Samstag, Februar 21, 2009

Eu finjo tanto que vou além do fingimento

Só agora consigo compreender de um todo o que o Arthur quis me dizer com " você tem que admitir que está triste". Não era para eu me olhar no espelho, encarar mais uma vez o rosto macilento e já gasto por tanta maquiagem e dizer: " Estou triste, ok?"; ou ainda, não convencida de tal estado, berrar com imperatividade: " Você está triste sim, olhe bem!".
Era só para eu não levantar minha sobrancelha direita, era para eu não fazer o olhar de calma-desdém, era para eu não ter prendido as lágrimas de forma tão brusca que vazaram para dentro dos olhos e se perderam nas glândulas, secaram. Acontece que nunca secam. E se não é lágrima agora, será um sangramento profundo após a certeza de que continuamos vivendo sem o que nos mantinha vivos. Então, somos fantasmas do que um dia quisemos ser, do que um dia sonhamos. Talvez nem fantasmas, porque esses pelo menos vagam pelo infinito, enquanto nossos sonhos têm que ser esmagados por nós mesmos, para que possamos continuar, para que possamos ser a Ana, para que possamos escutar do melhor amigo: " você tem que admitir que está triste."
Chego agora do bar, nem ao menos tirei os brincos, as mãos anda estão cheirando a Lucky Strike. Aqui, de frente para todos, meus olhos pesam em desgraça, minha maquiagem borra. Meus braços já caíram há muito em cima do teclado, cansados do esforço de tentar não sei o quê. Canto: Estou doente de coração e é assim que as coisas são.

Samstag, Februar 14, 2009

O ritual do eterno

Há um ano atrás:

Ventos balançavam os cabelos do casal. Eles dançavam ao ritmo dessa ventania marítima como se fosse um ritual. Croissants e cafés entre beijos. Cigarros. "Isso um dia ainda vai te matar"; dizia ele. Ela ria e desdobrava a fumaça de seus pulmões na face do amado, uma provocação amorosa que logo levava-os para a cama.



Parece que nunca mais ventou. Ela se recostava no banco do ônibus sem bem saber porquê tinha pego o ônibus. Não estava preocupada, pois nunca há preocupações depois do fim. Olhou para o lado e viu um bebê. Quis chorar, mas riu para a criança, e esse misto de lágrimas e riso a fez parecer ainda mais bonita. Dizem por aí que não há nada como a beleza de um mártir.
Pintou as unhas, depilou as pernas, deu o último trago no cigarro e entrou num banho morno. Vestiu-se, maquilou-se com cuidado e fechou a porta rumo à igreja. Aquela cidade era muito pequena, não havia vento, ou, parecia que o vento tinha se enraivecido da cidade e resolvera nunca mais voltar. Ela tentava equilibrar as sandálias naqueles milhões de paralelepípedos. Mas já estava feito. Talvez fosse culpa dos paralelepípedos, talvez.
Era arroz para todo o lado, os noivos saíam de braços dados da igreja. A noiva com um sorriso rasgando-lhe a face e criando dois pés-de-galinha, o noivo com um sorriso que mais parecia uma interrogação. Se o padre tivesse esperado... Se ela pudesse responder a pergunta: " Fale agora ou cale-se para sempre!". Não pôde ao menos escolher, calou-se, portanto.
Escondeu-se atrás do poste e observou o movimento. Pra quê dissimular a amargura? Ela estava estampada em seu rosto, e o desgosto quase fez seu corpo desfalecer. E se todos vissem esse estado, poriam as mãos no rosto e desesperados perguntariam como um rosto tão malogrado, tão choroso, suplicante e envolvido por pura dor, poderia ser tão lindo, tão iluminado. Uma obra de arte que uma das maldades que a vida traz pintou. Caiu de joelhos, o paralelepípedo lhe ralou.
No dia seguinte, de tardezinha, arrastou-se da cama do hotel. O mesmo vestido, a mesma maquiagem, olhos esfumaçados pelo lápis de olho. Saiu pela rua. Ele estava no barzinho da esquina, a noiva ficara em casa arrumando as panelas. Parou na direção dele. Quando ele olhou, não acreditou. O mesmo vestido indiano bordado, com decote até o umbigo. Os cabelos estavam mais longos, o rosto ainda respirava uma inocência que não existia. Sorriu derrotada. Um amigo chegou, postou-se diante dele tirando-lhe a atenção por alguns segundos. E, de repente, ela não estava mais lá, e em nenhuma parte da rua.
Ele esfregou as mãos na face sentado. Uma fumaça de cigarro invadiu seu rosto, era seu amigo sem querer. Teve vontade de chorar. Como milagre, ventou forte e ainda por cima com cheiro de maresia. Ele olhou para o nada com os cabelos bagunçados. Ela, há muitos metros, teve o vestido sacudido pelo vento. Cigarro, vento, amor: ritual do eterno.

