Kaum ich muss gehen.
hab' mich niemals deswegen beklagt
hab' es selbst so gewählt
Ich habe nie die Jahre gezählt
Nie nach gestern und morgen gefragt.
Manchmal träume ich schwer.
[Was ganz anderes Jahr um Jahr]
Mittwoch, Oktober 21, 2009
Dienstag, Oktober 13, 2009
Arrumando as malas...
E finalmente as escolhas-opções começam a aparecer. Minha unha está azul, "você não vê o azul do mar em mim", Lalá costumava dizer. Cronópio, cronópio, cronópio.
Montag, Oktober 05, 2009
Dissolving into molecules...
"Sei que você acha que eu já deveria ter me endireitado
Obrigado, e morra."
{Something is squeezing my skull - Morrissey}
Porque é bonito demais fazer a maior pose de junkie ou alcólatra no orkut ou em qualquer outro meio de comunicação que alcance uma multidão, mas infelizmente para mim não é uma pose, é uma verdade. Hard truth. O Igor sempre diz 'wannabe junkie', mas isso já é um passado muito distante. Talvez tenha deixado para lá e assim fui saindo, ultrapassando o ponto, o limite. Eu estou fora de mim há algum tempo e só em poucos momentos de lucidez que tenho é que consigo perceber isso. Farta de dias, mas é engraçado como os pés insistem em caminhar, dar dois passinhos de dança, dois pra lá, dois pra cá. A baía hoje está cinza combinando com os olhos de Vater. O coração de mamãe explodiu hoje. O meu está pendendo aqui esquerdo. De certa forma pululante e sorrindo, como se pudesse se reconstituir a qualquer momento. Estou orgulhosa do meu coração e não quero que ele termine como meu fígado: cansado, doente, estuporado. Nem como minha veia do braço esquerdo, toda dura e estourando sempre. Quero um café, o coração de mamãe explodiu.
Obrigado, e morra."
{Something is squeezing my skull - Morrissey}
Porque é bonito demais fazer a maior pose de junkie ou alcólatra no orkut ou em qualquer outro meio de comunicação que alcance uma multidão, mas infelizmente para mim não é uma pose, é uma verdade. Hard truth. O Igor sempre diz 'wannabe junkie', mas isso já é um passado muito distante. Talvez tenha deixado para lá e assim fui saindo, ultrapassando o ponto, o limite. Eu estou fora de mim há algum tempo e só em poucos momentos de lucidez que tenho é que consigo perceber isso. Farta de dias, mas é engraçado como os pés insistem em caminhar, dar dois passinhos de dança, dois pra lá, dois pra cá. A baía hoje está cinza combinando com os olhos de Vater. O coração de mamãe explodiu hoje. O meu está pendendo aqui esquerdo. De certa forma pululante e sorrindo, como se pudesse se reconstituir a qualquer momento. Estou orgulhosa do meu coração e não quero que ele termine como meu fígado: cansado, doente, estuporado. Nem como minha veia do braço esquerdo, toda dura e estourando sempre. Quero um café, o coração de mamãe explodiu.
Mittwoch, September 30, 2009
Das maldades que o Grande Ego faz
Eu zanguei numa cisma, eu sei
Tanta birra é pirraça e só
Que essa teima era eu não vi
E hesitei, fiz o pior
Do amor amuleto que eu fiz
Deixei por aí
Descuidei dele, quase larguei
Quis deixar cair.
[Los Hermanos - Paquetá].
De um dos primeiro dias chuvosos sem álcool na minha vida. Nunca dá certo. Tenho algum post sobrando no meu caderno para pôr aqui. Mas não gosto de nada, enjoei da vida, já disse, ela acostumou. Vontade de arrumar as malas.
Tanta birra é pirraça e só
Que essa teima era eu não vi
E hesitei, fiz o pior
Do amor amuleto que eu fiz
Deixei por aí
Descuidei dele, quase larguei
Quis deixar cair.
[Los Hermanos - Paquetá].
De um dos primeiro dias chuvosos sem álcool na minha vida. Nunca dá certo. Tenho algum post sobrando no meu caderno para pôr aqui. Mas não gosto de nada, enjoei da vida, já disse, ela acostumou. Vontade de arrumar as malas.
Dienstag, September 29, 2009
Tristeza do Cronópio
Na saída do Luna Park um cronópio percebe que
seu relógio atrasa, que seu relógio atrasa, que seu
[relógio.
Tristeza de cronópio diante de uma multidão de famas
mas que sobe Corrientes às onze e vinte e ele,
objeto verde e úmido, caminha às onze e um
[quarto.
Meditação do cronópio: "É tarde, mas menos tarde
[para mim do que para os famas,
para os famas é cinco minutos mais tarde, chegarão
a suas casas mais tarde, se deitarão mais tarde.
Eu tenho um relógio com menos vida, com menos
[casa e menos deitar-me,
eu sou um cronópio infeliz e úmido."
Enquanto toma café no Richmond da Rua Flórida,
o cronópio molha uma torrada com suas lágrimas
[naturais.
{Histórias de cronópios e de famas; Cortázar. p. 113-114. Ed. Civilização Brasileira.}
seu relógio atrasa, que seu relógio atrasa, que seu
[relógio.
Tristeza de cronópio diante de uma multidão de famas
mas que sobe Corrientes às onze e vinte e ele,
objeto verde e úmido, caminha às onze e um
[quarto.
Meditação do cronópio: "É tarde, mas menos tarde
[para mim do que para os famas,
para os famas é cinco minutos mais tarde, chegarão
a suas casas mais tarde, se deitarão mais tarde.
Eu tenho um relógio com menos vida, com menos
[casa e menos deitar-me,
eu sou um cronópio infeliz e úmido."
Enquanto toma café no Richmond da Rua Flórida,
o cronópio molha uma torrada com suas lágrimas
[naturais.
{Histórias de cronópios e de famas; Cortázar. p. 113-114. Ed. Civilização Brasileira.}
Samstag, September 26, 2009
É pertimento?
O Waltinho é um querido tão querido que se deu o trabalho de digitar a carta que a Clarice mandou para o Sabino em alguma parte de...1946? Sim, 1946. Não canso de reler a carta. Porque a Clarice me pareceu bem diferente nela. Como o próprio Wal disse " Ana, você está acostumada a ver Clarice em perfil de orkut dessas menininhas né?"; e não é que ele me conhece?rs. Clarice me pareceu tão perdida e marcada quanto Kafka, tão firme nas certezas da dor e das maldades que a vida traz quanto Mann. Enfim, estou bem. De uma paz que não tem tamanho. Sei lá pelo quê, sei lá. Clarice disse para o Sabino que até cortar os defeitos é perigoso, pois até pequenas coisas podem sustentar o que somos; é aí que eu vejo o quanto me compliquei. E o quanto não ligo, porque estou desde não sei quando pulando poças ( como em Hoppipola - Sigur Rós), sorrindo gratuitamente por nada, paz assim que voraz saiu atravessando caminhos, se instalando, se apresentando de forma convincente. Lembro de uns anos atrás, quando eu terminava a garrafa de alguma coisa com álcool e rodava e rodava e procurava afoita alguma grama e me atirava nela; e eu via um mundo azul ou cinzento ( dependendo do dia), minha melhor amiga na época ficava sem entender nada. Eu não entendia como ela não entendia.Tive uma prova fofíssima de deutsch I hoje, não pude tomar sorvete de casquinha ( céus, como isso me lembra Elizabethtown!) pela garganta infeccionada, não pude nem ao menos comemorar meus dois meses de namoro. Lembrei agora que a Ly disse que eu fiquei louca, poxa vida Ly, logo agora que estou saindo da loucura? Logo agora que a vida acostumou, ou melhor, que a vida acostumada já foi e agora deu possibilidades de tudo? Não canso de dançar this charming man, os cabelos vão para a direita, para esquerda, os pés balançam, tudo balança. Como gosto dos Smiths! I would go out tonight, but I haven't got a steach to wear... Talvez eu esteja mais para Àgaetis Byrjun, um bom começo. Abraço apertado aos leitores ( e que me girem até meus olhos se perderem do foco do sol loiro e gotejante).
Post Scriptum: Mein Gott!,como tenho saudade do meu batom vermelho e do meu amor pela Courtney Love.
Post Scriptum: Mein Gott!,como tenho saudade do meu batom vermelho e do meu amor pela Courtney Love.
Donnerstag, September 24, 2009
Sobre alguma lucidez
"Assim, fecharemos o círculo das coisas não acontecidas,
que em nosso ofício, como na vida,
guarda o segredo, o significado mais profundo,
de tudo o que é."
{ Esta história. Baricco}
Estou hoje triste, eu já faço idéia de que isso há muito não é grande coisa, ou grande novidade, mas acordei ao menos. Com o céu mergulhado na baía e nos prédios, todos muito cinzas, daquele cinza branco que me faz sentir em algum livro de Kafka. Estou hoje triste, o céu desistiu de ser cinza-branco-irritante e resolveu ficar de um luto cinza-acinzentado para mim, talvez o céu tenha acordado assim por mim hoje, talvez. O céu acordou assim: chorando, como nunca o vi chorar antes. Pedaços de monóxido de carbono me aguardam por toda a parte, grande reverência ao destino.
Estou hoje triste, de acordar com a garganta doendo não sei como, de acordar febril sei lá pelo quê. De ter prova de alemão daqui há 2 horas e saber tudo sobre können, müssen e o particípio II até dos trennbare verben me soa estranho pela rapidez. Arthur está orgulhoso, Kant bateu palmas, mas Fiódor me pertubou a noite inteira. Só porque em mim nunca houve bondade, e ele dizia " Certamente você tem algum problema, nunca vi alguém ter nobreza e não ter bondade."; eu mo falo sempre. Eu só quero ( como sempre diz a Ly) caminhar sem rasgos nos pés. A certeza de qualquer coisa não traz felicidade, claro, mas a questão não é essa, a questão nunca foi essa.
Estou hoje triste, estou com febre e não entendo. PelamordeDeus, vocês queriam que eu fizesse o quê? Não quero ser a pedra de Drummond e sei que qualquer retirada traz novos caminhos, talvez sem manchas. Eu sempre fui boa com verdades, mas nunca gostei delas. É estranho como não trazem nada de bom. Eu não entendo como só o amor conhece o que é verdade, mas droga!, eu não posso desmentir a carta de Corínthios. Eu não posso fazer nada, estou atada, me rendi. Fui castigada sei lá pelo quê, e bem, não quero que ninguém mais sofra as conseqüências desse castigo. Talvez com isso eu consiga algum perdão, alguma folga, talvez um fígado novo. Talvez mais rasgos pelos pés, não suporto ver ninguém chorar, já nem choro mais. Na verdade, eu nunca soube o que era chorar, nunca me permiti a certas coisas da vida. Será o meu orgulho que fez Jesus ficar tão bravo comigo? Só estou cansada de sair rasgando o destino e ficar tentando puxar o passado, Gatsby morreu por tentar puxar o passado e se eu tiver que morrer de alguma coisa, bem, não vai haver nenhuma novidade quando eu morrer. Eu sinto muito, Mutter. Eu sinto muito, Vater. Eu sinto muito, freunde. Mas todos sabem que caminho dá isso.
A voz canta:
I've waited hours for this
I've made myself so sick
I wish I'd stayed asleep today...
que em nosso ofício, como na vida,
guarda o segredo, o significado mais profundo,
de tudo o que é."
{ Esta história. Baricco}
Estou hoje triste, eu já faço idéia de que isso há muito não é grande coisa, ou grande novidade, mas acordei ao menos. Com o céu mergulhado na baía e nos prédios, todos muito cinzas, daquele cinza branco que me faz sentir em algum livro de Kafka. Estou hoje triste, o céu desistiu de ser cinza-branco-irritante e resolveu ficar de um luto cinza-acinzentado para mim, talvez o céu tenha acordado assim por mim hoje, talvez. O céu acordou assim: chorando, como nunca o vi chorar antes. Pedaços de monóxido de carbono me aguardam por toda a parte, grande reverência ao destino.
Estou hoje triste, de acordar com a garganta doendo não sei como, de acordar febril sei lá pelo quê. De ter prova de alemão daqui há 2 horas e saber tudo sobre können, müssen e o particípio II até dos trennbare verben me soa estranho pela rapidez. Arthur está orgulhoso, Kant bateu palmas, mas Fiódor me pertubou a noite inteira. Só porque em mim nunca houve bondade, e ele dizia " Certamente você tem algum problema, nunca vi alguém ter nobreza e não ter bondade."; eu mo falo sempre. Eu só quero ( como sempre diz a Ly) caminhar sem rasgos nos pés. A certeza de qualquer coisa não traz felicidade, claro, mas a questão não é essa, a questão nunca foi essa.
Estou hoje triste, estou com febre e não entendo. PelamordeDeus, vocês queriam que eu fizesse o quê? Não quero ser a pedra de Drummond e sei que qualquer retirada traz novos caminhos, talvez sem manchas. Eu sempre fui boa com verdades, mas nunca gostei delas. É estranho como não trazem nada de bom. Eu não entendo como só o amor conhece o que é verdade, mas droga!, eu não posso desmentir a carta de Corínthios. Eu não posso fazer nada, estou atada, me rendi. Fui castigada sei lá pelo quê, e bem, não quero que ninguém mais sofra as conseqüências desse castigo. Talvez com isso eu consiga algum perdão, alguma folga, talvez um fígado novo. Talvez mais rasgos pelos pés, não suporto ver ninguém chorar, já nem choro mais. Na verdade, eu nunca soube o que era chorar, nunca me permiti a certas coisas da vida. Será o meu orgulho que fez Jesus ficar tão bravo comigo? Só estou cansada de sair rasgando o destino e ficar tentando puxar o passado, Gatsby morreu por tentar puxar o passado e se eu tiver que morrer de alguma coisa, bem, não vai haver nenhuma novidade quando eu morrer. Eu sinto muito, Mutter. Eu sinto muito, Vater. Eu sinto muito, freunde. Mas todos sabem que caminho dá isso.
A voz canta:
I've waited hours for this
I've made myself so sick
I wish I'd stayed asleep today...
Mittwoch, September 23, 2009
Manchmal träume ich schwer
Eu não entendo como consigo questionar não questionando. De que vale a pergunta se eu não dou a mínima para a resposta? Estou cansada, fim. Nunca vi uma imagem tão plácida do fim, tão simples, tão "só isso, poxa vida?". Eu sonho muito pesado. O mais irônico é que nem é tanta coisa assim, talvez eu seja simples demais e não saiba. Mentira, sei sim e saber nunca foi um diferencial para que eu caminhasse sem fazer questão de dar tropeções por aí. Vê-se alguns pedaços da Ana pelo chão, reconstituídos claro pelo grandiosíssimo-querido-amado Grande Ego. Não andar paralelamente, não aceitar que meu patamar é solitário fez-se criar a ilusão de tudo palpável, de tudo das cores que são. Eu não vejo tudo preto e branco mas vejo de fora. É crueldade demais, não fui eu quem escolhi, droga.
Freitag, September 11, 2009
Com a palavra, o Grande Ego
Ana está brava. Se eu dissesse que ela está triste seria mais cliché, seria mais fácil. Mas ela só está muito brava. Tentei reconhecer os traços de doçura juvenil que todos exaltam nela e não achei, havia muita raiva naquele rosto jovem. E vermelho, de raiva. Ana sempre compactuou com a verdade, por crer que só a verdade liberta, salva. Por aquelas palavras bíblicas que ela ficava repetindo e sorrindo enquanto bebia água, ou lavava a louça, ou acendia um cigarro. Sobre só o amor conhecer o que é a verdade. Se passou longe da verdade era porque não era amor, mas como explicar isso para ela? Desperdício de sentimentos equivale à desperdício de tempo, tempo que usamos para procurar, para preencher, para produzir. E quando tudo o que se produz é raiva, injustiça, tudo toma uma proporção catastrófica e do olhar bovino-esperando-algo migra-se para o olhar de estupefação doentia, e raiva.
