechas que são rosadas, mas de tanto blush.
Ah, mamãe!, você me ensinou os primeiros princípios do capitalismo. Me obrigou a decorar toda a tabuada quando eu só tinha 6 anos. Em troca, eu poderia ver o desenho. Espera, eu só tinha vinte minutos para decorar toda a tabuada e um cérebro inocente e pequeno demais para guardar tanta informação. Mas eu guardei, mamãe. Porque eu não suportaria mais um olhar de desprezo e hoje já me bastam estes que você me lança quando eu volto da rua tão bebum. Papai olha rindo, porque já sabe que não há muito o que se fazer, no entanto, você se sente fracassada diante de um fígado tão inchado. Qualquer um diria que eu sou uma maravilhosa jovem, mamãe. Mesmo a magreza excessiva, os olhos tão distantes e o corpo encharcado de entorpecentes fascinam as pessoas. Mas não contigo, mamãe, pois sempre estive muito aquém de lhe agradar.
Agora você sai da cozinha para fazer sua reza. Não que eu me importe, porque eu também rezo, mamãe. Para Jesus guardar um pouco sua dor para depois e te poupar da humilhação de ter gerado uma junkie. Os filhos das suas amigas não estudam, mas também não se destroem como eu, não é? E a linha entre não ter cérebro e não dar valor à própria existência nem chega a ser tênue. Você poderia, oh Deus...você poderia? Deus... me perdoar?

Donnerstag, Mai 28, 2009

"And now I know how Joan D'Arc felt..."

Finalmente pulamos da estante, compactamos nossos pés em pedaços de caminhos e suspiramos alto. Andamos. As mãos alcançam o coração, que bate através de uma felicidade louca. Felicidade? É incrível, mas ficamos tão desolados e cansados de permanecer sentados na estante que quando damos o primeiro pulo já não nos importamos tanto, a primeira impressão que fica é o alívio. Pés em passos pequenos, mas firmes. A certeza de que todas as tentativas foram malogradas, as situações iníquas e o fim, bem... não é o fim. No fundo, nós não temos o controle incondicional sobre a vida do outro.

Samstag, Mai 23, 2009

Ah, s'il vous plaît!

"Oh you can change your name and bleach your skin
Camouflage your accent so that even you don't recognise it
Because you are one ,because you live and breathe like one..."
{ The Slum Mums - Morrissey)


Porque é uma pilhéria que uma pessoa passe sua juventude tentando através de frases- que não conseguem manter uma vírgula no lugar - me atingir. Já não bastasse a vida ter-lhe pregado pontos de mediocridade por todo o âmago, ainda continua a se humilhar publicamente porque " não é como a Ana, mas não importa", ou ainda, manda recadinhos vulgares-ignaros. É de me causar uma certa piedade até.
Meu bem, sacode esse templo de bolinhos fritos e hambúrgueres que é o seu corpo e finge que está tirando a poeira da desgraça intelectual que se impregnou e não quer mais sair, ou, vá fazer uma lobotomia para ver se como um vegetal desmemoriado você encontra mais serventia no mundo. Saia dessa fossa, nem em um milhão de anos você deixará de ser quem é e photoshop algum esconde, entenda.

Sonntag, Mai 10, 2009

Náusea

"Take a thorn from my pride
And hand in hand we'll take a walk outside..."
{Who feels love? ; Oasis}