Samstag, Februar 07, 2009

There's the light that never goes out



São 17:21 e eu estou terminando de pintar as unhas de vermelho. Não sei que orgulho é esse de boêmia que não me permite ficar sentada no sofá de casa vendo tv, ou ainda, esparramada na cama de mamãe folheando algum texto. Acho que é porque o dia está quente como há muito não era. Mentira. Mesmo que as ruas estivessem encharcadas, mesmo que houvesse uma grande enchente, eu estaria me descabelando para beber e fumar algo.
Provavelmente, vou me atirar como louca na pista de dança e depois passar o resto da noite sentada - na cadeira mais distante, fato - terminando meus últimos cigarros, e deixando apenas um para fumar de manhã antes de voltar para casa. Já passou da hora de me arrumar, ainda estou nas unhas vermelhas e meu delineador acabou - gastei metade do delineador escrevendo uma carta-. E uma carta que nem mandei. Pra ficar bonito. Porque nosso final é feliz-triste-com-uma-cereja-em-cima.
Agora são 20:02, estou terminando de puxar a meia preta até a cinta-liga. Pronto, abaixei o vestido e calcei as sapatilhas. Não vou passar batom, os olhos estão pretos demais. Vou comprar dois maços de cigarros e ainda vai faltar cigarros para mim. Que o meu pulmão padeça, então.






Mittwoch, Februar 04, 2009

Soma

Título referente à droga de "Admirável Mundo Novo" , Huxley.

Estou cansada de encontros e desencontros. Ir e vir e dar passos de dança enquanto se vem e se vai dói. Estou cansada de toda essa beleza triste, dessas de filmes e livros que as menininhas românticas por aí tanto almejam, é menos doce e mais amargo do que parece. Estou cansada de finais bonitos, porque percebi há tempos que não há final bonito sem ser final triste, pois é assim que não há final, só significados que perduram apunhalando durante toda a vida.
E eu nem pedi grande coisa da vida não. Acho que um útero fértil e um coração saudável é direito de todos que fazem respiração celular, acho. Mas vejo por aí e ninguém quer isso, só eu. A maioria quer o que eu tenho recebido da vida. Não vale a pena. Dir-se-ia que uma vida de sucesso é uma vida junkie, uma vida de noites, de conquistas, de paixões, de vômitos. Eu trocaria tudo isso para ver meu ventre inchar, para descansar a cabeça em algum ombro que não seja o meu, ou ainda, que não seja um dos ombros desconhecidos que tanto conheço por aí.
Estou cansada de contos de fada. Eles na verdade nada tem da leveza e suavidade que tanto nos encantam quando somos crianças. As princesas morrem envenenadas, os príncipes nem se lembram das princesas, a bruxa e madrasta são apenas metáforas do que é nosso destino e o "feliz pra sempre" é um aprendizado, quase um fardo. De ter que transformar sempre as quedas em passos de valsa.