Permaneceu com os braços estendidos até que se alcançasse uma infinidade de braços estendidos e talvez todos os braços do mundo estendidos pudessem fazer a diferença. Mas não fizeram. E nem o número de verdades também. Porque você aprendeu com Arthur que o homem mascara pensamentos e não importa o que você diga ou faça porque a realidade é irracional na tentativa do homem provar sua racionalidade. Ana está brava e eu tenho culpa, porque ela nunca vai brilhar mais do que eu. Ela é a pobre-irmã-feia-sem-atributos perto de mim, quem a sauda não a vê, me vê. Ninguém a serve e nem era isso que você queria, não é Ana? Você quis pouco e não foi ouvida, você quis pouco e não recebeu verdades, só amostras de como a realidade não é real. Então, você vai pôr o rosto no sol novamente e esfregar contra o lençol da cama, empurrando o nariz, tentando prender o choro, e adianta? Nunca adiantou. Como aquelas marcas ( você acha que eu esqueci aquelas marcas no braço esquerdo?), que permaneciam e reapareciam por dias a fio, eram apenas para aguentar firme, eu sei. O destino lavrou o seu rosto, como o semblante Almayer, como cerveja entornada no chão com cacos de vidro em volta. E você nunca, nunca vai ter a sua coroa. É um esforço já vão.
Permaneceu com os braços estendidos até que se alcançasse uma infinidade de braços estendidos e talvez todos os braços do mundo estendidos pudessem fazer a diferença. Mas não fizeram. E nem o número de verdades também. Porque você aprendeu com Arthur que o homem mascara pensamentos e não importa o que você diga ou faça porque a realidade é irracional na tentativa do homem provar sua racionalidade. Ana está brava e eu tenho culpa, porque ela nunca vai brilhar mais do que eu. Ela é a pobre-irmã-feia-sem-atributos perto de mim, quem a sauda não a vê, me vê. Ninguém a serve e nem era isso que você queria, não é Ana? Você quis pouco e não foi ouvida, você quis pouco e não recebeu verdades, só amostras de como a realidade não é real. Então, você vai pôr o rosto no sol novamente e esfregar contra o lençol da cama, empurrando o nariz, tentando prender o choro, e adianta? Nunca adiantou. Como aquelas marcas ( você acha que eu esqueci aquelas marcas no braço esquerdo?), que permaneciam e reapareciam por dias a fio, eram apenas para aguentar firme, eu sei. O destino lavrou o seu rosto, como o semblante Almayer, como cerveja entornada no chão com cacos de vidro em volta. E você nunca, nunca vai ter a sua coroa. É um esforço já vão.
Montag, September 07, 2009
Haicais
Também conhecidos como "hai-kais", ficou a vontade do post anterior de postar alguns aqui. No fim da tarde separei alguns sobre o inverno do livro As Quatro Estações, tão lindos:
A mulher abraça
a garrafa de cachaça.
Miserável casaco.
{Jorge Lescano}
O velho casaco
esquecido no cabide.
Frio da ausência.
{ Olinda Marques de Azevedo}
Depois da geada
nas faces do espantalho
lágrimas geladas.
{ Roberto Saito}
Terminado o livro estou pulando para outro do Caio: " Onde andará Dulce Veiga?"; um dos contos de "Triângulo das águas" ( já lido) vale destaque : O Marinheiro. Algo como encharcar as páginas com as lágrimas de tão triste que é. Talvez porque haja muita realidade e não uma realidade brutal-nua-e-crua-se-assustem. É uma realidade de completude, de 'é assim mesmo, velho' e etc. Depois de tantas dicas só me resta desejar boa leitura, eu disse 'boa leitura'. Não é para se aproveitarem de minha loucura por livros e escritores bons e saírem colando frases e trechos que eu posto deles aqui. Obsessão de ser Ana, que coisa.
A mulher abraça
a garrafa de cachaça.
Miserável casaco.
{Jorge Lescano}
O velho casaco
esquecido no cabide.
Frio da ausência.
{ Olinda Marques de Azevedo}
Depois da geada
nas faces do espantalho
lágrimas geladas.
{ Roberto Saito}
Terminado o livro estou pulando para outro do Caio: " Onde andará Dulce Veiga?"; um dos contos de "Triângulo das águas" ( já lido) vale destaque : O Marinheiro. Algo como encharcar as páginas com as lágrimas de tão triste que é. Talvez porque haja muita realidade e não uma realidade brutal-nua-e-crua-se-assustem. É uma realidade de completude, de 'é assim mesmo, velho' e etc. Depois de tantas dicas só me resta desejar boa leitura, eu disse 'boa leitura'. Não é para se aproveitarem de minha loucura por livros e escritores bons e saírem colando frases e trechos que eu posto deles aqui. Obsessão de ser Ana, que coisa.
Sonntag, September 06, 2009
Novos chuchuzinhos da Ana
Grüss Gott, estou com um dos joelhos estourado por um porre homérico de Heineken ontem. Tudo muito vergonhoso, ressaca moral, a cabeça parece que vai explodir e como diria o Igor: " dignidade, cadê-la?". Also, also... Deixo aqui a foto dos meus dois chuchuzinhos-bilú-bilú-gutchi-gutchi-má-que-coisa-linda:

A capa do Blaue Blume me lembra um clipe do Sigur Rós o qual nem lembro o nome, algo sobre dois meninos homossexuais que se beijam bem no meio do campo de futebol, o pai de um deles sai puxando o filho mega-machão-revoltado-humilhado-perante-a-sociedade, rs. Bonito. Diga-se de passagem que foi presente do Victor (que também atende pela alcunha de meu namorado, rs), os olhos se tornaram duas Vênus quando o vi tirar da mochila o exemplar, que veio de Goiás e demorou quase um mês para chegar. Que vergonha, pleno Rio de Janeiro e ter que importar livro de Goiás ( sem bairrismos, palavra). O Langenscheidt eu ganhei de mutter, tão fofa parcelando em 75 vezes no cartão, ele teve que ser benzido, claro ( aonde vou o olho gordo em cima do pequeno-grande-amarelinho é forte, rs).
Outra coisa: hai-kais, nossa, poemas japoneses sobre a natureza, sabe? A tia-vó da Marina, Fanny Dupré, escrevia e nossa fui dar uma olhadinha em As quatro estações e, que bonito! Simples descrição de alguma estação do ano na visão de cada um, um chuchu. O Ricardo, also, me emprestou um do Millôr ( depois de eu ter batido pezinho e puxado a barba dele dizendo: trouxe? trouxe?). Então, o livro tem ilustrações e tudo bonitinho, mas falta leveza. Não sou mais adepta da cara de pau ( quer enganar a quem, Ana? - Grande Ego berra aqui), e nem das literaturas beatniks, ainda mais depois que todo mundo virou Bukowski e sabe de tudo do monóxido de carbono, bah, gente intrometida que quer a qualquer custo virar blogueiro-quase-escritor-mega-badalado, mania de comentar as vergonhas alheias, humpf. Enfim, o joelho continua doendo mas o sol com chuva e neblinas lá fora tá bonito demais, ainda bem que estou sóbria ( é milagre, é milagre!).

A capa do Blaue Blume me lembra um clipe do Sigur Rós o qual nem lembro o nome, algo sobre dois meninos homossexuais que se beijam bem no meio do campo de futebol, o pai de um deles sai puxando o filho mega-machão-revoltado-humilhado-perante-a-sociedade, rs. Bonito. Diga-se de passagem que foi presente do Victor (que também atende pela alcunha de meu namorado, rs), os olhos se tornaram duas Vênus quando o vi tirar da mochila o exemplar, que veio de Goiás e demorou quase um mês para chegar. Que vergonha, pleno Rio de Janeiro e ter que importar livro de Goiás ( sem bairrismos, palavra). O Langenscheidt eu ganhei de mutter, tão fofa parcelando em 75 vezes no cartão, ele teve que ser benzido, claro ( aonde vou o olho gordo em cima do pequeno-grande-amarelinho é forte, rs).
Outra coisa: hai-kais, nossa, poemas japoneses sobre a natureza, sabe? A tia-vó da Marina, Fanny Dupré, escrevia e nossa fui dar uma olhadinha em As quatro estações e, que bonito! Simples descrição de alguma estação do ano na visão de cada um, um chuchu. O Ricardo, also, me emprestou um do Millôr ( depois de eu ter batido pezinho e puxado a barba dele dizendo: trouxe? trouxe?). Então, o livro tem ilustrações e tudo bonitinho, mas falta leveza. Não sou mais adepta da cara de pau ( quer enganar a quem, Ana? - Grande Ego berra aqui), e nem das literaturas beatniks, ainda mais depois que todo mundo virou Bukowski e sabe de tudo do monóxido de carbono, bah, gente intrometida que quer a qualquer custo virar blogueiro-quase-escritor-mega-badalado, mania de comentar as vergonhas alheias, humpf. Enfim, o joelho continua doendo mas o sol com chuva e neblinas lá fora tá bonito demais, ainda bem que estou sóbria ( é milagre, é milagre!).
Donnerstag, August 27, 2009
Black holes and revelations
"Foi assim que vocês todos morreram antes do tempo.
Foi assim que eu não morri."
{ Triângulo das águas; C. F. Abreu}
Ontem foi domingo, dia de missa. Puxei mamãe até a igreja e o altar estava em obra. Queria tirar o peso de sabe-se-que-lá cavou o último buraco em mim, se era buraco ao menos devia haver leveza.
Ontem foi domingo, dia de missa. Guardei o blush e o lápis de olho com um terrível medo cristão de que isso fosse se somar aos meus pecados. O bispo deu um sermão que eu não compreendi, mentira, até compreendi mas toda a virtude ricocheteava vã em algum lugar de mim ou passava direto.
Ontem foi domingo, dia de missa. E o corpo de Cristo foi oferecido aos fiéis, eu não o quis. De repente tudo pareceu muito mecânico, eu estava vazia e queria ver aquela imagem de Jesus crucificado que havia atrás das cortinas de obra. Eu queria me lembrar de como eram todos os estigmas e o rosto firme, cheio de abnegação e amor; queria também me lembrar do que vinha antes do martírio.
Ontem foi domingo, dia de missa. O que vem antes são as palavras e quando me dei conta os olhos lacrimejaram, e eu esqueci o meu nome. O bispo me olhou - " um homem que me olha e não me mata"¹ - , bem na hora em que o coro dizia: " Mas diz uma palavra e serei salvo". Eu recebi tantos pecados e distribui tantos perdões que resolvi reproduzir pecados e deixar o perdão para o rapaz com os braços pregados na cruz.
Ontem foi quarta e não domingo. Eu sou um ser humano e burlo todos os mandamentos divinos. O tempo agora pára nos espaços de hora em que se dão os surtos de lucidez. À minha frente um homem que reza a missa, " que me olha e não me mata", a última coisa entre as coisas boas que um dia ofereci me matou antes. " O amor é bom, não quer o mal, não sente inveja ou se envaidece..."; onde foi que desbotou então? " Um homem que me olha e não me mata", e um sol loiro, gotejante. Lá fora, invadindo a sala.
¹: Trecho de "Oceano Mar", Baricco.
Foi assim que eu não morri."
{ Triângulo das águas; C. F. Abreu}
Ontem foi domingo, dia de missa. Puxei mamãe até a igreja e o altar estava em obra. Queria tirar o peso de sabe-se-que-lá cavou o último buraco em mim, se era buraco ao menos devia haver leveza.
Ontem foi domingo, dia de missa. Guardei o blush e o lápis de olho com um terrível medo cristão de que isso fosse se somar aos meus pecados. O bispo deu um sermão que eu não compreendi, mentira, até compreendi mas toda a virtude ricocheteava vã em algum lugar de mim ou passava direto.
Ontem foi domingo, dia de missa. E o corpo de Cristo foi oferecido aos fiéis, eu não o quis. De repente tudo pareceu muito mecânico, eu estava vazia e queria ver aquela imagem de Jesus crucificado que havia atrás das cortinas de obra. Eu queria me lembrar de como eram todos os estigmas e o rosto firme, cheio de abnegação e amor; queria também me lembrar do que vinha antes do martírio.
Ontem foi domingo, dia de missa. O que vem antes são as palavras e quando me dei conta os olhos lacrimejaram, e eu esqueci o meu nome. O bispo me olhou - " um homem que me olha e não me mata"¹ - , bem na hora em que o coro dizia: " Mas diz uma palavra e serei salvo". Eu recebi tantos pecados e distribui tantos perdões que resolvi reproduzir pecados e deixar o perdão para o rapaz com os braços pregados na cruz.
Ontem foi quarta e não domingo. Eu sou um ser humano e burlo todos os mandamentos divinos. O tempo agora pára nos espaços de hora em que se dão os surtos de lucidez. À minha frente um homem que reza a missa, " que me olha e não me mata", a última coisa entre as coisas boas que um dia ofereci me matou antes. " O amor é bom, não quer o mal, não sente inveja ou se envaidece..."; onde foi que desbotou então? " Um homem que me olha e não me mata", e um sol loiro, gotejante. Lá fora, invadindo a sala.
¹: Trecho de "Oceano Mar", Baricco.
Samstag, August 22, 2009
O verdadeiro fantoche
Texto em homenagem à Edu Levy, grande escritor a quem devo metade ( ou mais) do meu acervo cultural.
Diante de grandes reportagens acerca do vício em internet me veio à tona a verdade pura e simples: ela é apenas uma ferramenta a qual usamos a bel-prazer. Ao contrário de toda a paranóia em que há a confirmação de que ficamos bitolados e até mesmo de que somos controlados pelos meios de comunicação, o fato é totalmente reverso. O vício está completamente presente, no entanto, ele começa com uma simples necessidade de auto-afirmação online, meios em que colocamos fotos nossas que não são nossas, compartilhamos gostos que nem ao menos conhecemos e mantemos vínculos superficiais com pessoas as quais falamos menos que Grüβ Gott!.
Quanto ao caso das fotos, isso já está em níveis de cara de pau. Meninas à beira da obesidade se tornam musas malhadas, quase um corpo esculpido na época da Roma antiga. Quando vemos a versão real, alguma coisa cai em nós - e os homens sabem exatamente do que estou falando, com o perdão da piada-. Com os gostos pessoais então a situação é gritante, se metade das pessoas escutassem Sigur Rós ou Pavement como vejo pelos perfis orkutianos, eu garanto, essas bandas já teriam se apresentado no Citibank Hall ( com o NX Zero fazendo a abertura, digno!).
Sabe-se que isso tudo vai muito além da auto-projeção perfeita de meros mortais flagelados pelo bullying ou pela falta de uma dieta decente. Já vi pessoas fantásticas terem a sua moral e dignidade enlameadas por pura fofoca e má interpretação, e pior, por pessoas que desconhecem qualquer nível de qualidade adjetiva. Outra: já fui endeusada e também tive minha existência questionada; aliás, uns meses atrás fui dada como morta pelo orkut, até meus amigos reais creram em tal fato.
Entretanto, o melhor de tudo são os recalcados com os antigos relacionamentos. Esses rendem risos durante pelo menos o resto da semana ( experiência própria). Aliás, melhores amigos, cuidado!, agora com o orkut não cabem mais a vocês brincarem de disse-me-disse. Quer chamar a atenção do(a) ex? É so atualizar seu profile! E ainda pode escolher se vai xingar, reclamar, dizer quantas vezes o cretino broxou, ou ainda, você pode fingir que amadureceu com o fim do relacionamento e pagar de intelectual com alguma frase do Pessoa. Ou tirar fotos com um amigo gay e trocar o status para commited, "estamos muito felizes, ele me traz bombons todos os dias, danke schön!". Como se pudessem escolher uma Julieta, uma Beatriz; já dizia Cortázar. Defitivamente, nós somos os ventrílocos.