Porque um trecho do livro de Sartre me veio à memória e eu não pude deixar de fazer comparações, paralelos e tentar eliminar os mesmos. Estou cansada. E não é desse cansaço que horas dos sonos dos justos esvaem, é mais para desistir mesmo. Aliás, nem desistência, está mais para o fato de eu saber demais o que obviamente leva o ser humano a ser infinitamente infeliz. Não é infelicidade gerada por pessoas ou situações, é todo um conjunto.
Machado mostrava o homem com suas avarezas, Dostoievski mostrava o lado ruim que usava o lado bom como desculpa para algo heróico. Eu simplesmente passo o raio X, que mais prefere se tornar uma partícula gama e passar direto sem olhar, mostrar, demonstrar e refletir. Direto. Mas não passa e eu fico olhando para tudo com grandes olhos de recém-nascido sem muito saber o que fazer. As partículas gama são felizes. Se são feitas de átomos deveria haver algum parentesco conosco, não? É, não posso incluir ninguém nos meus malogros.
Acontece que esse cansaço-náusea-infelicidade advém da minha percepção de como vocês guiam as suas vidas. Sim, ainda é o problema da mentira. Eu não entendo e só Deus sabe o quanto tentei entender. Aliás, fui além tentando fazer a mesma pose, os mesmos gestos, quiçá os mesmos sentimentos; e não funcionou. Não é de todo ruim, mas acontece que não é bom e não leva a lugar algum e se é para chegar a lugar nenhum eu prefiro continuar com o Grande Ego e egocentrismo. Nossos pais sempre nos ensinam a não falar com estranhos. Falamos, pegamos em suas mãos, dormimos com eles, sorrimos à eles e às vezes até chegamos ao matrimônio. Agora entendo, é um aviso para que a geração futura não se assole em marasmos e erros. E continuamos errando, não há saída. Lembro agora de Joseph K. : " Como um cão!"

Freitag, Mai 08, 2009

I need some time in the sunshine...

Vai aqui alguns comentários básicos e aleatórios sobre o show do Oasis, aqui no Rio de Janeiro.


Saí atrasadérrima de casa, tirei o sono rodoviário de uma moça ao meu lado para perguntar onde era a tal Rua da Passagem. Resolvi ligar para Victor:
- Onde você está? Perimetral?
- Mas onde é a Perimetral?
- Rs,rs. Saindo da ponte, Ana... Saindo da ponte.

Dez minutos depois...
- O Flamengo fica antes do Botafogo, não é?
- Infinitamente, droga...

Mais dez minutos:
- Tcharam, cheguei!
- Onde você está?
- Em frente à padaria tal.
- É, meu prédio fica em cima, rs.

Depois de umas cervejas, conseguimos pegar o ônibus. Entretanto, nossas bexigas estavam quase estourando, juro que mais um quebra-molas e minha calça teria que ir para a janela secar... Enfim, saímos do ônibus, fomos à um barzinho, esvaziamos as bexigas e a surpresa: o engarrafamento estava tão intenso que pegamos o mesmo ônibus. Depois de fazer o caminho da Patagônia - a Barra da Tijuca fica tão longe...-, chegamos ao show. Luzes apagam, luzes acendem. Liam Gallagher aparece com o andar marrento-londrino, mascando chicletes. Guitarras e..."I live my life in the city,there's no easy way out..."; o público parecia que ia ter um infarte de tanta emoção. Braços levantados, todos pulando e cantando "Rock'n'roll star" impecavelmente.
A cada intervalo entre as músicas, Liam parava no palco para posar para as fotos. Também jogou sua toalha, mandou beijos e arremessou para alguém sua pandeireta.
No meio do show ninguém aguentava mais de tanto pulo, os pulmões pareciam que iam sair pela boca, mas ninguém desistia de cantar alto "supersonic", "champagne supernova" ou " Lyla". O momento mais bonito foi quando Noel cantou uma versão quase-acústica de " don't look back in anger", a multidão cantou o refrão sozinha, dando um descanso na voz do guitarrista principal da banda. Liam fazia gracinhas para a câmera e dialogava com alguns fãs da platéia. "Songbird" foi rápida mas perfeitamente cantada e tocada, de uma forma muito bonita. O show terminou com "I'm the Walrus", com o público perguntando se realmente tinha acabado e completamente estarrecido e emocionado com a banda. Só se ouvia o coro "Oasis! Oasis!" e os jovens saindo satisfeitos e felizes do Citibank Hall.