Sonntag, Februar 01, 2009

Eu não preciso parar de beber, eu preciso de verdades

Então o que insistia em incomodar não eram suas lembranças, mas as lembranças alheias. Como era possível sentir tanto por um córtex cerebral que nem era seu? Não é mais questão de não ter vivido, do "ciclo das coisas não acontecidas", como diria Baricco. Não é mais questão nenhuma. Talvez por isso incomode, talvez. Porque se não é nada, não tem como curar, amenizar.
A cidade está aqui, os bares não saíram do lugar e nem o meu fígado ( apesar dos anos tentando destroçá-lo). É tão vazio que ultrapassa os limites do vazio. É espaço grande, é denso mas não preenche. Que diferença faz se estou no álcool ou no crack, meu bem? Eu mo falo: nem isso irá ocupar algum espaço, preencher.
Com que direito você acha que pode falar que me ama? Tirou a Ana sóbria de mim e ficou com a doce. E ainda fica andando acompanhado pensando em quando poderá me falar coisas de amor. Injustiça. Contigo, com quem te acompanha. A dor é de uma grosseria tremenda, não aceitou nem um chá quando lhe ofereci. Mas como eu estava falando... Ciclo das coisas não acontecidas, não é mesmo? Que guarda o significado de tudo aquilo que é! - berra Baricco aqui da janela.

Freitag, Januar 30, 2009

" Hoje acordei lúcido" ; Pessoa

O filtro amarelo do Camel continuava entre meus dedos. Cílios úmidos, apertados. Sentada com "perninha-de-índio", mas acho que os índios não têm pernas tão finas. Tentei levantar, entretanto, antes mesmo que os dois pés firmassem no chão eu caí com as pernas cruzadas e lá fiquei. Morria de medo de me olhar no espelho, porque o tempo estava nublado e a luz fria desse tempo me deixa mais branca, quase azulada, igual a uma imagem, uma figura decorativa. E é tudo o que tenho sido nos últimos anos, daqui do pedestal.
A Ludy disse que não merece nenhuma das desgraças que lhe acontecem. Eu concordo. Mas nem posso arquejar e falar que também não mereço, porque mereço e muito. E a cada palavra, cada ação, estremeço ao imaginar o revés que me aguarda. Na verdade, mesmo que eu nada fizesse ou falasse resultaria em malogro. É o preço a se pagar por ter virado as costas à natureza, essa dívida eu nunca pude pagar e por isso sempre ajoelho diante do crucifixo pedindo uma audiência. Deus com toda sua doçura me traz paz, paciência. Ele até mostra com sutileza os caminhos que virão. De quê adianta? Como disse Neruda: "Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos."
O Rê sempre fala entre risos que nossa vida nunca foi fácil. Não foi, mas era cômico, sem as complicações que a vida traz. Os problemas aumentam, ou melhor, os problemas deixam de ser problemas para se tornarem incertezas. Se perdem de nós, então, nunca conseguimos resolvê-los. Com o tempo misturam-se ao nosso sangue, saem, coagulam impedindo que respiremos, dando a sensação de que algo está errado, mas não pode ser visto, tocado ou eliminado. Repito uma quase-paráfrase de um post anterior: hoje acordei lúcida, não como se estivesse para morrer, mas como se nunca houvesse existido.

Mittwoch, Januar 28, 2009

Cadê Hitler quando eu preciso dele?

É brincadeirinha, tá?


Não bastasse a frente fria ter voltado à Niterói, eu ter sido chutada pela Banca da UFRJ, ter ficado sem falar com minha melhor amiga por uma semana inteira pela TPM, ter dado o maior bafón de todos os tempos na madrugada em que dormi na casa de uma outra amiga, ter ligado pro quase-ex-que-nunca-vai-ser-nem-ex-e-nem-atual e não só ter ouvido como repetido todas as juras pela zilhonésima vez, agora o governo está pensando em aprovar uma lei para cotas de afro-descendentes em cargos públicos e privados. Ah, Lula... Ah!