Diante de grandes reportagens acerca do vício em internet me veio à tona a verdade pura e simples: ela é apenas uma ferramenta a qual usamos a bel-prazer. Ao contrário de toda a paranóia em que há a confirmação de que ficamos bitolados e até mesmo de que somos controlados pelos meios de comunicação, o fato é totalmente reverso. O vício está completamente presente, no entanto, ele começa com uma simples necessidade de auto-afirmação online, meios em que colocamos fotos nossas que não são nossas, compartilhamos gostos que nem ao menos conhecemos e mantemos vínculos superficiais com pessoas as quais falamos menos que Grüβ Gott!.
Quanto ao caso das fotos, isso já está em níveis de cara de pau. Meninas à beira da obesidade se tornam musas malhadas, quase um corpo esculpido na época da Roma antiga. Quando vemos a versão real, alguma coisa cai em nós - e os homens sabem exatamente do que estou falando, com o perdão da piada-. Com os gostos pessoais então a situação é gritante, se metade das pessoas escutassem Sigur Rós ou Pavement como vejo pelos perfis orkutianos, eu garanto, essas bandas já teriam se apresentado no Citibank Hall ( com o NX Zero fazendo a abertura, digno!).
Sabe-se que isso tudo vai muito além da auto-projeção perfeita de meros mortais flagelados pelo bullying ou pela falta de uma dieta decente. Já vi pessoas fantásticas terem a sua moral e dignidade enlameadas por pura fofoca e má interpretação, e pior, por pessoas que desconhecem qualquer nível de qualidade adjetiva. Outra: já fui endeusada e também tive minha existência questionada; aliás, uns meses atrás fui dada como morta pelo orkut, até meus amigos reais creram em tal fato.
Entretanto, o melhor de tudo são os recalcados com os antigos relacionamentos. Esses rendem risos durante pelo menos o resto da semana ( experiência própria). Aliás, melhores amigos, cuidado!, agora com o orkut não cabem mais a vocês brincarem de disse-me-disse. Quer chamar a atenção do(a) ex? É so atualizar seu profile! E ainda pode escolher se vai xingar, reclamar, dizer quantas vezes o cretino broxou, ou ainda, você pode fingir que amadureceu com o fim do relacionamento e pagar de intelectual com alguma frase do Pessoa. Ou tirar fotos com um amigo gay e trocar o status para commited, "estamos muito felizes, ele me traz bombons todos os dias, danke schön!". Como se pudessem escolher uma Julieta, uma Beatriz; já dizia Cortázar. Defitivamente, nós somos os ventrílocos.
Samstag, August 15, 2009
Müdigkeit
Em homenagem à aula de alemão daqui a pouco, deixo a versão "cansaço" deutschliana para vocês. Passei o mês inteiro falando, olhando e contando navios. Só porque o Dood disse que eles são os olhos do mar, e a associação que eu fiz com um poema do Maiakóvski sobre "as maçãs do rosto do oceano" fez muito sentido. Complementando tinha um enorme sol loiro fazendo uma passarela sépia no meio no mar. Eu concluí que aquilo seria a sua silhueta.
A vida tem cheirado mal e perdeu o sabor. Sabe-se lá pelo quê eu não consigo mais assimilar nada em minha volta que não seja café, álcool, cigarros. E quando acabo de utilizar estes entro em estado de desespero do tipo "só isso?", a vida devia ter algo mais a oferecer, mas não tem. É claro que tem ( minha voz católica sopra aqui ao lado), é uma questão - antes de tudo- de abnegação. Aquela coisa toda do amor pobre, da hybris nunca bem vinda e de ser muito mais fácil ser um santo do que ser um humano. Há um humano querendo gritar dentro de mim, aliás, muitos humanos gritam dentro de mim... No entanto, voltar arrasada por ser espancada por uma multidão é complicado, ainda, os cortes e hematomas mal aparecem, se perdem em algum lugar do corpo e depois formam uma hemorragia ou um câncer. Voltam em forma de Wort ( palavra) e acaba fuzilando outro humano, que mais tarde soma-se aos outros gritando dentro de mim. Último gole no café ( muito aguado por sinal). Auf Wiedersehen.
A vida tem cheirado mal e perdeu o sabor. Sabe-se lá pelo quê eu não consigo mais assimilar nada em minha volta que não seja café, álcool, cigarros. E quando acabo de utilizar estes entro em estado de desespero do tipo "só isso?", a vida devia ter algo mais a oferecer, mas não tem. É claro que tem ( minha voz católica sopra aqui ao lado), é uma questão - antes de tudo- de abnegação. Aquela coisa toda do amor pobre, da hybris nunca bem vinda e de ser muito mais fácil ser um santo do que ser um humano. Há um humano querendo gritar dentro de mim, aliás, muitos humanos gritam dentro de mim... No entanto, voltar arrasada por ser espancada por uma multidão é complicado, ainda, os cortes e hematomas mal aparecem, se perdem em algum lugar do corpo e depois formam uma hemorragia ou um câncer. Voltam em forma de Wort ( palavra) e acaba fuzilando outro humano, que mais tarde soma-se aos outros gritando dentro de mim. Último gole no café ( muito aguado por sinal). Auf Wiedersehen.
Samstag, August 01, 2009
Atrás
" Meu Deus, mas como você me dói de vez em quando!"
C. F. Abreu
A diferença não estava mais em entrar no ônibus ou não, avisar ou não, São Paulo ou Curitiba, delineador ou lápis de olho. Os olhos iam terminar inundados de qualquer forma, assim como iria também inundar algo dentro de si, e ela nem sabia bem o que era. Inundou tanto que ela teve que tirar as sandálias e esfregar as plantas dos pés em cada paralelepípedo da rua. Contou as linhas da faixa de pedestre e se perguntou por que o pôr-do-sol era tão mais bonito lá. Era lá que ele estava e ele ficou com tudo, não foi? Ficou com a calma, com o pôr-do-sol e o cheiro de algo que continha vida. Você teve que se conformar com o vapor do monóxido de carbono que queimava as suas narinas, assim como o seu cigarro. Só restou isso e uma enorme expressão nauseada diante do mundo e você nunca ao menos se envergonhou disso.
Talvez por isso você tenha tomado o expresso de um gole só, talvez por isso você queria chorar pelas ruas, pela beleza e não pelo encontro. E você nem o sacudiu ou esbofeteou. Nem abraçou. Você não queria se levantar daquele banquinho tão banquinho, tão branquinho. Era muito feio tudo aquilo, mas ficou bonito porque ele chorou, ele sempre chorou, sua boba. O finalmente abraço foi de tão perfeito encaixe que a natureza tratou de tirar uma foto, vocês deviam tanto uma foto à natureza... Vocês também deviam uma união à ela. E tudo ficou num tatear de mãos pelo rosto, pelo pescoço, pelas nádegas e pernas.
Ficou a certeza drástica do amor, não pelas fantasias mas pelas certezas. Numa linha tênue e paradoxal temos uma visão microscópica de algo sensível, palpável e nunca mutável. E ainda a telescopia de ver muito longe - mas ainda assim enxergando com firmeza - aquilo que realmente é. Sem devaneios ou palpites. Assim ela mordia o alto de seu ombro, não como um gesto amoroso, mas como tentativa de levar aquele pedaço de carne dura consigo, como um belo souvenir. E essa carne tinha gosto de tecido mal passado, salgado ( pelas lágrimas que caíam em cima) e de chegada. Ela queria gritar " covarde!", mas as lágrimas nem demoraram assim como o rancor. Um sorriso, muitos beijos, um perdão de cada lado e certezas, finalmente certezas! Eles sentaram-se sobre o paralelepípedo esperando que um caminhão os atravessasse. Não era morte mórbida, era descobrimento da vida, e de coisas feias que nela também haviam: mentira, desilusão, desamor. Mas nada disso lhes pertencia e esse foi o motivo da morte. Já chegaram ao final da busca, não só isso: morderiam-se, colariam-se em um interminável abraço, copulariam como quadrúpedes e morreriam.
- Chegamos ao fim, meu bem.
- Agora sim.
C. F. Abreu
A diferença não estava mais em entrar no ônibus ou não, avisar ou não, São Paulo ou Curitiba, delineador ou lápis de olho. Os olhos iam terminar inundados de qualquer forma, assim como iria também inundar algo dentro de si, e ela nem sabia bem o que era. Inundou tanto que ela teve que tirar as sandálias e esfregar as plantas dos pés em cada paralelepípedo da rua. Contou as linhas da faixa de pedestre e se perguntou por que o pôr-do-sol era tão mais bonito lá. Era lá que ele estava e ele ficou com tudo, não foi? Ficou com a calma, com o pôr-do-sol e o cheiro de algo que continha vida. Você teve que se conformar com o vapor do monóxido de carbono que queimava as suas narinas, assim como o seu cigarro. Só restou isso e uma enorme expressão nauseada diante do mundo e você nunca ao menos se envergonhou disso.
Talvez por isso você tenha tomado o expresso de um gole só, talvez por isso você queria chorar pelas ruas, pela beleza e não pelo encontro. E você nem o sacudiu ou esbofeteou. Nem abraçou. Você não queria se levantar daquele banquinho tão banquinho, tão branquinho. Era muito feio tudo aquilo, mas ficou bonito porque ele chorou, ele sempre chorou, sua boba. O finalmente abraço foi de tão perfeito encaixe que a natureza tratou de tirar uma foto, vocês deviam tanto uma foto à natureza... Vocês também deviam uma união à ela. E tudo ficou num tatear de mãos pelo rosto, pelo pescoço, pelas nádegas e pernas.
Ficou a certeza drástica do amor, não pelas fantasias mas pelas certezas. Numa linha tênue e paradoxal temos uma visão microscópica de algo sensível, palpável e nunca mutável. E ainda a telescopia de ver muito longe - mas ainda assim enxergando com firmeza - aquilo que realmente é. Sem devaneios ou palpites. Assim ela mordia o alto de seu ombro, não como um gesto amoroso, mas como tentativa de levar aquele pedaço de carne dura consigo, como um belo souvenir. E essa carne tinha gosto de tecido mal passado, salgado ( pelas lágrimas que caíam em cima) e de chegada. Ela queria gritar " covarde!", mas as lágrimas nem demoraram assim como o rancor. Um sorriso, muitos beijos, um perdão de cada lado e certezas, finalmente certezas! Eles sentaram-se sobre o paralelepípedo esperando que um caminhão os atravessasse. Não era morte mórbida, era descobrimento da vida, e de coisas feias que nela também haviam: mentira, desilusão, desamor. Mas nada disso lhes pertencia e esse foi o motivo da morte. Já chegaram ao final da busca, não só isso: morderiam-se, colariam-se em um interminável abraço, copulariam como quadrúpedes e morreriam.
- Chegamos ao fim, meu bem.
- Agora sim.
Mittwoch, Juli 29, 2009
Palmas à Cortázar!
Porque de longe é possível almejar, querer e até tentar trazer para si, mas nunca criar, remendar os maltrapilhos restos humanos e torná-los uma Julieta, uma Beatriz. E o mais fofurinha é que a Julieta dos dias de hoje é uma Atália, uma Maga. Ótimo, posso tirar meu espartilho.
Freitag, Juli 17, 2009
Deu até pena
Jogar frases ao nada como se essas pudessem salvar algo. Como se falar e falar fosse transformar o passado, o que já se foi, em algo que foi realmente importante. Mas não foi. E toda tentativa de tornar isso num encontro-desencontro bonito, cheio de romantismo e amor verdadeiro já caiu por água, aliás, nunca o foi.
A-m-o-r, como se em alguma parte disso houvesse existido, e nem é que não exista, é que não teve e você não se conforma. O pior das pessoas é que elas tentam associar sexo-palavras-bonitas a amor. Tem burrice maior do que essa? Tem, e acreditem, isso envolve soletrar meu nome.
A-m-o-r, como se em alguma parte disso houvesse existido, e nem é que não exista, é que não teve e você não se conforma. O pior das pessoas é que elas tentam associar sexo-palavras-bonitas a amor. Tem burrice maior do que essa? Tem, e acreditem, isso envolve soletrar meu nome.
Mittwoch, Juli 08, 2009
Hybris
"Diazepam (that's valium);
Tamazepam... lithium,
...hrt, ect
how long must I stay on this stuff?"
( Something is squeezing my skull - Morrissey)
Em grego a significação fica em torno de excesso, desmedida. Uma das características humanas que eram severamente punidas pelos deuses: Aracne foi punida por Palas Atena por sua soberba, Sísifo pagou no Hades por suas desmedidas em vida. Mas houve aqueles que pagaram muito além do que deviam, aliás do que não deviam. O que percebe-se é que os soberbos pagaram muito aquém do que os altruístas pagaram. Édipo usou-se da razão, desvendou a esfinge e terminou em estado de desgraça inegualável. O sofrimento chegou a tal estado de loucura que arrancou os colchetes do vestido de sua mãe suicida e furou os próprios olhos. A mãe que outrora havia fecundado sem saber que era sua genitora.
Os antigos nos fazem reavaliar os próprios valores, pois se a soberba é punida, mas nem tanto assim e, a racionalidade e altruísmo nos arrastam nos caminhos de mártir, qual bem a graça de ter o mínimo de caráter? Agora compreendo amplamente como seres se desfazem da dignidade como se fosse até um estigma, uma vergonha. Porque ela não leva a nada para quem não compreende o mérito que se tem. Ninguém compreendeu Jesus Cristo quando ele se atirou aos romanos e se deixou ser crucificado. Ninguém decerto aprovou o facto de Aquiles ter preferido ter uma vida curta, seguida da "bela morte" através do combate singular para que se alcançasse finalmente a kléos (honra eterna após a morte).
Porque sempre é melhor doar um amor mais pobre. Desvendar e sentir complexidades nunca foi o forte do ser humano, quer dizer, ele é dotado de complexidade mas não sabe. Basta saber da cadeia de DNA e tantas enzimas, isso é o suficiente. E realmente não precisa ser nada que remeta à calma, é só algo que não faça sacudir os ânimos, berrar com os olhos cheios ou rasgar um sorriso no rosto de maneira que ele não queira sair, e nem saber da onde veio o sorriso. Não se pode mexer com as emoções, não é para isso que elas servem mais. Daí caímos no excesso, louvamos Dioníso, damos um pontapé em Sísifo e agarramos a rocha que ele empurrava. Com tanta vontade e coragem de que vamos fazê-la fincar no alto que chega a causar pena. Tolos, pensamos em todo mártir com resignação, respeito. Nós somos eles, todos.
Tamazepam... lithium,
...hrt, ect
how long must I stay on this stuff?"
( Something is squeezing my skull - Morrissey)
Em grego a significação fica em torno de excesso, desmedida. Uma das características humanas que eram severamente punidas pelos deuses: Aracne foi punida por Palas Atena por sua soberba, Sísifo pagou no Hades por suas desmedidas em vida. Mas houve aqueles que pagaram muito além do que deviam, aliás do que não deviam. O que percebe-se é que os soberbos pagaram muito aquém do que os altruístas pagaram. Édipo usou-se da razão, desvendou a esfinge e terminou em estado de desgraça inegualável. O sofrimento chegou a tal estado de loucura que arrancou os colchetes do vestido de sua mãe suicida e furou os próprios olhos. A mãe que outrora havia fecundado sem saber que era sua genitora.
Os antigos nos fazem reavaliar os próprios valores, pois se a soberba é punida, mas nem tanto assim e, a racionalidade e altruísmo nos arrastam nos caminhos de mártir, qual bem a graça de ter o mínimo de caráter? Agora compreendo amplamente como seres se desfazem da dignidade como se fosse até um estigma, uma vergonha. Porque ela não leva a nada para quem não compreende o mérito que se tem. Ninguém compreendeu Jesus Cristo quando ele se atirou aos romanos e se deixou ser crucificado. Ninguém decerto aprovou o facto de Aquiles ter preferido ter uma vida curta, seguida da "bela morte" através do combate singular para que se alcançasse finalmente a kléos (honra eterna após a morte).