Sonntag, Mai 03, 2009

Tempo demais

Welcome I love you, don't you see?
Don't you see?
{ Fantastic Bird - Morrissey}


Ana contava com as mãos os papéis-textos, alguns manchados de café num acidente de sonolência. Já eram três da madrugada, as pálpebras pesavam e os cílios estavam úmidos. O maço de Marlboro já estava pelo fim, foi aí que se deu conta que tinha prometido parar de fumar. Nós sempre afogamos promessas, sacrifício remete à sofrimento e não à virtude.
Eduardo terminava seu conhaque, quer dizer, nunca terminava. Pois sempre que sumia a última gota de álcool daquele copo tão redondo ele enchia quase até a borda, na obrigação de evanescer os sentidos. Ele amava Ana, dos muitos cigarros e óculos de grau enormes.
Ana dava passos leves pela vida. Eduardo pisava desconfiado aonde quer que fosse. Ana adorava sorvete de casquinha ao final da tarde. Eduardo se limitava a uma soda. Ana gostava de copular com as cortinas fechadas. Eduardo gostava de enxergar cada centímetro daquela tez tão branca e tão frágil que até a luz poderia ferir. Além de tudo, ele gostava dos gemidos infantis e doces que ela costumava soltar. Ana gostava dos antebraços pálidos que envolviam a sua cintura estreita e que a rodava e rodava...
Uma lágrima. Ana não sabia se era sono, a brisa fria que acabara de atravessar a varanda ou saudade. Último cigarro, gole no café, empilhamento de textos e travesseiro. O travesseiro-amigo que sempre a ajudava a secar o rosto. Do outro lado da cidade, Eduardo adormeceu com a mão no copo e a face esborrachada na mesa. Acordaria mais tarde com um gosto amargo na boca.

Samstag, April 25, 2009

Para completar

Conversando com o Igor no MSN...

- Você está no laptop?
- Sim, e ele está in my lap. Adeus fertilidade!
- Vai para o blog.
- Sou coadjuvante do seu blog...
- Ah é!, o principal sou eu e o Grande Ego.
- Dois e dois são quatro.

Reeditando ( Ou " Sou lerda!"):

- Gostaria de poder retribuir as gentilezas e eu retribuiria da melhor maneira possível.
- Não entendo.
- Sorrisos, olhares.
- Não entendo, parte II.
- Gostaria de poder mostrar pessoalmente o quanto gosto de sua companhia.
- Não entendo - o confronto final. Mentira, mentira.

Sexta-Sábado

Ana se enche de delineador, sai do elevador do prédio puxando a meia sete oitavos e chega atrasada ( para variar) ao bar ( também chamado de "casa", rs). Depois de 7449479 cervejas, 3 maços de cigarro, fazer a ducentésima piada com o garçom - que nunca nos atende!-, invento de entrar na fila do banheiro para homens. Victor indignado, Ju já pegando o celular para gravar e mandar pro Youtube e eu gritando: " Eu tenho um pênis! Eu tenho um pênis!"; shame is the name. Não satisfeita com o bafón - nem com a quantidade de álcool-, compro uma Heineken e começo a passear aleatoriamente pela rua. Davi: " Comassim-má-onde-é-que-a-mocinha-estava?!"; " Eu? Passeando...".
Hoje, depois de desviar de todos os pivetes do Centro do RJ, chego ao Centro Cultural e sou abordada por um poeta : " Você é modelo fotográfica?!"; eu: " Ain, super que não."; ele: " Devia seguir a carreira, hein!"; eu: " Ih, é a maquiagem, super que argamassa! rs!"; e saio rodando pelo Centro. Meu celular toca:
- Alô?
- Oie.
- Quem é?
- Quem é que está falando?
- É a Ana, uai.
- Ah Ana! É o Léo, poxa!
- Passa aqui?
- Passo.

Meu cabelo já está quase na cintura, passo delineador até para ir na padaria, jogada na cadeira, cheia de livros em cima, com as unhas descascando e com o livrinho de poesias que o poeta me deu. É, a semana em dois dias.

Ain, tão cansada.