Montag, Januar 26, 2009

Último romance

O problema é que o " eu te amo" sempre explode antes mesmo de ser pronunciado. E sai assim, como se fosse uma imposição, um engasgo, um segredo vergonhoso, uma necessidade. De que me adianta não te escutar, fechar a porta na sua face? Sempre abro novamente a porta, saio correndo, pulo em seu colo e os olhos lacrimejam, e sou obrigada a escutar repetidas vezes o "eu te amo" dito com tanta força que me atravessa e faz eu enxergar novamente o mundo, me tirando de meu egocentrismo.
E sei que a culpa nem é sua. Migalhas que o destino nos oferece e que não temos como recusar. Não tem como - e eu nunca permitiria que você o fizesse- jogar tudo para o alto e correr para os braços de quem você sempre quis, da "mulher da sua vida" - não é assim que você costuma me chamar?-. O problema é que eu não saí dessa categoria, o que traz mais dúvida, mais sofrimento pra ti. Confesso que não sofro mais, já estou acostumada com os agravos que a vida traz sempre para tomar algum sentimento e fazer a situação escapar totalmente do nosso controle.
Ainda estou me recuperando daquela madrugada. Passei tanto dos limites que a cara de pau sumiu e até estou sentindo um pouco de vergonha. Talvez o álcool faça com que nós abracemos nossos sonhos novamente, mesmo que eles estejam voando com o vento em forma de pó. Mesmo que eles abram buracos na alma e acabem na mesma coisa : " eu te amo".


Do nosso amor a gente é que sabe, pequeno.

Sonntag, Januar 25, 2009

Os risos garantidos da semana

No MSN:

" Não vai dar pra esse idiota, né?!" - Mari.

Na rave:

" Droga! Show do Tristania de novo?!" - Renan, quando os metaleiros chegaram.


" Up the irons!" - Eu, quando avistei um "tr00".


Na minha casa:

" Estão com esse preconceito todo só porque eles são muçulmanos?! Ah, porque eles não mudam de religião?!" - Mamãe.

Dienstag, Januar 20, 2009

Outro pecado

Andar, andar, escovar os cabelos, parar na cama de mamãe abraçando os joelhos sem vontade de acender a luz. Ver os prédios iluminados - através da janela- se transformarem em uma mistura de cores enquanto as próprias pestanas tentam tragar as lágrimas.
Tentar fazer um cego enxergar foi o limite da minha arrogância para com os céus. Ou inocência-boa-vontade minha. Ou ainda, tentativa malograda de usurpar Jesus. Porque o único que fez um cego enxergar acabou na cruz, não? E eu nunca, nunca poderia fornecer perdão ou abraços. Jamais conseguiria receber o beijo de Judas já sabendo previamente o que ele tinha feito. Penso que jogaria a primeira pedra em Maria Madalena, espalmaria minhas mãos ao ar para proferir maldições aos romanos.
É muita arrogância, é muito peso. Que venha um tempo de doçura.

Freitag, Januar 16, 2009

"Só Deus sabe quanto amei você.’’ (Márquez - tirado do profile da Ly)

Só por um momento - por favor-, não entendam a frase como o que ela quis dizer. E se entendessemos não como uma declaração, mas como se só Deus soubesse o quanto vocês amam e apenas só ele soubesse, só. Realmente, só Deus sabe porque nem eu sei. Talvez alguns de vocês cheguem a esse ponto um dia: saber-se amado, procurar sentimentos dentro de si e não achar. Como se estivessem se escondendo. Meus sentimentos têm medo de mim ou meus sentimentos se retiraram por compaixão?
E se Deus deixar de saber? Às vezes acho que há um complô entre os anjos, como se todos eles cochichassem entre si quando me vêem. " Olha lá, é aquela..." ; " Não fale alto, Gabriel!"; " Ela não tem sensibilidade para nos escutar mais, Miguel!".
Não faz mais sentido. Lembro quando meu fígado não doía e tudo fazia grande sentido pra mim - e com grandes significados-. Era aquilo: sorrisos de longe, mas não doídos como o são hoje. Meu Deus, será que eu me tornei tão egocêntrica assim?