Porque sempre é melhor doar um amor mais pobre. Desvendar e sentir complexidades nunca foi o forte do ser humano, quer dizer, ele é dotado de complexidade mas não sabe. Basta saber da cadeia de DNA e tantas enzimas, isso é o suficiente. E realmente não precisa ser nada que remeta à calma, é só algo que não faça sacudir os ânimos, berrar com os olhos cheios ou rasgar um sorriso no rosto de maneira que ele não queira sair, e nem saber da onde veio o sorriso. Não se pode mexer com as emoções, não é para isso que elas servem mais. Daí caímos no excesso, louvamos Dioníso, damos um pontapé em Sísifo e agarramos a rocha que ele empurrava. Com tanta vontade e coragem de que vamos fazê-la fincar no alto que chega a causar pena. Tolos, pensamos em todo mártir com resignação, respeito. Nós somos eles, todos.
Dienstag, Juni 30, 2009
Você
Você já acorda com a face banhada em pranto, e fica ora olhando as pernas compridas e magras, ora a janela. E você olha tão densamente a paisagem que acaba por se tornar uma, todos ficam encabulados e sem entender bem o que se passa, como alguém pode manter por tanto tempo esse olhar raso.
Você fecha os dedos no ar para tentar sentir as imagens e termina assustada, amuada e acusada de loucura. Ninguém consegue compreender que realmente não faz sentido e que é preciso tocar para que não se sinta enganado pela vida. Mas é miragem, você chora e quando se comovem trata logo de abrir duas covinhas no rosto cor-de-leite.
Você costumava ser feliz e viver a vida, tão-somente vida, sem mistificação. Você costumava perdoar, você costumava chorar. Você costumava se importar também e enxergar. Você costumava até sorrir, mas não era como um reflexo, era verdadeiro. Eu não sou mais você, porque afinal de contas "eu" ou "você" é quem está com a palavra e permaneço muda. Cega e surda, porque as imagens e sons distorcidos, irreais e controlados pelo Grande Ego também são uma invalidez. Cega, surda, louca, chorosa. Você. Permaneço muda.
Você fecha os dedos no ar para tentar sentir as imagens e termina assustada, amuada e acusada de loucura. Ninguém consegue compreender que realmente não faz sentido e que é preciso tocar para que não se sinta enganado pela vida. Mas é miragem, você chora e quando se comovem trata logo de abrir duas covinhas no rosto cor-de-leite.
Você costumava ser feliz e viver a vida, tão-somente vida, sem mistificação. Você costumava perdoar, você costumava chorar. Você costumava se importar também e enxergar. Você costumava até sorrir, mas não era como um reflexo, era verdadeiro. Eu não sou mais você, porque afinal de contas "eu" ou "você" é quem está com a palavra e permaneço muda. Cega e surda, porque as imagens e sons distorcidos, irreais e controlados pelo Grande Ego também são uma invalidez. Cega, surda, louca, chorosa. Você. Permaneço muda.
Montag, Juni 29, 2009
Sonntag, Juni 28, 2009
Mutter II
"Mas Jesus me fez, então
Jesus me salve da pena, da compaixão
E das pessoas comentando sobre mim"
( November spawned a monster - Morrissey)
"Olá, mamãe?", foi o que tentei dizer forçando um sorriso, com os pequeninos lábios ainda cobertos de batom e com os cantos feridos pelas bofetadas, mamãe. E quando levei os dedos à boca para secar as gotículas de sangue, pude notar que meus braços outrora tão brancos estavam com grossos ematomas roxos que poderiam ter sido evitados, mas você mal me olhou no rosto, mamãe... Pegou-me pelos braços e as palavras e vírgulas eram na verdade tapas e esmurros, e então eu caí de joelhos, mamãe.E tudo isso contrastando com meu vestido florido já amassado da noite, o sutiã preto rendado por debaixo e o delineador escorrendo me fez ficar triste, te fez ficar triste e todos choramos juntos.
Mas por que seus braços me sacodem desse jeito, mamãe? Pare. Eu não estou entendendo muito bem todas as coisas: dos objetos à seu rosto inflamado de fúria; e não sei se é resquício do whisky barato ou se o mundo agora parece confuso com seus gritos. Eu não queria mamãe, mas não sei muito bem o que não queria, pois não me vem à memória nada de tão vergonhoso ou errado. Ah mamãe...! Vem, assim... Não precisa chorar, eu sei que você não queria, eu sei. Ninguém tem culpa: eu não tenho, você não tem, muito menos Deus... Você sabe que se eu pudesse eu nasceria novamente, mamãe. Roupas decentes, nenhuma tatuagem, fígado e pulmão intactos; eu o faria por você... juro que faria. No entanto, isso seria retroceder e quando voltamos ao passado ele sempre nos esmaga, e eu prefiro sempre a forma mais lenta para decair, mamãe.
Eu lhe dei tudo, mamãe. Sei que não foi nada, porque tudo que há em mim fica para mim e só Deus sabe o quanto é bom eu guardar o que é meu só para mim. Pois isso explica de maneira óbvia porque você não me quer tanto assim. Você algum dia quis? Algum dia... você... poderia?
Jesus me salve da pena, da compaixão
E das pessoas comentando sobre mim"
( November spawned a monster - Morrissey)
"Olá, mamãe?", foi o que tentei dizer forçando um sorriso, com os pequeninos lábios ainda cobertos de batom e com os cantos feridos pelas bofetadas, mamãe. E quando levei os dedos à boca para secar as gotículas de sangue, pude notar que meus braços outrora tão brancos estavam com grossos ematomas roxos que poderiam ter sido evitados, mas você mal me olhou no rosto, mamãe... Pegou-me pelos braços e as palavras e vírgulas eram na verdade tapas e esmurros, e então eu caí de joelhos, mamãe.E tudo isso contrastando com meu vestido florido já amassado da noite, o sutiã preto rendado por debaixo e o delineador escorrendo me fez ficar triste, te fez ficar triste e todos choramos juntos.
Mas por que seus braços me sacodem desse jeito, mamãe? Pare. Eu não estou entendendo muito bem todas as coisas: dos objetos à seu rosto inflamado de fúria; e não sei se é resquício do whisky barato ou se o mundo agora parece confuso com seus gritos. Eu não queria mamãe, mas não sei muito bem o que não queria, pois não me vem à memória nada de tão vergonhoso ou errado. Ah mamãe...! Vem, assim... Não precisa chorar, eu sei que você não queria, eu sei. Ninguém tem culpa: eu não tenho, você não tem, muito menos Deus... Você sabe que se eu pudesse eu nasceria novamente, mamãe. Roupas decentes, nenhuma tatuagem, fígado e pulmão intactos; eu o faria por você... juro que faria. No entanto, isso seria retroceder e quando voltamos ao passado ele sempre nos esmaga, e eu prefiro sempre a forma mais lenta para decair, mamãe.
Eu lhe dei tudo, mamãe. Sei que não foi nada, porque tudo que há em mim fica para mim e só Deus sabe o quanto é bom eu guardar o que é meu só para mim. Pois isso explica de maneira óbvia porque você não me quer tanto assim. Você algum dia quis? Algum dia... você... poderia?
Montag, Juni 22, 2009
Com o perdão dos clichés
"Manchei o mapa quotidiano
jogando-lhe a tinta de um frasco
e mostrei oblíquas num prato as maçãs do rosto do oceano."
{ Maiakóvski}
Somos pedaços do que um dia iríamos ser. Nietzsche tinha razão em considerar a tragédia uma imitação perfeita da vida, que seria irreversivelmente descontínua. Por isso bradamos com os olhos cheios d'água ao ver uma cena de teatro com aforismos. É exigir demais do nosso organismo emocional essa expansão de sentimentos já tão mortos, mortos? Não... desgostosos mesmo. Quando um alimento sem gosto rola pela boca, cuspimos ou engolimos. E nem conotem de forma positiva: não é a pressa de se livrar, é que não faz mais nada então, rejeitado ele some.
Somos partículas de nada. Me pego, me olho. Grito meu nome. Falo com os transeuntes. Falo mais de uma vez. É como se carne, olhos e voz não fossem nada. É como o mito da raça de ouro de Hesíodo¹ : morremos fartos de dias e mesmo assim continuamos vagando como belos fantasmas. É como arrogância, que migrou para o egocentrismo, que migrou para uma indiferença doce mas ainda assim indiferença.
Esperei demais de mim e superei. Agora nada posso pedir de vocês, o que eu poderia? Já me dei tudo, já fui tudo, já me basto. Uma criancinha balança os gordos bracinhos para o pai: já sei o que me falta, mas perdeu o gosto, enrolou na boca, desceu direto e entupiu o coração.
¹ ver " Os trabalhos e os dias" Hesíodo.
jogando-lhe a tinta de um frasco
e mostrei oblíquas num prato as maçãs do rosto do oceano."
{ Maiakóvski}
Somos pedaços do que um dia iríamos ser. Nietzsche tinha razão em considerar a tragédia uma imitação perfeita da vida, que seria irreversivelmente descontínua. Por isso bradamos com os olhos cheios d'água ao ver uma cena de teatro com aforismos. É exigir demais do nosso organismo emocional essa expansão de sentimentos já tão mortos, mortos? Não... desgostosos mesmo. Quando um alimento sem gosto rola pela boca, cuspimos ou engolimos. E nem conotem de forma positiva: não é a pressa de se livrar, é que não faz mais nada então, rejeitado ele some.
Somos partículas de nada. Me pego, me olho. Grito meu nome. Falo com os transeuntes. Falo mais de uma vez. É como se carne, olhos e voz não fossem nada. É como o mito da raça de ouro de Hesíodo¹ : morremos fartos de dias e mesmo assim continuamos vagando como belos fantasmas. É como arrogância, que migrou para o egocentrismo, que migrou para uma indiferença doce mas ainda assim indiferença.
Esperei demais de mim e superei. Agora nada posso pedir de vocês, o que eu poderia? Já me dei tudo, já fui tudo, já me basto. Uma criancinha balança os gordos bracinhos para o pai: já sei o que me falta, mas perdeu o gosto, enrolou na boca, desceu direto e entupiu o coração.
¹ ver " Os trabalhos e os dias" Hesíodo.
Montag, Juni 15, 2009
Semi-ótica
- Eu te amo.
- Oi?
- Foi bom ter te encontrado.
- Quê?
- Você é linda...
- Oi?
- Eu me casaria com você.
- Quê?
- Eu tenho um problema...
[trago no cigarro]
- Oi?
- Eu tenho um problema.
- Quê?
- Eu-tenho-um-problema!
- Ah, meu bem...
- Oi?
- Foi bom ter te encontrado.
- Quê?
- Você é linda...
- Oi?
- Eu me casaria com você.
- Quê?
- Eu tenho um problema...
[trago no cigarro]
- Oi?
- Eu tenho um problema.
- Quê?
- Eu-tenho-um-problema!
- Ah, meu bem...
Dienstag, Juni 02, 2009
Mutter
É mamãe, você esperava bem mais. Porque nove meses e um peso de três quilos foram coisas demais para se suportar em vão. E se você pudesse adivinhar dentre os ares tranqüilos que inspirava para dentro que eu não iria, de longe, ficar para sempre com bochechas rosadas e gordas, bem...Você não o faria. Na verdade você nunca o quis. Porque era para ser um menino e nem meu órgão genital correspondeu bem ao que você esperava. Assim como as minhas bochechas que são rosadas, mas de tanto blush.
Ah, mamãe!, você me ensinou os primeiros princípios do capitalismo. Me obrigou a decorar toda a tabuada quando eu só tinha 6 anos. Em troca, eu poderia ver o desenho. Espera, eu só tinha vinte minutos para decorar toda a tabuada e um cérebro inocente e pequeno demais para guardar tanta informação. Mas eu guardei, mamãe. Porque eu não suportaria mais um olhar de desprezo e hoje já me bastam estes que você me lança quando eu volto da rua tão bebum. Papai olha rindo, porque já sabe que não há muito o que se fazer, no entanto, você se sente fracassada diante de um fígado tão inchado. Qualquer um diria que eu sou uma maravilhosa jovem, mamãe. Mesmo a magreza excessiva, os olhos tão distantes e o corpo encharcado de entorpecentes fascinam as pessoas. Mas não contigo, mamãe, pois sempre estive muito aquém de lhe agradar.
Agora você sai da cozinha para fazer sua reza. Não que eu me importe, porque eu também rezo, mamãe. Para Jesus guardar um pouco sua dor para depois e te poupar da humilhação de ter gerado uma junkie. Os filhos das suas amigas não estudam, mas também não se destroem como eu, não é? E a linha entre não ter cérebro e não dar valor à própria existência nem chega a ser tênue. Você poderia, oh Deus...você poderia? Deus... me perdoar?
Ah, mamãe!, você me ensinou os primeiros princípios do capitalismo. Me obrigou a decorar toda a tabuada quando eu só tinha 6 anos. Em troca, eu poderia ver o desenho. Espera, eu só tinha vinte minutos para decorar toda a tabuada e um cérebro inocente e pequeno demais para guardar tanta informação. Mas eu guardei, mamãe. Porque eu não suportaria mais um olhar de desprezo e hoje já me bastam estes que você me lança quando eu volto da rua tão bebum. Papai olha rindo, porque já sabe que não há muito o que se fazer, no entanto, você se sente fracassada diante de um fígado tão inchado. Qualquer um diria que eu sou uma maravilhosa jovem, mamãe. Mesmo a magreza excessiva, os olhos tão distantes e o corpo encharcado de entorpecentes fascinam as pessoas. Mas não contigo, mamãe, pois sempre estive muito aquém de lhe agradar.
Agora você sai da cozinha para fazer sua reza. Não que eu me importe, porque eu também rezo, mamãe. Para Jesus guardar um pouco sua dor para depois e te poupar da humilhação de ter gerado uma junkie. Os filhos das suas amigas não estudam, mas também não se destroem como eu, não é? E a linha entre não ter cérebro e não dar valor à própria existência nem chega a ser tênue. Você poderia, oh Deus...você poderia? Deus... me perdoar?
Donnerstag, Mai 28, 2009
"And now I know how Joan D'Arc felt..."
Finalmente pulamos da estante, compactamos nossos pés em pedaços de caminhos e suspiramos alto. Andamos. As mãos alcançam o coração, que bate através de uma felicidade louca. Felicidade? É incrível, mas ficamos tão desolados e cansados de permanecer sentados na estante que quando damos o primeiro pulo já não nos importamos tanto, a primeira impressão que fica é o alívio. Pés em passos pequenos, mas firmes. A certeza de que todas as tentativas foram malogradas, as situações iníquas e o fim, bem... não é o fim. No fundo, nós não temos o controle incondicional sobre a vida do outro.
Samstag, Mai 23, 2009
Ah, s'il vous plaît!
"Oh you can change your name and bleach your skin
Camouflage your accent so that even you don't recognise it
Because you are one ,because you live and breathe like one..."
{ The Slum Mums - Morrissey)
Porque é uma pilhéria que uma pessoa passe sua juventude tentando através de frases- que não conseguem manter uma vírgula no lugar - me atingir. Já não bastasse a vida ter-lhe pregado pontos de mediocridade por todo o âmago, ainda continua a se humilhar publicamente porque " não é como a Ana, mas não importa", ou ainda, manda recadinhos vulgares-ignaros. É de me causar uma certa piedade até.
Meu bem, sacode esse templo de bolinhos fritos e hambúrgueres que é o seu corpo e finge que está tirando a poeira da desgraça intelectual que se impregnou e não quer mais sair, ou, vá fazer uma lobotomia para ver se como um vegetal desmemoriado você encontra mais serventia no mundo. Saia dessa fossa, nem em um milhão de anos você deixará de ser quem é e photoshop algum esconde, entenda.
Camouflage your accent so that even you don't recognise it
Because you are one ,because you live and breathe like one..."
{ The Slum Mums - Morrissey)
Porque é uma pilhéria que uma pessoa passe sua juventude tentando através de frases- que não conseguem manter uma vírgula no lugar - me atingir. Já não bastasse a vida ter-lhe pregado pontos de mediocridade por todo o âmago, ainda continua a se humilhar publicamente porque " não é como a Ana, mas não importa", ou ainda, manda recadinhos vulgares-ignaros. É de me causar uma certa piedade até.