Senhor, pare por favor. Eu já aprendi, eu juro que já aprendi. Mas chega. Os vestidos estão largos, os braços cada dia mais finos. Jatos de sangue saem pela garganta, fígado dói. haverá alguma chance ainda?


Alguém aí?

Montag, Januar 12, 2009

"Agora ainda vives pra mim porque te sei." ( V. Ferreira)

Que adianta o amor ter chegado? Ou ainda : que adianta o amor ter ido embora? Que adianta o amor permanecer? E continuar? E criar outro? E criar frutos? Tenho tentado inserir em mim mesma alguma explicação - que beira à fé de que há algo pela frente- sobre como ter motivos sim para fazer os próprios pés caminharem acompanhando uma estrada em que não há chegada, fim, saída, descanso e nem ao menos banheiro.
Ontem mal acordei e já fui surpreendida por um jato de sangue que saía de minha garganta. Câncer do cigarro? Talvez. Pneumonia-tuberculose devido às noites de boemia? Facto. Castigo de Deus? Bem, eu sou campeã em pegar castigos que nem são para mim, só de intrometida mesmo, então, não o é. Chorar-se-iam meus amigos se soubessem destas possibilidades. Chorar-me-ia se por acaso eu conseguisse achar algum carinho por mim mesma. Se eu conseguisse recuperar minhas emoções, ou, minha vontade.

Dienstag, Januar 06, 2009

Ella canta...


... com intensidade não comprada em refis de supermercado. Penso sobre como ainda prefiro ser uma alcólatra em estado terminal que engole verdades -ao invés de atirá-las-, do que ter a profundidade de um vaso sanitário. Não passe mais em minha porta, seu passaporte ao mundo dos "com-cérebro" já expirou. Ou ainda, minha vacina anti-mediocridade já perdeu o efeito, sinto-me enjoada e contagiada.

Donnerstag, Januar 01, 2009

Do 31 ao 1

Foi incrível como o sol tentava furar o céu de nuvens para que ninguém desanimasse em comemorar. A garrafa de bebida até o fim da viagem, outra garrafa de bebida e outra e outra. E guimbas de cigarros que se perdiam no calçadão e na areia. Meus pés, meu corpo se mexiam ao som da música agitada, todos loucos. Uns de forma natural, outros sinteticamente.
A contagem regressiva que não foi contada, percebi que era outro ano apenas pelos fogos que explodiam por toda a parte, e pelo abraço coletivo dos amigos-fofura. Delineador borrado - que foi escondido pelos enormes óculos- , rosto de sono e a madrugada estava virando dia. O céu estava tão cinzento que achei que o mundo fosse cair em chuva. Mas não. Os tênues raios logo apareceram e o céu ficou assim: cinzento com raios de sol forçosos pelo chão... Agora ele está tentando ficar azul no esforço de fazer o primeiro dia ficar bonito. Deus é de uma doçura sem tamanho.

Sonntag, Dezember 28, 2008

Some hearts are true

O mundo caía em chuva quando você percebeu que a culpa não era sua. A voz tinha virado algo que parecia um barulho de algum filhote assustado dentro de uma caixa de papelão, eu não entendia nada. Mas tentava entender e desvendar já que não eram barulhos de filhote e sim algum dialeto de malogros. Quando então o dialeto virou choro e só choro, e a voz logo reapareceu fina, suplicante de alguma coisa que certamente não seria resolvida.
Então, eu respirei para tentar fazer tudo ficar bem. O gás carbônico saiu e não trouxe nenhuma palavra de conforto com ele. Só restava desligar o meio de comunicação desejando melhoras, como se fosse doença. Um dos personagens de Mann dizia isso, "vai até as trevas e volta em forma de doença." E não curou. E todos estavam chorando por você, por ver uma pele tão jovem se desmanchar em rugas de preocupação, e ainda, por ver que não havia de ser feito nada.
Não, não era justo e eu sei que não era, meu amor. Não contigo. Sua alma não era daquelas feitas em moldes para aturar as desgraças e as maldades que o mundo traz. Eu me pergunto até agora por que não eu? - todo mundo também se perguntou isso-. Eu que permanecia de pé, eu que fui chamada de monstro sagrado a vida toda, eu que sempre dizia para o destino: " Te pego lá fora!". Mas foi você. Você que estava quase sempre sozinha e não estava acostumada à solidão. A vida tinha desses maldades: mandar ficar em pé quem não tinha muitas chances de ficar. E eu ficaria não é, amor? Eu quebraria minhas próprias pernas só pelo prazer de empinar o nariz e exclamar:"Olha aqui!".
Pra quê e por que toda essa lição se estava claro que você não estaria disposta a aprender? Tão sensível, sua alma era a de uma criança que saía abraçando todos, porque todos eram bons e não iam lhe causar mal algum. Até que ela se perdeu. Talvez estivesse nas ruas procurando o colo de algo que parecesse materno, talvez. Está aí o motivo pelo qual meu nariz amanheceu inflamado novamente: a dor de meus braços que se esticavam para tentar aliviar você do mundo, e a garganta que doía ainda mais por tentar transformar minha voz quase inexistente em algo berrante, só para você me escutar.

Freitag, Dezember 26, 2008

Feliz Natal

- E que blusa era aquela? PelamordeDeus...
- Ana, eu te entendo.
- Aposto que devia estar combinando com umas sandálias ridículas de borracha.
- Eu te entendo...

[ Ela põe uma das mãos em meu ombro]

- Pior que idiotia pura, só falta de gosto no guarda-roupa...
- Chega! Entendeu? Chega! Eu te entendo, eu juro que entendo!

[ Olhar baixo. Ela me puxou para uma abraço forçado. Meu nariz estava vermelho e eu tentava me desvencilhar do abraço]

- Vai ficar tudo bem, vai ficar tudo bem. Eu entendo...Eu entendo...

Freitag, Dezember 19, 2008

As mentiras da geopolítica

Nos três anos em que cursei o Ensino Médio, sempre ouvi os mesmos discursos nas aulas de Geografia - em todas as aulas, principalmente em Geopolítica-, sobre quão o sistema capitalista é injusto e gera desigualdades por si só.
Não contentes com seus discursos inflamados, cheios de retóricas tiradas das orelhas da Carta Capital, eles ainda se propunham a citar Smith. Mas qual o problema em citar Smith? Ora pois, problema algum, quando não se utilizam de sofismas para isso, claro.
Era um tal de "Maximização das capacidades individuais que dizia que um vendedor de bananada teria que ser o melhor vendedor de bananada", que a coisa ficou mais ridícula do que eu previa. Smith via a "maximização das capacidades individuais" como a forma mais simples de gerar riqueza e prosperidade não só para o trabalhador, como também para a sociedade. Isso até hoje é uma medida certa e eficaz e não sou eu quem está dizendo. É só assistir ao Globo Repórter ou observar os judeus.
Ok, mas " as relações burguesia X proletariado são injustas, desumanas, insalubres!" Smith que foi um dos maiores pensadores capitalista diz:

"Não é porém difícil ver qual das duas partes tem, em ocasiões normais, vantagem nessa disputa e pode forçar a outra a aceitar um contrato nos termos que mais lhe interessam. Os patrões, sendo em número mais reduzido, podem facilmente chegar a um entendimento entre si a fim de manterem um dado nível de salários; aliás, são os próprios regulamentos que os autorizam, ou melhor, que não proíbem as suas combinações, enquanto que já proíbem as dos trabalhadores. Nunca assistimos a atos do parlamento contra as decisões de baixar os preços do trabalho; mas já soubemos de muitos contra as decisões de os aumentar. Em todas essas disputas os patrões podem aguentar-se muito mais tempo. Um proprietário, um agricultor, um industrial ou um comerciante, mesmo que não empreguem nenhum operário, podem normalmente viver um ano ou dois gastando os capitais já anteriormente adquiridos. Mas poucos trabalhadores poderiam resistir uma semana, menos ainda um mês, e quase nenhum um ano inteiro sem renovar pelo trabalho os meios de sua subsistência. A longo prazo, o trabalhador pode ser tão necessário ao seu patrão como este o é para aquele; mas tal necessidade não se verifica de imediato." ( "A riqueza das nações", p.63).

Fica aí claro que não se trata de injustiça, mas de fatos. O que pode tornar o sistema capitalista injusto não são as práticas capitalistas, mas o caráter de quem as pratica. Qualquer dúvida leiam o Riqueza das Nações e fechem o Manifesto, porque afetação comunista já está mais do que "last week".

Dienstag, Dezember 16, 2008

Last Night I Dreamt That Somebody Loved Me

Eu tinha então 17 anos. Meus cabelos caíam na testa e eu ainda era um menino. E os meus olhos costumavam brilhar com a chuva ou quando eu jogava bola com os amigos. Até que a conheci. Com seus tantos anos a mais de vida, com a sua experiência, com o seu organismo danificado pelas drogas. Achava-a doce, tão doce que eu costumava viajar para onde ela estava nas minhas noites de insônia.
Eu queria ser ela, ou simplesmente poder sentí-la, vê-la. Nem que fosse só para saber que não era alguma miragem, alguma ilusão. Quando eu sumia, sonhava com ela todas as noites. Quando ela me ligava só me restava não só abrir meu coração, mas dilacerá-lo em juras de amor eternas, em planos de um futuro bom. Pensei em largar tudo só para poder viver ao seu lado.
Mas eu menti. Nunca a amei. Apenas o meu egoísmo de menino pouco conhecedor dos causos do destino me guiava até a destruição dela. Ela era tudo para mim, mas não porque eu a amasse, não. Eu queria vê-la completamente destruída. Eu a via se desintegrar, mas eu queria ter esse prazer, eu queria arrancar daqueles grandes olhos lágrimas que jamais se dissipassem. Queria provar que ela tinha um coração, não para amar, mas para aguentar todas as dores que eu poderia lhe proporcionar... Entretanto, também haveria de humilhá-la! Só por todas as vezes que ela com a sua paciência e serenidade me explicava as coisas ou me dava broncas por ser um afetadinho.
Parti o seu pedestal me entregando à outra paixão. Fui aproveitando cada silêncio dela nas conversas, silêncios que eu tinha certeza que eram de choro. Mas eu simplesmente não poderia vê-la chorando, não? Eu tinha que ter a certeza de meu mal. Como não havia jeito de saber, me contentei em metralhá-la com todos os absurdos infantis do mundo. Então, ela sumiu. Na verdade ela havia ido embora... E agora? O meu trabalho não havia acabado. Insisti em machucá-la, acho que consegui. Talvez ela esteja com um suéter lilás agora, talvez o céu cinza-brilhante de chuva esteja iluminando seus olhos marejados e talvez sua boca esteja contraída até agora de dor, talvez.


Acordei e meus cabelos não batiam na testa, eram longos. Eu não tinha nada de menino e já tinha dezenove anos fazia 1 mês. E eu não havia me machucado, não havia dor alguma. Ludmilla me avisava por mensagem : " Foi só um sonho ruim...Foi apenas um sonho ruim, ma belle..."