Meu bem, sacode esse templo de bolinhos fritos e hambúrgueres que é o seu corpo e finge que está tirando a poeira da desgraça intelectual que se impregnou e não quer mais sair, ou, vá fazer uma lobotomia para ver se como um vegetal desmemoriado você encontra mais serventia no mundo. Saia dessa fossa, nem em um milhão de anos você deixará de ser quem é e photoshop algum esconde, entenda.
Sonntag, Mai 10, 2009
Náusea
"Take a thorn from my pride
And hand in hand we'll take a walk outside..."
{Who feels love? ; Oasis}
Porque um trecho do livro de Sartre me veio à memória e eu não pude deixar de fazer comparações, paralelos e tentar eliminar os mesmos. Estou cansada. E não é desse cansaço que horas dos sonos dos justos esvaem, é mais para desistir mesmo. Aliás, nem desistência, está mais para o fato de eu saber demais o que obviamente leva o ser humano a ser infinitamente infeliz. Não é infelicidade gerada por pessoas ou situações, é todo um conjunto.
Machado mostrava o homem com suas avarezas, Dostoievski mostrava o lado ruim que usava o lado bom como desculpa para algo heróico. Eu simplesmente passo o raio X, que mais prefere se tornar uma partícula gama e passar direto sem olhar, mostrar, demonstrar e refletir. Direto. Mas não passa e eu fico olhando para tudo com grandes olhos de recém-nascido sem muito saber o que fazer. As partículas gama são felizes. Se são feitas de átomos deveria haver algum parentesco conosco, não? É, não posso incluir ninguém nos meus malogros.
Acontece que esse cansaço-náusea-infelicidade advém da minha percepção de como vocês guiam as suas vidas. Sim, ainda é o problema da mentira. Eu não entendo e só Deus sabe o quanto tentei entender. Aliás, fui além tentando fazer a mesma pose, os mesmos gestos, quiçá os mesmos sentimentos; e não funcionou. Não é de todo ruim, mas acontece que não é bom e não leva a lugar algum e se é para chegar a lugar nenhum eu prefiro continuar com o Grande Ego e egocentrismo. Nossos pais sempre nos ensinam a não falar com estranhos. Falamos, pegamos em suas mãos, dormimos com eles, sorrimos à eles e às vezes até chegamos ao matrimônio. Agora entendo, é um aviso para que a geração futura não se assole em marasmos e erros. E continuamos errando, não há saída. Lembro agora de Joseph K. : " Como um cão!"
And hand in hand we'll take a walk outside..."
{Who feels love? ; Oasis}
Porque um trecho do livro de Sartre me veio à memória e eu não pude deixar de fazer comparações, paralelos e tentar eliminar os mesmos. Estou cansada. E não é desse cansaço que horas dos sonos dos justos esvaem, é mais para desistir mesmo. Aliás, nem desistência, está mais para o fato de eu saber demais o que obviamente leva o ser humano a ser infinitamente infeliz. Não é infelicidade gerada por pessoas ou situações, é todo um conjunto.
Machado mostrava o homem com suas avarezas, Dostoievski mostrava o lado ruim que usava o lado bom como desculpa para algo heróico. Eu simplesmente passo o raio X, que mais prefere se tornar uma partícula gama e passar direto sem olhar, mostrar, demonstrar e refletir. Direto. Mas não passa e eu fico olhando para tudo com grandes olhos de recém-nascido sem muito saber o que fazer. As partículas gama são felizes. Se são feitas de átomos deveria haver algum parentesco conosco, não? É, não posso incluir ninguém nos meus malogros.
Acontece que esse cansaço-náusea-infelicidade advém da minha percepção de como vocês guiam as suas vidas. Sim, ainda é o problema da mentira. Eu não entendo e só Deus sabe o quanto tentei entender. Aliás, fui além tentando fazer a mesma pose, os mesmos gestos, quiçá os mesmos sentimentos; e não funcionou. Não é de todo ruim, mas acontece que não é bom e não leva a lugar algum e se é para chegar a lugar nenhum eu prefiro continuar com o Grande Ego e egocentrismo. Nossos pais sempre nos ensinam a não falar com estranhos. Falamos, pegamos em suas mãos, dormimos com eles, sorrimos à eles e às vezes até chegamos ao matrimônio. Agora entendo, é um aviso para que a geração futura não se assole em marasmos e erros. E continuamos errando, não há saída. Lembro agora de Joseph K. : " Como um cão!"
Freitag, Mai 08, 2009
I need some time in the sunshine...
Vai aqui alguns comentários básicos e aleatórios sobre o show do Oasis, aqui no Rio de Janeiro.
Saí atrasadérrima de casa, tirei o sono rodoviário de uma moça ao meu lado para perguntar onde era a tal Rua da Passagem. Resolvi ligar para Victor:
- Onde você está? Perimetral?
- Mas onde é a Perimetral?
- Rs,rs. Saindo da ponte, Ana... Saindo da ponte.
Dez minutos depois...
- O Flamengo fica antes do Botafogo, não é?
- Infinitamente, droga...
Mais dez minutos:
- Tcharam, cheguei!
- Onde você está?
- Em frente à padaria tal.
- É, meu prédio fica em cima, rs.
Depois de umas cervejas, conseguimos pegar o ônibus. Entretanto, nossas bexigas estavam quase estourando, juro que mais um quebra-molas e minha calça teria que ir para a janela secar... Enfim, saímos do ônibus, fomos à um barzinho, esvaziamos as bexigas e a surpresa: o engarrafamento estava tão intenso que pegamos o mesmo ônibus. Depois de fazer o caminho da Patagônia - a Barra da Tijuca fica tão longe...-, chegamos ao show. Luzes apagam, luzes acendem. Liam Gallagher aparece com o andar marrento-londrino, mascando chicletes. Guitarras e..."I live my life in the city,there's no easy way out..."; o público parecia que ia ter um infarte de tanta emoção. Braços levantados, todos pulando e cantando "Rock'n'roll star" impecavelmente.
A cada intervalo entre as músicas, Liam parava no palco para posar para as fotos. Também jogou sua toalha, mandou beijos e arremessou para alguém sua pandeireta.
No meio do show ninguém aguentava mais de tanto pulo, os pulmões pareciam que iam sair pela boca, mas ninguém desistia de cantar alto "supersonic", "champagne supernova" ou " Lyla". O momento mais bonito foi quando Noel cantou uma versão quase-acústica de " don't look back in anger", a multidão cantou o refrão sozinha, dando um descanso na voz do guitarrista principal da banda. Liam fazia gracinhas para a câmera e dialogava com alguns fãs da platéia. "Songbird" foi rápida mas perfeitamente cantada e tocada, de uma forma muito bonita. O show terminou com "I'm the Walrus", com o público perguntando se realmente tinha acabado e completamente estarrecido e emocionado com a banda. Só se ouvia o coro "Oasis! Oasis!" e os jovens saindo satisfeitos e felizes do Citibank Hall.
Saí atrasadérrima de casa, tirei o sono rodoviário de uma moça ao meu lado para perguntar onde era a tal Rua da Passagem. Resolvi ligar para Victor:
- Onde você está? Perimetral?
- Mas onde é a Perimetral?
- Rs,rs. Saindo da ponte, Ana... Saindo da ponte.
Dez minutos depois...
- O Flamengo fica antes do Botafogo, não é?
- Infinitamente, droga...
Mais dez minutos:
- Tcharam, cheguei!
- Onde você está?
- Em frente à padaria tal.
- É, meu prédio fica em cima, rs.
Depois de umas cervejas, conseguimos pegar o ônibus. Entretanto, nossas bexigas estavam quase estourando, juro que mais um quebra-molas e minha calça teria que ir para a janela secar... Enfim, saímos do ônibus, fomos à um barzinho, esvaziamos as bexigas e a surpresa: o engarrafamento estava tão intenso que pegamos o mesmo ônibus. Depois de fazer o caminho da Patagônia - a Barra da Tijuca fica tão longe...-, chegamos ao show. Luzes apagam, luzes acendem. Liam Gallagher aparece com o andar marrento-londrino, mascando chicletes. Guitarras e..."I live my life in the city,there's no easy way out..."; o público parecia que ia ter um infarte de tanta emoção. Braços levantados, todos pulando e cantando "Rock'n'roll star" impecavelmente.
A cada intervalo entre as músicas, Liam parava no palco para posar para as fotos. Também jogou sua toalha, mandou beijos e arremessou para alguém sua pandeireta.
No meio do show ninguém aguentava mais de tanto pulo, os pulmões pareciam que iam sair pela boca, mas ninguém desistia de cantar alto "supersonic", "champagne supernova" ou " Lyla". O momento mais bonito foi quando Noel cantou uma versão quase-acústica de " don't look back in anger", a multidão cantou o refrão sozinha, dando um descanso na voz do guitarrista principal da banda. Liam fazia gracinhas para a câmera e dialogava com alguns fãs da platéia. "Songbird" foi rápida mas perfeitamente cantada e tocada, de uma forma muito bonita. O show terminou com "I'm the Walrus", com o público perguntando se realmente tinha acabado e completamente estarrecido e emocionado com a banda. Só se ouvia o coro "Oasis! Oasis!" e os jovens saindo satisfeitos e felizes do Citibank Hall.
Sonntag, Mai 03, 2009
Tempo demais
Welcome I love you, don't you see?
Don't you see?
{ Fantastic Bird - Morrissey}
Ana contava com as mãos os papéis-textos, alguns manchados de café num acidente de sonolência. Já eram três da madrugada, as pálpebras pesavam e os cílios estavam úmidos. O maço de Marlboro já estava pelo fim, foi aí que se deu conta que tinha prometido parar de fumar. Nós sempre afogamos promessas, sacrifício remete à sofrimento e não à virtude.
Eduardo terminava seu conhaque, quer dizer, nunca terminava. Pois sempre que sumia a última gota de álcool daquele copo tão redondo ele enchia quase até a borda, na obrigação de evanescer os sentidos. Ele amava Ana, dos muitos cigarros e óculos de grau enormes.
Ana dava passos leves pela vida. Eduardo pisava desconfiado aonde quer que fosse. Ana adorava sorvete de casquinha ao final da tarde. Eduardo se limitava a uma soda. Ana gostava de copular com as cortinas fechadas. Eduardo gostava de enxergar cada centímetro daquela tez tão branca e tão frágil que até a luz poderia ferir. Além de tudo, ele gostava dos gemidos infantis e doces que ela costumava soltar. Ana gostava dos antebraços pálidos que envolviam a sua cintura estreita e que a rodava e rodava...
Uma lágrima. Ana não sabia se era sono, a brisa fria que acabara de atravessar a varanda ou saudade. Último cigarro, gole no café, empilhamento de textos e travesseiro. O travesseiro-amigo que sempre a ajudava a secar o rosto. Do outro lado da cidade, Eduardo adormeceu com a mão no copo e a face esborrachada na mesa. Acordaria mais tarde com um gosto amargo na boca.
Don't you see?
{ Fantastic Bird - Morrissey}
Ana contava com as mãos os papéis-textos, alguns manchados de café num acidente de sonolência. Já eram três da madrugada, as pálpebras pesavam e os cílios estavam úmidos. O maço de Marlboro já estava pelo fim, foi aí que se deu conta que tinha prometido parar de fumar. Nós sempre afogamos promessas, sacrifício remete à sofrimento e não à virtude.
Eduardo terminava seu conhaque, quer dizer, nunca terminava. Pois sempre que sumia a última gota de álcool daquele copo tão redondo ele enchia quase até a borda, na obrigação de evanescer os sentidos. Ele amava Ana, dos muitos cigarros e óculos de grau enormes.
Ana dava passos leves pela vida. Eduardo pisava desconfiado aonde quer que fosse. Ana adorava sorvete de casquinha ao final da tarde. Eduardo se limitava a uma soda. Ana gostava de copular com as cortinas fechadas. Eduardo gostava de enxergar cada centímetro daquela tez tão branca e tão frágil que até a luz poderia ferir. Além de tudo, ele gostava dos gemidos infantis e doces que ela costumava soltar. Ana gostava dos antebraços pálidos que envolviam a sua cintura estreita e que a rodava e rodava...
Uma lágrima. Ana não sabia se era sono, a brisa fria que acabara de atravessar a varanda ou saudade. Último cigarro, gole no café, empilhamento de textos e travesseiro. O travesseiro-amigo que sempre a ajudava a secar o rosto. Do outro lado da cidade, Eduardo adormeceu com a mão no copo e a face esborrachada na mesa. Acordaria mais tarde com um gosto amargo na boca.
Samstag, April 25, 2009
Para completar
Conversando com o Igor no MSN...
- Você está no laptop?
- Sim, e ele está in my lap. Adeus fertilidade!
- Vai para o blog.
- Sou coadjuvante do seu blog...
- Ah é!, o principal sou eu e o Grande Ego.
- Dois e dois são quatro.
Reeditando ( Ou " Sou lerda!"):
- Gostaria de poder retribuir as gentilezas e eu retribuiria da melhor maneira possível.
- Não entendo.
- Sorrisos, olhares.
- Não entendo, parte II.
- Gostaria de poder mostrar pessoalmente o quanto gosto de sua companhia.
- Não entendo - o confronto final. Mentira, mentira.
- Você está no laptop?
- Sim, e ele está in my lap. Adeus fertilidade!
- Vai para o blog.
- Sou coadjuvante do seu blog...
- Ah é!, o principal sou eu e o Grande Ego.
- Dois e dois são quatro.
Reeditando ( Ou " Sou lerda!"):
- Gostaria de poder retribuir as gentilezas e eu retribuiria da melhor maneira possível.
- Não entendo.
- Sorrisos, olhares.
- Não entendo, parte II.
- Gostaria de poder mostrar pessoalmente o quanto gosto de sua companhia.
- Não entendo - o confronto final. Mentira, mentira.
Sexta-Sábado
Ana se enche de delineador, sai do elevador do prédio puxando a meia sete oitavos e chega atrasada ( para variar) ao bar ( também chamado de "casa", rs). Depois de 7449479 cervejas, 3 maços de cigarro, fazer a ducentésima piada com o garçom - que nunca nos atende!-, invento de entrar na fila do banheiro para homens. Victor indignado, Ju já pegando o celular para gravar e mandar pro Youtube e eu gritando: " Eu tenho um pênis! Eu tenho um pênis!"; shame is the name. Não satisfeita com o bafón - nem com a quantidade de álcool-, compro uma Heineken e começo a passear aleatoriamente pela rua. Davi: " Comassim-má-onde-é-que-a-mocinha-estava?!"; " Eu? Passeando...".
Hoje, depois de desviar de todos os pivetes do Centro do RJ, chego ao Centro Cultural e sou abordada por um poeta : " Você é modelo fotográfica?!"; eu: " Ain, super que não."; ele: " Devia seguir a carreira, hein!"; eu: " Ih, é a maquiagem, super que argamassa! rs!"; e saio rodando pelo Centro. Meu celular toca:
- Alô?
- Oie.
- Quem é?
- Quem é que está falando?
- É a Ana, uai.
- Ah Ana! É o Léo, poxa!
- Passa aqui?
- Passo.
Meu cabelo já está quase na cintura, passo delineador até para ir na padaria, jogada na cadeira, cheia de livros em cima, com as unhas descascando e com o livrinho de poesias que o poeta me deu. É, a semana em dois dias.
Ain, tão cansada.
Hoje, depois de desviar de todos os pivetes do Centro do RJ, chego ao Centro Cultural e sou abordada por um poeta : " Você é modelo fotográfica?!"; eu: " Ain, super que não."; ele: " Devia seguir a carreira, hein!"; eu: " Ih, é a maquiagem, super que argamassa! rs!"; e saio rodando pelo Centro. Meu celular toca:
- Alô?
- Oie.
- Quem é?
- Quem é que está falando?
- É a Ana, uai.
- Ah Ana! É o Léo, poxa!
- Passa aqui?
- Passo.
Meu cabelo já está quase na cintura, passo delineador até para ir na padaria, jogada na cadeira, cheia de livros em cima, com as unhas descascando e com o livrinho de poesias que o poeta me deu. É, a semana em dois dias.