Player: Keane - A Bad Dream

Freitag, Dezember 12, 2008

E é assim que as coisas são

A Ludmilla e eu tivemos uma discussão homérica ontem. Ela falava, aliás berrava, sobre como o mínimo de reembolso que Deus poderia dar a ela é ser canonizada. Se a conversa tivesse sido concebida pessoalmente, provavelmente eu espalmaria minhas mãos ao ar, declamaria todos os malogros de minha vida e por fim amanheceria envenenada, só para testar a ordem divina, ou ainda, para tentar copiar Mynheer Peeperkorn.
De engraçado ficou amargo. Ela falava sobre como tudo - não só nesse momento- está sendo difícil, e teve o básico ataque de pedantismo-depressivo de dizer que só ela sofre, que sua dor era a maior e que achava o cúmulo da patotinha esses jovens "humanóides" considerarem as suas poucas misérias alguma dor. A essa altura já estávamos chutando uma a costela da outra.
Talvez por isso hoje eu tenha acordado arrasada. Não que meus olhos estivessem marejados, não. Porque eles estavam secos. O rosto não tinha expressão. O coração parecia ter se volatilizado. E o corpo, bem, o corpo não se movia e eu não tinha forças para brigar com a inércia e movê-lo. Me contentei em ficar na cama, olhando a janela cinza. Ameaçava chover.
Então, lembrei de quando eu era um pouco mais nova. Uma vez corri de meus amigos, já muito ébria, e parei estática numa pracinha que fica de frente para a Baía de Guanabara. Era noite e estava relativamente frio. Eu explodi, meu nariz inflamou de coriza e meus olhos começaram a ficar manchados de delineador. Estava doendo. O meu rosto se desfigurava na maquiagem enquanto as ondas da Baía batiam perto.
E não era uma dor do tipo dor. Porque se fosse apenas dor, um bom psicólogo e muitas caixas de Rivotril resolveriam. A principal questão é o referencial. O meu referencial é tão amplo que engloba a dor de cada pedacinho de ser humano que passa por mim. O idoso sem dentes procurando atendimento no hospital, o olhar triste que vi em um mendigo ( ele devorava algo que parecia um doce de padaria com tanto desgosto...), os amores de minha vida que não me querem e também não me deixam seguir e claro, o Grande Ego que controla tudo com seus tentáculos. Eu não alimento meu ego, ele me alimenta.
O referencial não pára de crescer. Talvez eu imite Édipo Rei e fure meus olhos na esperança de uma cegueira completa, quase alienação, ao contrário do que queria o personagem. Talvez eu continue acordando arrasada, sem saber exatamente o porquê. Alguma coisa, alguma lenbrança...Eu não sei o que é. Está aqui, mas foi absorvida pelo Grande Ego de tal forma que eu realmente não me lembro quem ou o quê fez isso. Grande Ego, se era um sonho...devolva.

Montag, Dezember 08, 2008

A Ludy me odiava, fato

... Sinceridades que me fariam matá-la de forma silenciosa...

Ana : Eu não sou idiota! Eu não sou idiota!
Ludy: Nem eu, mas sempre acabamos sendo...
Ana: Você. Eu não. Eu sou aluna de Olavo de Carvalho e Levy, jamais serei idiota. ( ataque de pedantismo).
Ludy: E se aparecesse?
Ana: Eu poria um enorme saco de papel na cabeça, relembrando os tempos de misantropia.
Ludy: Escrito " tô aqui, pega".
Ana: Vai...

(...)

Ludy: Sabe, eu te odiei um dia.
Ana: Como foi isso?
Ludy: Em um dia que ele demorava a me responder, e voltava rindo dizendo que estava falando contigo. Eu sabia que você era a menina que gostava dele.
Ana: Sério? O Grande Ego agradece, vou dormir feliz agora.
Ludy: Peste diabólica... Arruinou uma noite de minha vida!
Ana: Que glória!

(Ludy começou a escutar "What goes around...Comes around" do Justin Timberlake)

Ana: Era brincadeira. Não precisa escutar essa música e planejar minha morte. Até porque você teria que entrar na fila e herdaria milhões publicando meus textos...
Ludy: Anazinha :)