Ain, tão cansada.
Montag, April 20, 2009
Algum dia você poderia?

E você? Poderia
algum dia
por seu turno tocar um noturno
louco na flauta dos esgotos?
{Maiakóvski}
A Baía de Guanabara neste momento está recebendo grossos raios de sol de fim de tarde, que se espalharam por suas águas e a deixaram meio sépia. Todos estão fora e pela primeira vez em muito tempo não ouço berros e barulhos de louça pela casa.
Sabe a não-dor? É o que você sente quando já se passou tanta coisa que não faz mais tanta diferença assim. Afinal de contas, o que é dor, mentira ou sofrimento para quem já passou por ainda mais que isso há muito e ainda olha como se fosse um tipo de happy hour ou ainda, hora do rush? Lembro que o Matt me chamou de esquizofrênica do tipo delirante há alguns meses. Certamente, isso é passado, pois não vejo mais nada fora do lugar, não escuto, não sinto e não lembro. Pior, até lembro e isso me faz ter um surto de consciência e o coração até chega a ficar meio mole, sabe? Mas esse coração é tão abstrato que o meu próximo "eu te amo!" vai ser desenhado num papel ofício com canetinhas coloridas. Ou quem sabe com tinta a óleo em um quadro. Talvez, arte moderna. Não. Vai para o dadaísmo mesmo.
A verdade absoluta sobre a dor ( a verdadeira), é que ela nunca te acompanha - não por muito tempo-. Ela vai dentro de pouco tempo para o lado do passado, é o seu braço direito. E como nós sempre corremos ávidos e chorosos para o colo do passado acabamos por reencontrar nossas dores e todas intactas. Por isso estamos sempre muito inertes, por isso a vida tem se resumido a suspiros que não limpam o pulmão - e nem a alma-. Mas as pontes são infindas e ainda há um pouco de verde pela cidade. O telefone está tocando, vou pegar um café. Pelo menos assim eu consigo levantar ( eu poderia?).
Post Scriptum: O poema acima trata-se de um convite à loucura e ao "underground".
Dienstag, April 14, 2009
Então, então
- Vou amarrar uma corda no pescoço, escrever um poema, amassar, colocar no bolso...
- Essa foi a pior! rs
- Meu passado não importa.
- Você tem que esmagar seu passado para que ele não volte, digo as coisas ruins.
- De vez em quando voltam lembranças da infância. Daquelas que você sente o tato, cheiro.
- Por que qualquer lembrança nos enche de cólera?
- Por que?
(...)
- As pessoas são estúpidas naturalmente?
- É natural. Assim como a inteligência é por indicação divina, a idiotia também o é.
- Sinto algo maior me ajudando ás vezes, mas não sei dizer o que é.
- Hoje discuti com minha professora de Teoria da Literatura...Argumentei que um clássico traz consigo um significado único e por isso a nossa concepção muda durante os anos, porque adquirimos a maturidade e aí sim o entendemos.
- E o que ela disse?!
- Disse que estava errada e tinha dito isso na primeira aula... que nenhum livro possui uma verdade absoluta, significado único. Apenas pode ser interpretado em diferentes tempos de formas diferentes...
- E?
- Alguns colegas concordaram comigo. Ela começou a se contradizer, então, distorceu o que eu disse. Na verdade ela não compreendeu o que eu disse, mas não admitiu, lógico. Todos sabem que é falta de respeito tirar a conclusão que quiser de uma obra. Há algo maior, há verdades absolutas e os que nasceram para dizê-las.
- Sua paneleira...
- É, eu tenho seguidores. Por isso evito abrir a boca, não quero ser o próximo Mussolini.
- Eu também tenho. Sou o messias, ou, a besta. Ou o falso profeta. rs
- Deixe isso para os afetados.
- Essa foi a pior! rs
- Meu passado não importa.
- Você tem que esmagar seu passado para que ele não volte, digo as coisas ruins.
- De vez em quando voltam lembranças da infância. Daquelas que você sente o tato, cheiro.
- Por que qualquer lembrança nos enche de cólera?
- Por que?
(...)
- As pessoas são estúpidas naturalmente?
- É natural. Assim como a inteligência é por indicação divina, a idiotia também o é.
- Sinto algo maior me ajudando ás vezes, mas não sei dizer o que é.
- Hoje discuti com minha professora de Teoria da Literatura...Argumentei que um clássico traz consigo um significado único e por isso a nossa concepção muda durante os anos, porque adquirimos a maturidade e aí sim o entendemos.
- E o que ela disse?!
- Disse que estava errada e tinha dito isso na primeira aula... que nenhum livro possui uma verdade absoluta, significado único. Apenas pode ser interpretado em diferentes tempos de formas diferentes...
- E?
- Alguns colegas concordaram comigo. Ela começou a se contradizer, então, distorceu o que eu disse. Na verdade ela não compreendeu o que eu disse, mas não admitiu, lógico. Todos sabem que é falta de respeito tirar a conclusão que quiser de uma obra. Há algo maior, há verdades absolutas e os que nasceram para dizê-las.
- Sua paneleira...
- É, eu tenho seguidores. Por isso evito abrir a boca, não quero ser o próximo Mussolini.
- Eu também tenho. Sou o messias, ou, a besta. Ou o falso profeta. rs
- Deixe isso para os afetados.
Montag, April 13, 2009
Estrelas até o céu

O ônibus acelerava e freava de acordo com os pardais eletrônicos que ameaçavam uma multa. Arranhava o asfalto já tão gasto e tão maltratado pelas erosões do clima - e da imperfeita obra-. Não havia mais tantas luzes. Era manhã e os postes estavam apagados. O sol não chegava ao chão e nem passava perto das folhas de árvores. Engraçado isso, ele só ilumina as folhas, não as seca.
Cidade pequena, casa cheia. Uma garota branca, de óculos enormes e de tranças nos cabelos seria algo tão estranho assim? Talvez a garrafinha de água em mãos e o ar aluado a fizesse parecer uma estrangeira, talvez. Enfim, almoço de família, não? O " como você cresceu!", foi substituído pelo " como você está magra!"; lamentos. E a priminha de colo sorria e sorria. Olhos enormes, tênues. Com os olhos tênues e enormes talvez ela engolisse cada um por um e ninguém pudesse fazer-lhe mal, por isso ria para todos e babava.
Passos arrastados pela varanda e os olhos alcançaram o céu enorme e negro. Na cidade ele é negro, lá não. É azul-cor-de-céu-bonito. E enfeitado com estrelas que preenchem as pupilas e as fazem não parecer tão grandes assim. Afinal de contas, as veias nunca carregam sangue puro. Está sempre muito batizado e já desistiu há tempos de eliminar quaisquer das substâncias inseridas ao longo de anos, até o sangue é vítima do ócio proporcionado pelo monóxido de carbono. Os pés afundam na areia: maresia. Como há quatro anos, não é, meu amor? Mas os pés não afundavam assim tão puros na areia. O que afundou foi o corpo, na água salgada, e eu na sua cama toda vomitada; pior: o vômito era meu.
Tentar fechar a mala e carregá-la até em casa. "Estamos sempre voltando para casa", como diz uma amiga. Aqui o céu não possui estrelas, mas os edifícios possuem. E com poucas lágrimas e o sangue impuro, essas luzes-estrelas ganham mais vida e nós ficamos aqui. Deixamos os caminhos de terra e a vegetação sós. Entretanto, é no asfalto que os pés queimam e acumulam rasgos. Impossível de caminhar, por isso nos arrastamos. Aliás, por isso nos contorcemos em pedaços, para não ter que andar.
Freitag, April 10, 2009
Afetação
"Aquele que mantém a calma diante de todas as adversidades da vida mostra simplesmente ter conhecimento de quão imensos e múltiplos são os seus possíveis males, motivo pelo qual ele considera o mal presente uma parte muito pequena daquilo que lhe poderia advir: e, inversamente, quem sabe desse facto e reflecte sobre ele nunca perderá a calma. "
Arthur Schopenhauer, in "A Arte de Ser Feliz".
Por isso que eu sempre faço troça quando algum anencéfalo fala que "Schopenhauer era muito pessimista!", absurdo. Não entendo até hoje porque rotulam o velho germânico ranzinza como "pessimista". Nenhuma de suas obras faz uma previsão fora do normal sobre a sociedade e suas conseqüências. Ou ainda, não sei se minha visão também é pessimista ao ponto de não reparar esse tipo de afirmação explícita em seus textos. E aí está o problema de ler tão-somente as orelhas dos livros. Você se submete a uma interpretação superficial de outra pessoa que pode ter entendido ou não a obra. Tira todo o brilho e todo o mérito do escritor e de suas obras, é diretamente e impiedosamente uma falta de respeito.
Arthur Schopenhauer, in "A Arte de Ser Feliz".
Por isso que eu sempre faço troça quando algum anencéfalo fala que "Schopenhauer era muito pessimista!", absurdo. Não entendo até hoje porque rotulam o velho germânico ranzinza como "pessimista". Nenhuma de suas obras faz uma previsão fora do normal sobre a sociedade e suas conseqüências. Ou ainda, não sei se minha visão também é pessimista ao ponto de não reparar esse tipo de afirmação explícita em seus textos. E aí está o problema de ler tão-somente as orelhas dos livros. Você se submete a uma interpretação superficial de outra pessoa que pode ter entendido ou não a obra. Tira todo o brilho e todo o mérito do escritor e de suas obras, é diretamente e impiedosamente uma falta de respeito.
Sonntag, April 05, 2009
Felicidade
Borðum Og Drekkum Saddir...
{Ágætis Byrjun; Sigur Rós}
Não que eu não saiba o que seja, acho que agora todos sabem mais ou menos o que é e mal querem. Porque sentir e imaginar o que seria bom e ruim já passa muito longe de qualquer conceito de satisfação pessoal, talvez por isso o capitalismo se dê tão bem com os comerciais de televisão.
Sei que precisaria de pelo menos uma overdose por semana para me dar por satisfeita. Acordar ainda meio grogue, com o rosto ainda mais pálido do que de costume, magra de doer e repetir automaticamente: " amanhã é outro dia, a partir de agora nada de ficar tomando essas besteiras."; eu teria que me destruir quatro vezes por mês para ter alguma esperança de continuar caminhando.
Você tem a chance de compartilhar pedaços de sua vida com pessoas maravilhosas, você tem milhões de chances de ser feliz, mas essa felicidade já não significa mais tanto. Como ter a possibilidade de ter alguém maravilhoso do lado, salvar seu coração com um amor certo, dedicar seus finais de semana a este namoro, noivar, casar, ter filhos. Era para ser bonito (?). Mas é uma mentira, o modelo de se viver dos últimos tempos é uma mentira. Pois já começa tudo como uma grande mentira. Eu não consigo entender as atitudes dos jovens hoje... Mentir, mentir. Como se isso preservasse muita coisa. Como se estivessem tão desesperados que têm medo de caminhar lentamente ( como em passos de valsa) nas esquinas da verdade. Sendo que a verdade - e só ela! - é a chave de um caminho onde o mundo não pareça tão cheio de vicissitudes.
Fumo. Viro o rosto para a janela que mostra uma cidade já cheia de luzes noturnas. Respiro fundo querendo diferenciar o monóxido de carbono do ar com o do cigarro. Talvez a vida seja isso mesmo: café, cigarro, chá, dormir, algum órgão sexual, e procriação de seres que já vão nascer sem saber muito o que fazer neste mundo; talvez. E os ombros nem suportam mais o mundo, os ombros jogaram o mundo de lado e foram tentar ser pés. Não conseguiram, e agora temos órgãos que querem ser pés por todo o corpo. O coração andou e explodiu. O estômago andou e ganhou uma gastrite. As mãos cansaram de segurar o rosto tão lavado de lágrimas e também tentaram ser pés, e só se encheram de calos, sem muito sucesso. A vida agora é só vida. A vida apenas, sem mistificação, como diria Drummond.
{Ágætis Byrjun; Sigur Rós}
Não que eu não saiba o que seja, acho que agora todos sabem mais ou menos o que é e mal querem. Porque sentir e imaginar o que seria bom e ruim já passa muito longe de qualquer conceito de satisfação pessoal, talvez por isso o capitalismo se dê tão bem com os comerciais de televisão.
Sei que precisaria de pelo menos uma overdose por semana para me dar por satisfeita. Acordar ainda meio grogue, com o rosto ainda mais pálido do que de costume, magra de doer e repetir automaticamente: " amanhã é outro dia, a partir de agora nada de ficar tomando essas besteiras."; eu teria que me destruir quatro vezes por mês para ter alguma esperança de continuar caminhando.
Você tem a chance de compartilhar pedaços de sua vida com pessoas maravilhosas, você tem milhões de chances de ser feliz, mas essa felicidade já não significa mais tanto. Como ter a possibilidade de ter alguém maravilhoso do lado, salvar seu coração com um amor certo, dedicar seus finais de semana a este namoro, noivar, casar, ter filhos. Era para ser bonito (?). Mas é uma mentira, o modelo de se viver dos últimos tempos é uma mentira. Pois já começa tudo como uma grande mentira. Eu não consigo entender as atitudes dos jovens hoje... Mentir, mentir. Como se isso preservasse muita coisa. Como se estivessem tão desesperados que têm medo de caminhar lentamente ( como em passos de valsa) nas esquinas da verdade. Sendo que a verdade - e só ela! - é a chave de um caminho onde o mundo não pareça tão cheio de vicissitudes.
Fumo. Viro o rosto para a janela que mostra uma cidade já cheia de luzes noturnas. Respiro fundo querendo diferenciar o monóxido de carbono do ar com o do cigarro. Talvez a vida seja isso mesmo: café, cigarro, chá, dormir, algum órgão sexual, e procriação de seres que já vão nascer sem saber muito o que fazer neste mundo; talvez. E os ombros nem suportam mais o mundo, os ombros jogaram o mundo de lado e foram tentar ser pés. Não conseguiram, e agora temos órgãos que querem ser pés por todo o corpo. O coração andou e explodiu. O estômago andou e ganhou uma gastrite. As mãos cansaram de segurar o rosto tão lavado de lágrimas e também tentaram ser pés, e só se encheram de calos, sem muito sucesso. A vida agora é só vida. A vida apenas, sem mistificação, como diria Drummond.
Samstag, April 04, 2009
Do fundo do baú, o grande mestre fala:
"Mentiroso compulsivo é aquele que, desmascarado, não dá o braço a torcer: persiste na mentira, adorna-a de novos floreios, jura, esbraveja, argumenta, e tanto insiste que acaba deixando o interlocutor em dúvida. Porém mais perverso ainda, um sociopata em toda a linha, é aquele que, em tal situação, se faz de desentendido e continua falando no tom da maior normalidade e segurança, como se nada tivesse acontecido. Aí a mentira singular se transmuta em impostura permanente, estrutural, alterando de uma vez o quadro das relações humanas e quebrando, na alma do ouvinte, não a confiança nesta ou naquela verdade em particular que ele julgava conhecer, mas no próprio valor da verdade em geral. No primeiro caso, a mentira buscava imitar a verdade, parasitando o seu prestígio; agora ela se impõe por seus próprios méritos, como um valor em si, independente e superior à verdade. Perplexo e atordoado pelo fascínio da insanidade, o ouvinte se vê atraído para dentro de uma espécie de teatro mágico, onde o preço do ingresso é a abdicação não só do poder, mas do simples desejo de conhecer a verdade." ( Olavo de Carvalho; 'Da mentira à impostura').
Compreende-se de forma muito ampla a ação de criminosos. Assim como Raskólhnikov matou a velha sovina para se tornar um homem extraordinário, acreditando que estava fazendo um bem e ainda, ganhar um mérito próprio de dever cumprido. Muito diferente de crimes que não têm propósito ou funcionalidade dentro de uma lógica racional.
Sócrates mesmo elogiava a 'mentira nobre', como necessidade. A mentira e os crimes podem ser até analisados, quando há algo de consistente por trás destes. Agora, uma mentira, tão-somente mentira, para exaltar um ego recalcado, ou ainda, um ego que não há, é mais uma vergonha do que uma mentira. Como sei que a mediocridade não mede esforços, apenas digo: poupem-me dessa vergonha.
Compreende-se de forma muito ampla a ação de criminosos. Assim como Raskólhnikov matou a velha sovina para se tornar um homem extraordinário, acreditando que estava fazendo um bem e ainda, ganhar um mérito próprio de dever cumprido. Muito diferente de crimes que não têm propósito ou funcionalidade dentro de uma lógica racional.
Sócrates mesmo elogiava a 'mentira nobre', como necessidade. A mentira e os crimes podem ser até analisados, quando há algo de consistente por trás destes. Agora, uma mentira, tão-somente mentira, para exaltar um ego recalcado, ou ainda, um ego que não há, é mais uma vergonha do que uma mentira. Como sei que a mediocridade não mede esforços, apenas digo: poupem-me dessa vergonha.
Montag, März 30, 2009
Pashernate love
"Meras tentativas nós. Mas doces." (C. F. Abreu)
Você só falava anencefalias. Você costumava morrer de rir de tudo o que eu dizia, ou seja, eu sentia que não era apenas uma intelectobostinha cheia de sarcasmos. Você brigava por tudo: pelo meu time ter ganho do seu, por ciúmes do Fabz e tudo o mais. Você sempre foi um bebê chorão, quase um menino-moça.
Você acendia cigarros da marca que eu fumava só para tentar aparecer para mim. Você odiava a gramática, porque sabia que nunca ia escrever como eu. Você me fez querer ter uma família: sete filhos e um carro do comercial da televisão ("A primeira tem que ser uma menina bem sapeca, Ana!"); e só Deus sabe porque eu achava aquilo tão bonito.
Você morria de vontade de berrar aos céus o quanto me amava, mas ficava receoso de que eu o achasse um pândego. Você reclinava a cabeça no ônibus e pensava numa forma de me abraçar logo, e disfarçava o choro, para que o passageiro ao lado não te achasse um maricas. Você fez com que o foco deste blog fosse de mim para você, parabéns!, conseguiu por um minuto quebrar meu egocentrismo. Você dizia que eu era a mulher da sua vida, um sonho e pior: ainda o diz. Você não acreditou nem por um momento que eu fosse capaz de qualquer ato sórdido, mas quis crer, talvez assim conseguisse me esquecer. Anyway, você ainda é um fenilcetonúrico após a ingestão de muito aspartame.
Você só falava anencefalias. Você costumava morrer de rir de tudo o que eu dizia, ou seja, eu sentia que não era apenas uma intelectobostinha cheia de sarcasmos. Você brigava por tudo: pelo meu time ter ganho do seu, por ciúmes do Fabz e tudo o mais. Você sempre foi um bebê chorão, quase um menino-moça.
Você acendia cigarros da marca que eu fumava só para tentar aparecer para mim. Você odiava a gramática, porque sabia que nunca ia escrever como eu. Você me fez querer ter uma família: sete filhos e um carro do comercial da televisão ("A primeira tem que ser uma menina bem sapeca, Ana!"); e só Deus sabe porque eu achava aquilo tão bonito.
Você morria de vontade de berrar aos céus o quanto me amava, mas ficava receoso de que eu o achasse um pândego. Você reclinava a cabeça no ônibus e pensava numa forma de me abraçar logo, e disfarçava o choro, para que o passageiro ao lado não te achasse um maricas. Você fez com que o foco deste blog fosse de mim para você, parabéns!, conseguiu por um minuto quebrar meu egocentrismo. Você dizia que eu era a mulher da sua vida, um sonho e pior: ainda o diz. Você não acreditou nem por um momento que eu fosse capaz de qualquer ato sórdido, mas quis crer, talvez assim conseguisse me esquecer. Anyway, você ainda é um fenilcetonúrico após a ingestão de muito aspartame.
Samstag, März 28, 2009
How to disappear completely
That there, that's not me...
Tinha dormido com a sensação de corpo estranho. Mas estranho era aquele céu cinza-alvejado-brilhante, sem dúvidas. E mais estranho ainda era encarar aquele céu tão feio e que quase me cegava, sendo que não havia vento, ou melhor, até o vento era abafado.
Anteontem acordei saturada. Não que seja uma grande novidade eu estar completamente insatisfeita com tudo, mas incomodava. Da saturação originou-se a tristeza, da tristeza um certo desgosto, do desgosto uma raiva que não veio de mim. Foi inserida por outrens, e mal inserida. O que eu ainda não sabia é que a raiva provocava risos. Ou ainda, que ela fosse tão forte ao ponto de estragar minhas veias. Entretanto, metaforicamente, a substância branca que passeava entre minhas veias transportou o que eu tinha esquecido naquelas horas para meus queridos: dor.
Hoje acordei e basta, tão-só. O céu continua cinza-alvejado-brilhante e a saturação foi substituída pela vergonha de ter percebido que sou tão amada e tão querida por amigos que não tenho o direito de desintegrar, pelo menos não tão visivelmente. Eu sinto muito e como diria Kírilov : "Está tudo bem."
Tinha dormido com a sensação de corpo estranho. Mas estranho era aquele céu cinza-alvejado-brilhante, sem dúvidas. E mais estranho ainda era encarar aquele céu tão feio e que quase me cegava, sendo que não havia vento, ou melhor, até o vento era abafado.
Anteontem acordei saturada. Não que seja uma grande novidade eu estar completamente insatisfeita com tudo, mas incomodava. Da saturação originou-se a tristeza, da tristeza um certo desgosto, do desgosto uma raiva que não veio de mim. Foi inserida por outrens, e mal inserida. O que eu ainda não sabia é que a raiva provocava risos. Ou ainda, que ela fosse tão forte ao ponto de estragar minhas veias. Entretanto, metaforicamente, a substância branca que passeava entre minhas veias transportou o que eu tinha esquecido naquelas horas para meus queridos: dor.
Hoje acordei e basta, tão-só. O céu continua cinza-alvejado-brilhante e a saturação foi substituída pela vergonha de ter percebido que sou tão amada e tão querida por amigos que não tenho o direito de desintegrar, pelo menos não tão visivelmente. Eu sinto muito e como diria Kírilov : "Está tudo bem."
Dienstag, März 24, 2009
Minha alma gêmea come churrasco
Igor: Venha para Porto Alegre, Ana. Assim tenho com quem conversar nos intervalos.
Ana: Fumamos um cigarro...
Igor: Talvez. Conversar sobre literatura, filosofia e política. Sem esquerdismos baratos. Com pedantismos em língua e muito olhar de desprezo.
Ana: Tão-somente. rs
Ana: Fumamos um cigarro...
Igor: Talvez. Conversar sobre literatura, filosofia e política. Sem esquerdismos baratos. Com pedantismos em língua e muito olhar de desprezo.
Ana: Tão-somente. rs
Donnerstag, März 19, 2009
Commercial for levi
Eu sempre impliquei com você. Por usar all star, você era um poser. Por ter um pentagrama você era um falso-wicca. Por usar luvas e meias trançadas você era gay. Mas eu achava divertido te pintar com meu lápis de olho, te emprestar minha cinta-liga preta, a qual eu nunca deixei você cortar e costurar. Porque era a minha favorita, e eu não queria gastar mais dinheiro com o que não fosse bebida.
Eu sempre impliquei com você, e quando percebi que você ria e aplaudia, ao invés de me recriminar por eu berrar, chorar e fumar todos os seus cigarros, bem... percebi que não era tão ruim assim ter uma companhia e deixar o egocentrismo de lado. Percebi que encostar meu rosto - por estar chorando - na sua blusa tão branca e cheirosa de perfume e, manchá-la com meu batom sempre vermelho era confortável, era bonito. Hoje você está fazendo um dos tantos anos de vida que passamos juntos, nos paraísos de concreto, nos bares em que urinávamos sem respirar, por serem tão imundos. Eu nunca mais implicarei com você.
"Drunk on immorality
Valium and cherry wine
Coke and ecstasy
You're gonna blow your mind..."
Placebo.
Eu sempre impliquei com você, e quando percebi que você ria e aplaudia, ao invés de me recriminar por eu berrar, chorar e fumar todos os seus cigarros, bem... percebi que não era tão ruim assim ter uma companhia e deixar o egocentrismo de lado. Percebi que encostar meu rosto - por estar chorando - na sua blusa tão branca e cheirosa de perfume e, manchá-la com meu batom sempre vermelho era confortável, era bonito. Hoje você está fazendo um dos tantos anos de vida que passamos juntos, nos paraísos de concreto, nos bares em que urinávamos sem respirar, por serem tão imundos. Eu nunca mais implicarei com você.
"Drunk on immorality
Valium and cherry wine
Coke and ecstasy
You're gonna blow your mind..."
Placebo.
Freitag, März 13, 2009
Sexta-feira
Hoje é aniversário de minha mãe e acordei pesada. E nem foi pesada de cansaço, ou de tentativa, ou de malogro. Apenas sono que se assemelhou muito ao que virá ser o sopor aeternus. A louça estava toda para lavar e o que parecia preguiça se tornou um serviço rápido, não vejo passar o tempo.
Hoje é aniversário de minha mãe, minhas pernas parecem braços e meus braços parecem palitos de fósforo com nervos que permitem o movimento de levar o cigarro até a boca. No ponto de ônibus vi uma criança-menina que comprava balas acompanhada da mãe. A moça de meia idade sorria bondosamente para a filha, esperando-a escolher os doces. Achei bonito e doído. E o monóxido de carbono dos ônibus somados a esta cena fez meu rosto afoguear.
Subi as escadas do prédio e no próprio corredor acendi meu cigarro. Tragava e olhava para o verde imenso do campus, poucos estudantes no bloco de Letras, vazio. Nunca gostei de verdades, ainda menos de mentiras. Não gosto de mentiras porque sinto o cheiro delas de tão longe... E isso faz meu estômago revirar e queimar. Então caço verdades, mas quando as digo pareço falar em aramaico ou ainda, uma grande piada.
Hoje é aniversário de mamãe e acordei pesada. Dei-lhe um abraço e um beijo. Guardei meu maço de cigarros na caixinha vermelha de sempre, está pela metade. Devorei um salgadinho de camarão e fui ver o espetáculo dos relâmpagos e trovoadas. Não limpei meus olhos, nunca limpo e eles ficam delineados para um todo sempre. Mamãe chamou, limpei o rosto, porém ele estava vermelho. " Ah, filha...De novo?" - um muxoxo.
A voz canta:
Who's gonna save my soul now....
Who's gonna save my soouul noow?!
Hoje é aniversário de minha mãe, minhas pernas parecem braços e meus braços parecem palitos de fósforo com nervos que permitem o movimento de levar o cigarro até a boca. No ponto de ônibus vi uma criança-menina que comprava balas acompanhada da mãe. A moça de meia idade sorria bondosamente para a filha, esperando-a escolher os doces. Achei bonito e doído. E o monóxido de carbono dos ônibus somados a esta cena fez meu rosto afoguear.
Subi as escadas do prédio e no próprio corredor acendi meu cigarro. Tragava e olhava para o verde imenso do campus, poucos estudantes no bloco de Letras, vazio. Nunca gostei de verdades, ainda menos de mentiras. Não gosto de mentiras porque sinto o cheiro delas de tão longe... E isso faz meu estômago revirar e queimar. Então caço verdades, mas quando as digo pareço falar em aramaico ou ainda, uma grande piada.
Hoje é aniversário de mamãe e acordei pesada. Dei-lhe um abraço e um beijo. Guardei meu maço de cigarros na caixinha vermelha de sempre, está pela metade. Devorei um salgadinho de camarão e fui ver o espetáculo dos relâmpagos e trovoadas. Não limpei meus olhos, nunca limpo e eles ficam delineados para um todo sempre. Mamãe chamou, limpei o rosto, porém ele estava vermelho. " Ah, filha...De novo?" - um muxoxo.
A voz canta:
Who's gonna save my soul now....
Who's gonna save my soouul noow?!
Mittwoch, März 11, 2009
Who's gonna save my soul?
http://www.youtube.com/watch?v=mhxK2IOywVE
Did I never stop to wonder
Was it possible you were hurting worse than me?
Still my hunger turns to greed
Cause what about what i need?
And oooh...!
Who's gonna save my soul now?
Who's gonna save my soul now?
Oh, I know I'm out of control now
Tired enough to lay my own soul down...
Did I never stop to wonder
Was it possible you were hurting worse than me?
Still my hunger turns to greed
Cause what about what i need?
And oooh...!
Who's gonna save my soul now?
Who's gonna save my soul now?
Oh, I know I'm out of control now
Tired enough to lay my own soul down...
Freitag, März 06, 2009
Sai breguisse!
Um imbecil perto de outro imbecil é capaz de graduar sua imbecilidade.
Que o amor era cego eu já sabia, mas vê-lo tão hipócrita foi uma surpresa. E não foi uma surpresa desagradável, foi uma daquelas surpresas as quais esfregamos os olhos, perguntamo-nos "é isso mesmo?!", e caímos de rir. Eu com 19 anos - quase uma anciã-, quero (quero?!) um relacionamento com seus altos e baixos. Com brigas, dias apaixonados, beijos ao pôr-do-dol, porres e, por que não?, barracos ( incluindo garrafas quebradas e queixas na polícia, ah Lei Maria da Penha!).
Entretanto, os altos e baixos de um relacionamento são medidos pelo orkut. Amar é ter um álbum cheio de corações, fotos com legendas baratas de pagode, ou ainda, " I love you so much, my baby!". Quando se muda o status "namorando" para "solteiro", você ganha 15 minutos de fama, pois todos perguntam: " mas como assim vocês terminaram?". No fundo, creiam em mim, essas pessoas estão gargalhando de você. Só riem mais quando o status muda para "casado". Aí sim o circo, que é o orkut, fica completo. Quer dizer, ambos se traem, não se amam nem de longe, nem ao menos vêem qualidades um no outro. Mas têm um belo álbum e macacos de auditório ( amigos) que dão uma forcinha para a coisa não desandar (?).
Palavras são apenas fonemas. É, eu tenho que parar com essa mania de ver metáforas em tudo. Alguns tentam dar significados a mais às coisas. Não que realmente tenham, é que se a outra pessoa achar que tem, bem ou mal vai estar presa a isso, lamentavelmente vencida pela esquizofrenia e longe da exatidão. Enfim, que armem o circo para o palhaço morrer queimado de vez. E biltres, mil vezes biltres, os fabricantes de cerveja preta que põem tão pouco álcool nela.
Que o amor era cego eu já sabia, mas vê-lo tão hipócrita foi uma surpresa. E não foi uma surpresa desagradável, foi uma daquelas surpresas as quais esfregamos os olhos, perguntamo-nos "é isso mesmo?!", e caímos de rir. Eu com 19 anos - quase uma anciã-, quero (quero?!) um relacionamento com seus altos e baixos. Com brigas, dias apaixonados, beijos ao pôr-do-dol, porres e, por que não?, barracos ( incluindo garrafas quebradas e queixas na polícia, ah Lei Maria da Penha!).
Entretanto, os altos e baixos de um relacionamento são medidos pelo orkut. Amar é ter um álbum cheio de corações, fotos com legendas baratas de pagode, ou ainda, " I love you so much, my baby!". Quando se muda o status "namorando" para "solteiro", você ganha 15 minutos de fama, pois todos perguntam: " mas como assim vocês terminaram?". No fundo, creiam em mim, essas pessoas estão gargalhando de você. Só riem mais quando o status muda para "casado". Aí sim o circo, que é o orkut, fica completo. Quer dizer, ambos se traem, não se amam nem de longe, nem ao menos vêem qualidades um no outro. Mas têm um belo álbum e macacos de auditório ( amigos) que dão uma forcinha para a coisa não desandar (?).
Palavras são apenas fonemas. É, eu tenho que parar com essa mania de ver metáforas em tudo. Alguns tentam dar significados a mais às coisas. Não que realmente tenham, é que se a outra pessoa achar que tem, bem ou mal vai estar presa a isso, lamentavelmente vencida pela esquizofrenia e longe da exatidão. Enfim, que armem o circo para o palhaço morrer queimado de vez. E biltres, mil vezes biltres, os fabricantes de cerveja preta que põem tão pouco álcool nela.
Dienstag, März 03, 2009
No surprises

Mesmo com o pesar de afundar-se obrigatoriamente - a outra opção seria o tédio -, mesmo com a visão embaçada pela opaca película da mentira, mesmo torcendo os pulmões para aguentar o evanescer e toda essa nicotina barata, mesmo sabendo que emergir só piora pelas ações voltarem-se mais à demência do que à sensatez. Ainda assim, é doce.
Samstag, Februar 21, 2009
Eu finjo tanto que vou além do fingimento
Só agora consigo compreender de um todo o que o Arthur quis me dizer com " você tem que admitir que está triste". Não era para eu me olhar no espelho, encarar mais uma vez o rosto macilento e já gasto por tanta maquiagem e dizer: " Estou triste, ok?"; ou ainda, não convencida de tal estado, berrar com imperatividade: " Você está triste sim, olhe bem!".
Era só para eu não levantar minha sobrancelha direita, era para eu não fazer o olhar de calma-desdém, era para eu não ter prendido as lágrimas de forma tão brusca que vazaram para dentro dos olhos e se perderam nas glândulas, secaram. Acontece que nunca secam. E se não é lágrima agora, será um sangramento profundo após a certeza de que continuamos vivendo sem o que nos mantinha vivos. Então, somos fantasmas do que um dia quisemos ser, do que um dia sonhamos. Talvez nem fantasmas, porque esses pelo menos vagam pelo infinito, enquanto nossos sonhos têm que ser esmagados por nós mesmos, para que possamos continuar, para que possamos ser a Ana, para que possamos escutar do melhor amigo: " você tem que admitir que está triste."
Chego agora do bar, nem ao menos tirei os brincos, as mãos anda estão cheirando a Lucky Strike. Aqui, de frente para todos, meus olhos pesam em desgraça, minha maquiagem borra. Meus braços já caíram há muito em cima do teclado, cansados do esforço de tentar não sei o quê. Canto: Estou doente de coração e é assim que as coisas são.
Era só para eu não levantar minha sobrancelha direita, era para eu não fazer o olhar de calma-desdém, era para eu não ter prendido as lágrimas de forma tão brusca que vazaram para dentro dos olhos e se perderam nas glândulas, secaram. Acontece que nunca secam. E se não é lágrima agora, será um sangramento profundo após a certeza de que continuamos vivendo sem o que nos mantinha vivos. Então, somos fantasmas do que um dia quisemos ser, do que um dia sonhamos. Talvez nem fantasmas, porque esses pelo menos vagam pelo infinito, enquanto nossos sonhos têm que ser esmagados por nós mesmos, para que possamos continuar, para que possamos ser a Ana, para que possamos escutar do melhor amigo: " você tem que admitir que está triste."
Chego agora do bar, nem ao menos tirei os brincos, as mãos anda estão cheirando a Lucky Strike. Aqui, de frente para todos, meus olhos pesam em desgraça, minha maquiagem borra. Meus braços já caíram há muito em cima do teclado, cansados do esforço de tentar não sei o quê. Canto: Estou doente de coração e é assim que as coisas são.
Samstag, Februar 14, 2009
O ritual do eterno
Há um ano atrás:
Ventos balançavam os cabelos do casal. Eles dançavam ao ritmo dessa ventania marítima como se fosse um ritual. Croissants e cafés entre beijos. Cigarros. "Isso um dia ainda vai te matar"; dizia ele. Ela ria e desdobrava a fumaça de seus pulmões na face do amado, uma provocação amorosa que logo levava-os para a cama.
Parece que nunca mais ventou. Ela se recostava no banco do ônibus sem bem saber porquê tinha pego o ônibus. Não estava preocupada, pois nunca há preocupações depois do fim. Olhou para o lado e viu um bebê. Quis chorar, mas riu para a criança, e esse misto de lágrimas e riso a fez parecer ainda mais bonita. Dizem por aí que não há nada como a beleza de um mártir.
Pintou as unhas, depilou as pernas, deu o último trago no cigarro e entrou num banho morno. Vestiu-se, maquilou-se com cuidado e fechou a porta rumo à igreja. Aquela cidade era muito pequena, não havia vento, ou, parecia que o vento tinha se enraivecido da cidade e resolvera nunca mais voltar. Ela tentava equilibrar as sandálias naqueles milhões de paralelepípedos. Mas já estava feito. Talvez fosse culpa dos paralelepípedos, talvez.
Era arroz para todo o lado, os noivos saíam de braços dados da igreja. A noiva com um sorriso rasgando-lhe a face e criando dois pés-de-galinha, o noivo com um sorriso que mais parecia uma interrogação. Se o padre tivesse esperado... Se ela pudesse responder a pergunta: " Fale agora ou cale-se para sempre!". Não pôde ao menos escolher, calou-se, portanto.
Escondeu-se atrás do poste e observou o movimento. Pra quê dissimular a amargura? Ela estava estampada em seu rosto, e o desgosto quase fez seu corpo desfalecer. E se todos vissem esse estado, poriam as mãos no rosto e desesperados perguntariam como um rosto tão malogrado, tão choroso, suplicante e envolvido por pura dor, poderia ser tão lindo, tão iluminado. Uma obra de arte que uma das maldades que a vida traz pintou. Caiu de joelhos, o paralelepípedo lhe ralou.
No dia seguinte, de tardezinha, arrastou-se da cama do hotel. O mesmo vestido, a mesma maquiagem, olhos esfumaçados pelo lápis de olho. Saiu pela rua. Ele estava no barzinho da esquina, a noiva ficara em casa arrumando as panelas. Parou na direção dele. Quando ele olhou, não acreditou. O mesmo vestido indiano bordado, com decote até o umbigo. Os cabelos estavam mais longos, o rosto ainda respirava uma inocência que não existia. Sorriu derrotada. Um amigo chegou, postou-se diante dele tirando-lhe a atenção por alguns segundos. E, de repente, ela não estava mais lá, e em nenhuma parte da rua.
Ele esfregou as mãos na face sentado. Uma fumaça de cigarro invadiu seu rosto, era seu amigo sem querer. Teve vontade de chorar. Como milagre, ventou forte e ainda por cima com cheiro de maresia. Ele olhou para o nada com os cabelos bagunçados. Ela, há muitos metros, teve o vestido sacudido pelo vento. Cigarro, vento, amor: ritual do eterno.
Ventos balançavam os cabelos do casal. Eles dançavam ao ritmo dessa ventania marítima como se fosse um ritual. Croissants e cafés entre beijos. Cigarros. "Isso um dia ainda vai te matar"; dizia ele. Ela ria e desdobrava a fumaça de seus pulmões na face do amado, uma provocação amorosa que logo levava-os para a cama.
Parece que nunca mais ventou. Ela se recostava no banco do ônibus sem bem saber porquê tinha pego o ônibus. Não estava preocupada, pois nunca há preocupações depois do fim. Olhou para o lado e viu um bebê. Quis chorar, mas riu para a criança, e esse misto de lágrimas e riso a fez parecer ainda mais bonita. Dizem por aí que não há nada como a beleza de um mártir.
Pintou as unhas, depilou as pernas, deu o último trago no cigarro e entrou num banho morno. Vestiu-se, maquilou-se com cuidado e fechou a porta rumo à igreja. Aquela cidade era muito pequena, não havia vento, ou, parecia que o vento tinha se enraivecido da cidade e resolvera nunca mais voltar. Ela tentava equilibrar as sandálias naqueles milhões de paralelepípedos. Mas já estava feito. Talvez fosse culpa dos paralelepípedos, talvez.
Era arroz para todo o lado, os noivos saíam de braços dados da igreja. A noiva com um sorriso rasgando-lhe a face e criando dois pés-de-galinha, o noivo com um sorriso que mais parecia uma interrogação. Se o padre tivesse esperado... Se ela pudesse responder a pergunta: " Fale agora ou cale-se para sempre!". Não pôde ao menos escolher, calou-se, portanto.
Escondeu-se atrás do poste e observou o movimento. Pra quê dissimular a amargura? Ela estava estampada em seu rosto, e o desgosto quase fez seu corpo desfalecer. E se todos vissem esse estado, poriam as mãos no rosto e desesperados perguntariam como um rosto tão malogrado, tão choroso, suplicante e envolvido por pura dor, poderia ser tão lindo, tão iluminado. Uma obra de arte que uma das maldades que a vida traz pintou. Caiu de joelhos, o paralelepípedo lhe ralou.
No dia seguinte, de tardezinha, arrastou-se da cama do hotel. O mesmo vestido, a mesma maquiagem, olhos esfumaçados pelo lápis de olho. Saiu pela rua. Ele estava no barzinho da esquina, a noiva ficara em casa arrumando as panelas. Parou na direção dele. Quando ele olhou, não acreditou. O mesmo vestido indiano bordado, com decote até o umbigo. Os cabelos estavam mais longos, o rosto ainda respirava uma inocência que não existia. Sorriu derrotada. Um amigo chegou, postou-se diante dele tirando-lhe a atenção por alguns segundos. E, de repente, ela não estava mais lá, e em nenhuma parte da rua.
Ele esfregou as mãos na face sentado. Uma fumaça de cigarro invadiu seu rosto, era seu amigo sem querer. Teve vontade de chorar. Como milagre, ventou forte e ainda por cima com cheiro de maresia. Ele olhou para o nada com os cabelos bagunçados. Ela, há muitos metros, teve o vestido sacudido pelo vento. Cigarro, vento, amor: ritual do eterno.
Samstag, Februar 07, 2009
There's the light that never goes out

São 17:21 e eu estou terminando de pintar as unhas de vermelho. Não sei que orgulho é esse de boêmia que não me permite ficar sentada no sofá de casa vendo tv, ou ainda, esparramada na cama de mamãe folheando algum texto. Acho que é porque o dia está quente como há muito não era. Mentira. Mesmo que as ruas estivessem encharcadas, mesmo que houvesse uma grande enchente, eu estaria me descabelando para beber e fumar algo.
Provavelmente, vou me atirar como louca na pista de dança e depois passar o resto da noite sentada - na cadeira mais distante, fato - terminando meus últimos cigarros, e deixando apenas um para fumar de manhã antes de voltar para casa. Já passou da hora de me arrumar, ainda estou nas unhas vermelhas e meu delineador acabou - gastei metade do delineador escrevendo uma carta-. E uma carta que nem mandei. Pra ficar bonito. Porque nosso final é feliz-triste-com-uma-cereja-em-cima.
Agora são 20:02, estou terminando de puxar a meia preta até a cinta-liga. Pronto, abaixei o vestido e calcei as sapatilhas. Não vou passar batom, os olhos estão pretos demais. Vou comprar dois maços de cigarros e ainda vai faltar cigarros para mim. Que o meu pulmão padeça, então.
Mittwoch, Februar 04, 2009
Soma
Título referente à droga de "Admirável Mundo Novo" , Huxley.
Estou cansada de encontros e desencontros. Ir e vir e dar passos de dança enquanto se vem e se vai dói. Estou cansada de toda essa beleza triste, dessas de filmes e livros que as menininhas românticas por aí tanto almejam, é menos doce e mais amargo do que parece. Estou cansada de finais bonitos, porque percebi há tempos que não há final bonito sem ser final triste, pois é assim que não há final, só significados que perduram apunhalando durante toda a vida.
E eu nem pedi grande coisa da vida não. Acho que um útero fértil e um coração saudável é direito de todos que fazem respiração celular, acho. Mas vejo por aí e ninguém quer isso, só eu. A maioria quer o que eu tenho recebido da vida. Não vale a pena. Dir-se-ia que uma vida de sucesso é uma vida junkie, uma vida de noites, de conquistas, de paixões, de vômitos. Eu trocaria tudo isso para ver meu ventre inchar, para descansar a cabeça em algum ombro que não seja o meu, ou ainda, que não seja um dos ombros desconhecidos que tanto conheço por aí.
Estou cansada de contos de fada. Eles na verdade nada tem da leveza e suavidade que tanto nos encantam quando somos crianças. As princesas morrem envenenadas, os príncipes nem se lembram das princesas, a bruxa e madrasta são apenas metáforas do que é nosso destino e o "feliz pra sempre" é um aprendizado, quase um fardo. De ter que transformar sempre as quedas em passos de valsa.
Estou cansada de encontros e desencontros. Ir e vir e dar passos de dança enquanto se vem e se vai dói. Estou cansada de toda essa beleza triste, dessas de filmes e livros que as menininhas românticas por aí tanto almejam, é menos doce e mais amargo do que parece. Estou cansada de finais bonitos, porque percebi há tempos que não há final bonito sem ser final triste, pois é assim que não há final, só significados que perduram apunhalando durante toda a vida.
E eu nem pedi grande coisa da vida não. Acho que um útero fértil e um coração saudável é direito de todos que fazem respiração celular, acho. Mas vejo por aí e ninguém quer isso, só eu. A maioria quer o que eu tenho recebido da vida. Não vale a pena. Dir-se-ia que uma vida de sucesso é uma vida junkie, uma vida de noites, de conquistas, de paixões, de vômitos. Eu trocaria tudo isso para ver meu ventre inchar, para descansar a cabeça em algum ombro que não seja o meu, ou ainda, que não seja um dos ombros desconhecidos que tanto conheço por aí.
Estou cansada de contos de fada. Eles na verdade nada tem da leveza e suavidade que tanto nos encantam quando somos crianças. As princesas morrem envenenadas, os príncipes nem se lembram das princesas, a bruxa e madrasta são apenas metáforas do que é nosso destino e o "feliz pra sempre" é um aprendizado, quase um fardo. De ter que transformar sempre as quedas em passos de valsa.
Sonntag, Februar 01, 2009
Eu não preciso parar de beber, eu preciso de verdades
Então o que insistia em incomodar não eram suas lembranças, mas as lembranças alheias. Como era possível sentir tanto por um córtex cerebral que nem era seu? Não é mais questão de não ter vivido, do "ciclo das coisas não acontecidas", como diria Baricco. Não é mais questão nenhuma. Talvez por isso incomode, talvez. Porque se não é nada, não tem como curar, amenizar.
A cidade está aqui, os bares não saíram do lugar e nem o meu fígado ( apesar dos anos tentando destroçá-lo). É tão vazio que ultrapassa os limites do vazio. É espaço grande, é denso mas não preenche. Que diferença faz se estou no álcool ou no crack, meu bem? Eu mo falo: nem isso irá ocupar algum espaço, preencher.
Com que direito você acha que pode falar que me ama? Tirou a Ana sóbria de mim e ficou com a doce. E ainda fica andando acompanhado pensando em quando poderá me falar coisas de amor. Injustiça. Contigo, com quem te acompanha. A dor é de uma grosseria tremenda, não aceitou nem um chá quando lhe ofereci. Mas como eu estava falando... Ciclo das coisas não acontecidas, não é mesmo? Que guarda o significado de tudo aquilo que é! - berra Baricco aqui da janela.
A cidade está aqui, os bares não saíram do lugar e nem o meu fígado ( apesar dos anos tentando destroçá-lo). É tão vazio que ultrapassa os limites do vazio. É espaço grande, é denso mas não preenche. Que diferença faz se estou no álcool ou no crack, meu bem? Eu mo falo: nem isso irá ocupar algum espaço, preencher.
Com que direito você acha que pode falar que me ama? Tirou a Ana sóbria de mim e ficou com a doce. E ainda fica andando acompanhado pensando em quando poderá me falar coisas de amor. Injustiça. Contigo, com quem te acompanha. A dor é de uma grosseria tremenda, não aceitou nem um chá quando lhe ofereci. Mas como eu estava falando... Ciclo das coisas não acontecidas, não é mesmo? Que guarda o significado de tudo aquilo que é! - berra Baricco aqui da janela.
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